mise-en-scène

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foi no Baixo Gávea, um barraco generalizado, coisa de casal em fim, traição, eu acho. a gente não entendia nada, uns palavrões soltos, aquele aglomerado em volta e uma garrafa de cerveja voou estilhaçando no meu pé. claro, cagada em pau de arara. era uma semana da porra, azar rolando no ar. uma desgraça essa vida de gente que desconta mágoa em alheios. ele estava no bar da frente, divididos pela rua – eu numa esquina, ele na outra. e frequentávamos as noites dos mesmos dias. inacreditável toda a coincidência pós barraco de bêbado e garrafa no pé. e eu além daquilo tudo gritando meu horror. ele chegou discreto, querendo ajudar. eu sonhava acordada um jeito de não sentir dor. ele limpou os cacos, fez um curativo de guardanapo com band-aid e escreveu o telefone no papel. só notei em casa. um número por cima do sangue. liguei. deixei chamar três vezes. desliguei. ele ligou de volta. eram 04:30h. pra que usar de tanta educação pra destilar terceiras intenções. daí para a paixão foi fácil. acordos possíveis. envolvimento. sexo bom. o Baixo Gávea era nosso cupido e nosso inferno. nos desentendemos como já era de se esperar. a imbatível precisão dos três meses. se sustentar, vira amor ou dependência sentimental. eu me recusava a acreditar naquilo tudo. mas desgastou. ciúmes, crises, questões freudianas entre nós dois. os garçons já perguntavam – cadê o cara? e eu fui sumindo do território que adorava. como a gente conta que deu fim? era a conspiração social anti-casais. e ninguém nunca havia perguntado sobre nós dois. mas agora era praxe. e eu sorria amarelo. a emoção acabou. depois eu descobri o que era toda aquela tortura. a falta que faz. e eu que não gostava de Cazuza, cabia perfeita – prendia o choro e aguava o bom do amor.

7 Comments so far

  1. lucas (unregistered) on April 17th, 2007 @ 6:03 pm

    Lindo, minha amiga. Lindo.


  2. LP (unregistered) on April 17th, 2007 @ 6:16 pm

    Gostei


  3. letícia (unregistered) on April 17th, 2007 @ 8:14 pm

    camilaaaaa
    não há coincidências
    hoje na sala de espera do dentista, tocou:

    solidão, que nada

    daí fiquei com uns pedaços na cabeça e até anotei:

    meu novo nome é
    Um estranho que me quer

    camila, te acho um satélite.
    sei que vc quer amar
    mas não há promessas
    não…

    é só um novo lugar.

    viver é bom, bichinha.


  4. diogo (unregistered) on April 18th, 2007 @ 11:47 am

    adoro letras minúsculas para contar histórias maiúsculas. a minha vida é assim também.


  5. Cambará (unregistered) on April 19th, 2007 @ 2:16 am

    Laboratório fez vida, alimentou vida. Agora, mais do que nunca, ninguém segura-te!


  6. carlos saraiva (unregistered) on April 20th, 2007 @ 5:44 pm

    num trem pras estrelas/depois dos navios negreiros e outras correntezas

    beijo beijo


  7. Ju (unregistered) on April 24th, 2007 @ 3:08 pm

    Maravilhosa esta história. Sonhei durante os segundos que a li.



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