um olhar crítico sobre a indústria cultural baiana

Difícil lutar contra a impressão de que o mundo se encaminha para um espasmo final de boçalidade à medida que vamos envelhecendo. Isso sem dúvida explica a expressão nos rostos dos velhinhos menos senis, algo como uma resignação de quem sabe que pelo menos não terá que aturar os solavancos do vagão de gado por muito mais tempo.

Cinema me dá muito essa sensação. Nos anos 80 um filme do digamos Batman tinha piadas com obras do Francis Bacon e linhas memoráveis que se tornaram bóias salva-vidas para alguns (“Essa cidade precisa de um purgante” – quanta verdade há nessas palavras, palhaço do crime); a versão dos anos 00 é “relevante para o clima político atual”, com linhas como “It’s not who I am underneath, but what I do that defines me”.

Mas tudo isso mesmo só pra dizer que ontem eu vi um spot num programa de auditório em que uma pobre coitada engajada lia num cartãozinho sobre um, ahm, filme cuja essência e propósito enquanto obra de arte era lançar “um olhar crítico sobre a indústria cultural baiana”.

Vamos saborear isso de novo:

“Este filme lança um olhar crítico sobre a indústria cultural baiana”.

Agora, somos todos homens do mundo aqui, temos estado por aí já há algum tempo, temos visto até bastante, e consideramos grosseiras manifestações ostensivas de qualquer coisa, inclusive de world-weary cynicism, de ironia descolada, mas eu estou falando basicamente de um ambiente mental em que um adulto pode ir na televisão zurrar um troço desse calibre com uma candura e um comprometimento que só se costuma encontrar nas expressões de santos mártires em folhinhas católicas, sem suscitar o mais brando franzir de sobrancelhas entre os presentes1. A mulher diz aquilo e olha pro apresentador de programa com intensidade. A indústria cultural baiana, rapaz.

O filme estréia dia 30 agora, e a maior preocupação dos realizadores é “300”, de Zack Snyder, que estréia no Brasil no mesmo dia.

Ou seja, de um lado você tem um filme que lança um olhar crítico sobe a indústria cultural baiana, e do outro você tem um filme sobre 300 espartanos que combateram durante três dias e até o último homem o vastamente superior exército Persa, numa das mais famosas passagens militares da História.

All together now: Mmmmm…
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1 – Só me faz pensar que tem muita gente por aí com dinheiro (dos outros) na mão e sem a menor idéia do que fazer com ele (ou com muito espírito de porco). Só isso explica “Antônia”, o fracasso de bilheteria mais legal do ano. Sério, façamos uma experiência aqui: Fechem os olhos e imaginem o tamanho do público-alvo potencial para um filme sobre garotas do subúrbio que viram estrelas superando obstáculos sociais e discutindo problemas femininos.

Vamos lá, de com força agora. Quantos dos seus conhecidos você consegue realisticamente imaginar dizendo “Putz, tou muito a fim de ver ‘Antônia’, parece que as meninas cantam pra caralho”. É, e elas dançam, também. Elas têm uns passos assim, tal.

Na boa, cineastinhas de esquerda (como se houvesse outro tipo) do meu Brasil: Vamos fazer cursinho por correspondência de eletrotécnico, chaveiro ou de mecânica de automóveis? Nunca é tarde para experimentar a sensação de realização de um trabalho bem-feito, de ser um cidadão que efetivamente colabora de alguma forma mensurável para o bem-estar da sociedade (E Deus sabe como é difícil achar um chaveiro de confiança quando a gente precisa…)

3 Comments so far

  1. Gleidson (unregistered) on March 26th, 2007 @ 3:53 pm

    clap clap clap!!!!!!!


  2. letícia (unregistered) on March 26th, 2007 @ 4:57 pm

    elton, vou ter que parar de escrever.

    SWEET LORD MESQUITA.


  3. LP (unregistered) on March 28th, 2007 @ 12:00 am

    O filme em questão é “ó, pai, ó!” da monique gardenberg, aquela que produziu com a irmã os inesquecíveis Free Jazz e produz ainda os atuais Tim Festival. Mas, como se diz na Bahia: “lança um olhar crítico” de cú é rôla!



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