domingo, 1º de Abril

Domingo por volta das nove da manhã começamos a subir. O dia está claro e ainda não muito quente, e subimos sem dificuldade a primeira parte do trajeto: basicamente uma inclinação suave num caminho de pedra, que aos poucos, quase imperceptivelmente, vai ficando mais íngreme.

Falamos pouco para poupar oxigênio, nos concentrando em negociar o melhor possível o peso das mochilas com a inclinação da subida, troncos inclinados para a frente, e bastante energia ainda para fazer piadas. O caminho agora é formado por degraus sucessivos apoiados ou sobre as raízes da árvores ou sobre tabiques de madeira colocados para esse fim. De um lado e de outro do caminho, mata fechada, cipós e barrancos inclinados que a vegetação encobre – e embora estejamos protegidos do Sol e do calor pela humidade da floresta, já dá pra perceber que o dia vai ficando mais quente.

Logo o terreno começa a ficar acidentado de verdade: grandes pedras que têm que ser vencidas num ensaio da escalada de verdade que nos aguarda. E continuamos a subir, usando cipós e troncos finos de árvores para nos içar, e olhando de vez em quando para trás já podemos ver pedaços da Barra da Tijuca ao longe, bem embaixo, a praia apenas uma faixa branca e o mar imenso, verde esmeralda e azul. Aglomerações de casas e vilas no meio do mato e uma ou outra mansão solitária.

Finalmente saímos da proteção da floresta para o Sol que já queimava – do chão úmido de terra batida para o solo seco e amarelo de onde sobe uma poeira fina e sufocante em que temos que pisar com cuidado para não escorregar, passando por um breve trecho de queimada – chão e vegetação negra, torrada, cheiro de chaminé de fábrica, cheiro de tijolo queimado. Hora de tirar a camiseta e amarrar na cabeça, que não tá fácil, hora de beber mais água e olhar para o alto, para o topo do pico da Gávea, que ainda está longe.

Após continuarmos subindo e tostando, escorregando na poeira, finalmente chegamos à base de pedra onde a escalada pra valer começa – escalada improvisada, usando apenas mãos e pés, bom-senso em certos trechos e absoluta falta de em outros (é saber reconhecer quando é hora de um e a hora do outro). O trecho ganhou nome próprio, o que deve significar algo: A Carrasqueira, um ponto da subida em que o sujeito tem que ser muito malandro, pois um deslize e é queda livre sem ter onde se agarrar – às nossas costas, o Rio de Janeiro inteiro, pequeno, lá embaixo, e nada mais.

É um dia movimentado no pico da Gávea, e um monte de gente faz fila para subir, grupos de jovens mochileiros, um tiozão esportista, small talk entre um gole de água e outro, grupos tirando fotos com a paisagem belíssima ao fundo. Há um clima agradável de apoio mútuo e encorajamento, as pessoas oferecem as mãos como suporte para quem tem dificuldade, dão conselhos sobre a melhor maneira de subir, tranquilizam algumas das garotas mais nervosas. Não parece um lugar em que caiba uma tragédia, com tantos sorrisos e histórias sendo compartilhadas, e no entanto, enquanto subo tateando à procura de pontos de apoio para as mãos e os pés, não posso deixar de olhar para trás, para baixo, e, sentindo a vertigem inevitável, imaginar o quanto agora depende de alguns segundos de indecisão, de talvez alguns gramas a mais de peso numa pedra não-confiável. É tudo amadorístico, não há ganchos ou cordas, nenhum dispositivo de segurança, e a Carrasqueira, embora não seja muito íngreme, é traiçoeira por não ter muitos reentrâncias óbvias por onde progredir, o que requer um ato de fé em muitos pontos: confiar que a inclinação e a força dos seus dedos serão suficientes para que não se escorregue. A rocha é quente tocando meu peito e barriga, e ainda assim eu me aperto mais contra a montanha, tentando não me distrair com os pensamentos insistentes sobre se a sola dos meus tênis é aderente o suficiente, sobre o que exatamente vai acontecer quando eu tiver que depositar todo o peso do corpo em alguns centímetros quadrados de área. De alguma forma eu consigo me içar até o pico da pedra, e a partir daí fica mais fácil: É só seguir com cuidado a trilha estreita de barro seco – com cuidado mesmo, porque de um lado é pedra e do outro é absolutamente nada – até o ponto em que o terreno se estabiliza.

Em pouco tempo estamos no topo, e o Rio de Janeiro agora cabe todo num olhar: Zona Norte e Zona Sul, a Lagoa, os Dois Irmãos, a floresta; de um ponto oposto ao nosso, descem suavemente asas-delta e parapentes coloridos, no mar podemos ver barquinhos brancos fazendo evoluções entre as ilhotas.

Hora de descansar e apreciar a vista, tentando esquecer que a Carrasqueira é ainda pior de descer que de subir.
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4 Comments so far

  1. Gleidson (unregistered) on April 3rd, 2007 @ 3:08 pm

    E como foi a descida?!?!? Como foi??!?!?


  2. Elton (unregistered) on April 3rd, 2007 @ 4:14 pm

    Cara, a descida foi pior, muito mais cansativa. No meio do caminho os músculos da minha coxa tavam cantando a Ave-Maria, já… mas ninguém morreu >)


  3. marcelojhonas (unregistered) on April 3rd, 2007 @ 4:41 pm

    Visual…bela foto.


  4. letícia (unregistered) on April 5th, 2007 @ 2:57 pm

    pra baixo todo santo ajuda?

    não?



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