Ainda sobre o trabalho

Em 26 de janeiro do ano passado o IBGE divulgou na sua Pesquisa Mensal de Emprego os seguintes dados:

1 – Apesar da sua fama de vagabundo, o carioca é o que mais trabalha no país. Dentro das seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Recife, Salvador e Belo Horizonte) o Rio de Janeiro lidera o ranking de jornada de horas efetivamente trabalhadas em 2005, com 41,6 horas.
2 – Apesar da fama os paulistas ficam em segundo lugar, com uma jornada média de 41,3 horas. A média das seis regiões ficou em 41 horas semanais.
3 – A jornada média de trabalho superou a de São Paulo também em 2004. A jornada paulista foi de 41,4 horas e a carioca foi de 41,6 horas trabalhadas.
4 – No ítem renda média mensal o Rio ocupa apenas o quarto lugar, com R$ 919,95. Os paulistas lideram com um salário médio de R$ 1.110,27.
5 – A região metropolitana do Rio é a única em que mais da metade da população ocupada é formada por chefes de família e também é a região com menor participação rentária de outros membros da família — mulheres e jovens.
6 – A renda menor carioca é explicada pela maior participação dos setores de comércio e de serviços no Rio, que apresentam remuneração menor do que a da indústria.
7 – O Rio tem a maior participação de pessoas ocupadas com 50 anos ou mais, com 21,8%. Segundo o IBGE, isto deve-se à maior concentração de habitantes nessa faixa etária na região.
8 – O carioca é o que tem o emprego mais duradouro. Isto contribuiu para criar vínculos e aumentar a dedicação. No Rio, o percentual de pessoas empregadas no mesmo local há mais de dois anos chega a 72%. Em São Paulo, o índice cai para 66,5%.

Em 27 de janeiro a Folha Online publicou matéria noticiando a pesquisa com o título “Carioca trabalha mais do que paulista, diz pesquisa do IBGE”. Em seguida linkou uma enquete perguntando aos leitores — em sua maioria paulistas, presumivelmente — se de fato “Carioca trabalha mais que o paulistano? Dentre os que responderam, 49% acreditam que sim, o carioca trabalha mais que o paulistano, mas 51% deles relativizaram os números, afirmando que o resultado do trabalho deve ser analisado também sob o ponto de vista da produtividade.

11 Comments so far

  1. Gleidson (unregistered) on April 18th, 2007 @ 12:52 pm

    Neste exato momento…. to cheio de trabalho!
    PQP!


  2. lucas (unregistered) on April 18th, 2007 @ 1:23 pm

    Por que as pessoas vêem trabalhar muito como mérito? O Rio trabalha mais porque é mais pobre. Os alemães tem jornada de 35h semanais. Quem diria que eles são vagabundos? Mas carioca, apesar de trabalhar mais, tem fama de malandro. Prefiro que minha cidade seja lembrada pelo samba que pelas pessoas com cara de zumbi de manhã no metrô.


  3. LP (unregistered) on April 18th, 2007 @ 2:08 pm

    As coisas devem ser observadas dentro dos seus contextos. Se um povo têm a fama de vagabundo, e convenhamos, nós temos, e, convenhamos de novo, isto não é lá muito lisonjeiro — quantas empresas desejam ser instaladas numa cidade violenta e cheia de vagabundos? — então é mérito sim a sua grande capacidade de dedicação e de produção. Apesar dos pesares o Rio é a segunda economia do país. E, na minha opinião, isto deve ser dito. Além do que, fazer samba não é contar piada… Sambista também é trabalhador e tem todo o direito de viajar sonolento dentro do carro do metrô…


  4. letícia (unregistered) on April 18th, 2007 @ 3:04 pm
  5. lucas (unregistered) on April 18th, 2007 @ 5:38 pm

    Letícia: apoiada.

    LP: fazer samba não é contar piada, mas também não é bater ponto. o trabalho excessivo é sinônimo de pobreza. material e espiritual. só isso. ninguém tem o “direito de andar sonolento no metro de manhã”, se essas pessoas (incluisive eu) pudessem, estariam na cama dormindo. ou talvez acordassem cedo pra fazer mais samba, ou tomar uma cerveja, ou ir a igreja, ou fazer sexo. esse “direito” na verdade é uma obrigação chatíssima.

    Isso tudo me lembra a alegria de Thomas Friedmann ao falar de indianos com a incrível capacidade de imitarem o sotaque americano em suas empresas de tele-atendimento que prestam serviços às multinacionais… quanta humilhação para conquistarem o direito de viverem de forma ainda mais humilhante…

    triste…


  6. LP (unregistered) on April 19th, 2007 @ 4:35 pm

    Isso tudo me lembra a alegria (?!) de milhões de desempregados ou sub-empregados — e seus dependentes — que estão nesta situação graças à perda de dinamismo na economia do estado e que agora têm todo o tempo do mundo para tomar cerveja, trepar, rezar e tocar violão mas, infelizmente, não têm recursos nem paz de espírito pra usufruir dessas, digamos, nobres atividades.

    Isso tudo me lembra, também, que todos gostariam de trabalhar três horas por dia, na praia, de preferência à sombra, tomando água de coco, escrevendo um poema ou compondo mais uma bossa-novinha enquanto recebem beijocas e cafunés da Juliana Paes e aguardam o belo pôr do sol para ser aplaudido em delírio.

    Mas infelizmente isto não é possível. Não se pode chegar ao ótimo antes de passar pelo razoável. E o razoável é, primeiramente, reverter uma tendência de esvaziamento que se manifesta à décadas por aqui. É uma lei da física. Saíram daqui todos os grupos econômicos — menos a rede Globo e a Petrobrás — e todas as empresas e com estes foram os cidadãos que produzem, pagam impostos, formam opinião, votam, frequentam os teatros e até compram livros de poesia. No seu lugar surgem os gatunos. Surgem os políticos oportunistas. Surge a economia informal, a corrupção, o narcotráfico e os participantes do Big Brother. É a lei da decadência newtoniana.

    Manifesto contra o Trabalho? Trabalho é um princípio coercitivo social? Peralá… Eu não me sinto há coagir ninguém quando faço um desenho ou quando dou uma aula. E desenhar, assim como fazer samba, é trabalhar. Quantas horas são boas para alguém trabalhar? A questão é tão idiota e inútil quanto querer saber quantos orgasmos são suficientes…

    Tem agora essa história de ócio produtivo que o Bobbio levantou mas convém, sabiamente, nos contextualizar nessa história. Não podemos esquecer que somos brasileiros, latinos e ibéricos e como ensinou o Sergio Buarque, adoramos essa postura altaneira, essa galhardia superior e romântica do dolce far niente. A digna ociosidade sempre mais nobre do que a luta insana pelo pão nosso de cada dia…

    Infelizmente ainda pagamos o preço da mudança da capital para Brasília, da fusão do Estado da Guanabara e da transferência completa da atividade financeira e empresarial para São Paulo. A corrupção e a incompetência administrativa local somadas à violência urbana fizeram o resto. Isso que a gente vê por aí. Todo mundo querendo ir embora da cidade.

    Eu não gosto de ser tomado por violento ou vagabundo apenas por um acidente bio-geográfico. Mas o problema é maior do que eu gostar ou não. Estes preconceitos têm levado, direta ou indiretamente, milhões ao desespero. Existe um sádico prazer nacional em se esculachar todos os que dão certo. Se faz sucesso não presta. O Rio de Janeiro sofre com isso. Apenas porque o Rio ousou ser o Rio.

    Por isso, creio, temos que desconstruir esta imagem que é projetada sobre a nossa terra e a nossa gente. E isto já está acontecendo, graças a nós mesmos, que trabalhamos mais horas que os outros, sem que isso signifique que somos melhores ou piores, mas é um fato assim como é fato o calor ou a falta de chuva.


  7. lucas (unregistered) on April 19th, 2007 @ 5:36 pm

    Certamente os milhões de desempregados não estão nem um pouco felizes. Mas não por não poderem dar duro de 10 a 12 horas por dia como muitas pessoas que conheço (cariocas, por ironia). Eles estão infelizes e miseráveis porque não tem comida, educação, saúde, moradia.
    Ninguém aqui disse que podemos todos largar tudo e vivermos na praia, bebendo cerveja e escrevendo poemas o tempo todo. Ninguém está dizendo que não existem atividades desagradáveis mas que são absolutamente necessárias. Sim, isso faz parte da vida. Mas também é uma realidade que mesmo as pessoas que não são atualmente consideradas “aptas” a realizar essas atividades julgadas “valiosas”, também têm necessidades que precisam ser satisfeitas.
    Apenas estamos dizendo que o trabalho, visto como a venda da mão de obra, não é o único modo de organização social capaz de satisfazer as necessidades humanas.
    E mesmo que fosse, a idéia de uma busca desenfreada por “geração de empregos” é uma inversão total de valores. As pessoas deveriam trabalhar para que possam ser satisfeitas as necessidades sociais de consumo. E não consumir pra gerar empregos.
    Da mesma forma, antes de pensarmos em fazer de tudo pra convencer os “grupos econômicos” a ficar no Rio, deveriamos entender que beneficios e maleficios a ação desses grupos trará.
    O Rio de Janeiro não está pobre por causa de um complô da mídia para prejudicar nossa imagem, nos chamando de vagabundos e violentos. O Rio de Janeiro está na merda porque faz anos que só temos governos de péssima categoria, que só se interessam no conteúdo dos cofres e nunca na qualidade dos serviços públicos.
    É lógico que ninguém se sente bem com uma imagem ruim, mas convencer seja lá quem for de que o problema não é tão grave assim não vai melhorar absolutamente nada.
    A melhor forma de desconstruir qualquer imagem negativa é melhorar. E melhorar não significa fazer o povo trabalhar 45 ou 50 horas por semana. Nem passar a imagem de que a gente “acorda cedo e dorme tarde”. Melhorar significa combater o crime organizado, limpar as ruas e acabar com o sucateamento dos hospitais.
    No dia que isso acontecer não vai ser porque paulista acha que carioca é vagabundo que alguém vai duvidar da gente.


  8. LP (unregistered) on April 20th, 2007 @ 12:21 am

    “Eles estão infelizes e miseráveis porque não tem comida, educação, saúde, moradia.”

    E vão continuar companheiro, porque se depender desse governo Lula que está aí — e de todos os q passaram antes — eles vão continuar na mão. O máximo que eu posso sugerir é que se criem oportunidades de emprego para que, se trabalhando 7, 8 ou 9 horas por dia eles possam pagar as suas contas — que o gaz já aumentou — as escolas particulares, os planos de saúde, o aluguel…

    “Apenas estamos dizendo que o trabalho, visto como a venda da mão de obra, não é o único modo de organização social capaz de satisfazer as necessidades humanas.”

    Quem são vocês que “apenas estamos dizendo”? E quem disse que o trabalho “é o único modo de organização social capaz de satisfazer as necessidades humanas.”?

    “a idéia de uma busca desenfreada por “geração de empregos” é uma inversão total de valores.”

    Quem deu a idéia da busca desenfreada?

    “antes de pensarmos em fazer de tudo pra convencer os “grupos econômicos” a ficar no Rio…”

    Quem pensou em “fazer de tudo”?

    “O Rio de Janeiro não está pobre por causa de um complô da mídia para prejudicar nossa imagem”

    Quando foi que eu disse que era a única razão?

    “Melhorar significa combater o crime organizado, limpar as ruas e acabar com o sucateamento dos hospitais.”

    Ainda bem que alguém aí sabe com certeza o que significa melhorar, não é? Porque eu poderia retrucar dizendo que melhorar não significa apenas “combater o crime organizado, limpar as ruas e acabar com o sucateamento dos hospitais” mas sobretudo precisaríamos bla-bla-bla, bla-bla-bla, bla-bla-bla, somando a isso a geração de novos empregos. E embora ninguém tenha mencionado o assunto, para mim bolsa-família não é solução. Bolsa-familia é assistencialismo. Uma esmola, para o homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão. As pessoas querem viver com dignidade. Trabalhando e ganhando o seu dinheirinho. Com ou sem sono.

    Mas eu acho que o post já deu, não?


  9. Letícia (unregistered) on April 20th, 2007 @ 2:55 am

    queridos, calma.


  10. lucas (unregistered) on April 20th, 2007 @ 12:15 pm

    Caro LP,

    Com relação a suas observações e tendo em vista a preocupação da Letícia, gostaria de dizer que de forma alguma tentei ser ofensivo ou levar a discussão para um lado pessoal. Até porque não conheço vocês (até onde sei), o que torna tudo muito impessoal. Se alguém entendeu diferente, peço desculpas. Também não vejo suas observações como ofensivas, mas apenas como discordâncias em relação ao assunto do post. Espero, então, que estejamos todos calmos. Com base nisso, gostaria de fazer apenas 3 observações/respostas:

    1 – Nós somos eu.

    2 – Hã?

    3 – Sim, o post já deu.

    Um abraço,
    Lucas


  11. LP (unregistered) on April 20th, 2007 @ 1:38 pm

    Caro Lucas, sim, um abraço, mas com todo o respeito, “Hã?” quem diz sou eu.



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