Pequena fábula de um sapato em fuga

Era um par de sapatos negros estilo boneca anos 40 esperando a próxima rota de fuga. Belos, conseguiam reluzir um verniz infinito em meio à escuridão do brechó ao ar livre onde foram encontrados pela penúltima vez. Eu havia descido na parada errada do metrô: em vez do Catete, a Glória. Ascendi da escada subterrânea para a escuridão das 20h. Prostitutas faziam ponto já na saída. Mendigos, estudantes, senhorinhas de mãos dadas e popozudas com roupa de academia circulavam de um lado para outro das ruas. Eu sentia um certo medo, um desconforto de estar numa região sem intenção certa do que se quer ser: se parada de miseráveis, se bairro familiar.

As calçadas apinhadas de quiquilharias formavam uma colcha de retalhos de objetos que um dia já significaram algo, ou que não significaram nada, para alguém. Tentava identificá-los no chão, mas era difícil à meia luz dos postes. Percebia sombras de telefones antigos, vinis, roupas em varais, carcaças de louças, talheres, dedais, gravadores. Eram objetos velhos, meros cacos de qualquer coisa. Não me falavam absolutamente nada. Seguia caminhando em meio àquele cemitério de coisas até que, poucos metros adiante, os sapatos que me sorriram.

Consegui identificar imediatamente que eram do meu tamanho mesmo antes de calçá-los. Cinderela urbana em segundos, já conseguia visualizar os bailes que rodariam sob meus pés. E custavam R$ 8,00. Apenas oito reais! A decisão de compra foi imediata.

Carreguei os sapatos embaixo do braço num saco plástico de supermercado. Sorria de prazer não apenas pela aquisição, mas por ter descido na parada errada, por ter circulado em meio àquela fauna urbana simultaneamente tão rica de vida e tão decadente, e que jamais escolheria circular não fosse o acaso que me levasse ali. E aqueles sapatos semi-novos, de design e material perfeitos…

Eu nunca tive problema em dormir em colchões usados – confesse se raramente você pensa nisto quando apaga a luz num quarto de hotel após um longo dia de trabalho longe de casa. Ou quando vive intensamente alguma história só sua sobre a cama de um motel. Talvez porque os lençóis do colchão sejam lavados e desinfetados (pelo menos assim tentamos crer), e você só sente o seu suor ou o suor alheio de quem lhe faz companhia. Mas eu ainda conseguia sentir o suor dos pés que calçaram aqueles sapatos, e isto me causava inquietação e fascínio. Impossível não tentar pensar nos pés que os calçaram. Como era a dona? Por que os deixou? Na minha pequena viagem mental eu via um par de brancas canelas grossas, com uma saia bege cobrindo os joelhos. Tentava compor seu guarda-roupa, seu estilo, sua maneira de ser. Me vi aos poucos construindo um alter ego que nascia de baixo para cima: primeiro pés, depois quadris, cintura, pescoço e cabeça.

Não cheguei a construir uma alma, pois a poucos metros a paisagem e o momento mudaram. Entrei numa rua linda, tranqüila e silenciosa, num botequim de muita personalidade, para meu primeiro encontro com os metrobloggers. Entre amigos de décadas e novos amigos que eu só conhecia através das linhas digitais deste espaço, não levou muito para o encontro dar liga. O riso era imperativo entre cervejas, cachaças e ovinhos de páscoa. O bom humor era genuíno e o teor etílico, sob medida e sem exageros, só fez aflorar o melhor de nós.

Despertei na manhã da quarta-feira com uma vontade de comer mais manteiga do que pão. E sairia para trabalhar vestida de Cinderela urbana, orgulhosamente calçando meus sapatos mágicos que ainda sem nem terem me calçado, já me traziam pílulas de plenitude. Fui procurá-los na bagunça das roupas que joguei num canto da sala . Para minha surpresa, não estavam lá. Vasculhei o quarto, a cozinha, o banheiro. Nada. Nem vestígio de um raio sequer de verniz.

Há quase uma semana eles me deixaram. Tenho certeza que não calçam os pés de Dorothy, nem os de Cinderela.Vagam agora em algum lugar do Rio de Janeiro, à procura de outros pés, outras histórias, longe de closets empoeirados e de calçadas escuras. Vagam livres, pois em realidade, nunca foram meus.

8 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on April 9th, 2007 @ 4:15 am

    eu adoro o shopping chão da glória. é incrível mesmo. e tb sempre imagino a vida das pessoas das minhas roupas de brechó.

    e de fato, o sapato – tão lindo, EU LEMBRO – não era pra ser teu. que coisa.

    ali na rua do lavradio tem um brechó óóótimo q tem muito sapato. passa lá, cinderela.
    (:


  2. (unregistered) on April 9th, 2007 @ 10:46 am

    bonito.


  3. lucas (unregistered) on April 9th, 2007 @ 10:48 am

    bonito.


  4. (unregistered) on April 9th, 2007 @ 1:31 pm

    Eles foram embora para vc contar essa linda história. :)

    Mas se eu achar, não devolvo!!! kkk

    Bjs


  5. ilka porto (unregistered) on April 9th, 2007 @ 1:32 pm

    Eles foram embora para vc contar essa linda história. :)

    Mas se eu achar, não devolvo!!! kkk

    Bjs


  6. Gleidson (unregistered) on April 9th, 2007 @ 2:14 pm

    Deve ter sido a loirinha mal-amada! rsrsrs


  7. LP (unregistered) on April 9th, 2007 @ 2:37 pm

    Houve uma época em que a minha paixão pelo Botafogo me levou a cometer sandices. Dia de jogo no Maracanã, o Botafogo jogava mal ou perdia e eu atribuía o fato às minhas meias, inicialmente. Elas estariam dando azar. Então jogava fora uma… depois a outra, da arquibancada em direção à “Geral”. Houve um dia em que o time esteve tão infeliz que tive que jogar as meias mas também a camisa e os sapatos e voltar pra casa apenas de calças. É fato. Alguns amigos podem atestar. Mas isso passou. :)


  8. marcelojhonas (unregistered) on April 9th, 2007 @ 4:42 pm

    vc voltou nos lugares onde fomos naquele dia?



Terms of use | Privacy Policy | Content: Creative Commons | Site and Design © 2009 | Metroblogging ® and Metblogs ® are registered trademarks of Bode Media, Inc.