Me choca
Fico bem impressionada quando entro no Túnel Rebouças e leio:
Carros enguiçados em maio:
987
NOVECENTOS E OITENTA E SETE.
Tem noção?
Fico bem impressionada quando entro no Túnel Rebouças e leio:
Carros enguiçados em maio:
987
NOVECENTOS E OITENTA E SETE.
Tem noção?
teste
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Quinta-feira, 19:30h, em frente à padaria “Pane & Dolce” no comecinho da São Clemente, um maluco-beleza com uns quarenta anos presumíveis, baixo, magricelo, barbudo, calça larga cinza asfalto, sem camisa, visual hindu, com sotaque nordestino, comportamento meio frenético, repetia esse mantra ritmadamente, com uma melodia à La Tom Zé, só que melhor que Tom Zé, porque tinha um pouco menos de sotaque, não estava querendo fazer arte, não queria parecer estranho ou exótico, era mais autêntico, não queria mudar o mundo ou revolucionar nenhuma linguagem poética-musical.
A Professora de artes, fofinha, rodeada de meninas e meninos de uniforme escolar — com idade entre 7 e 9 anos talvez — caminha pela exposição e ensina direitinho, diz coisas pertinentes e interessantes, não é de jeito algum uma tolinha. Por acaso eu acompanho mais ou menos o grupo e depois de passar por todas as salas da exposição, ela pára num canto da última sala e pergunta aos pimpolhos: - Pessoal, agora eu quero saber de vocês o seguinte… depois de tudo o que observamos, no final das contas, entre todas as coisas que vimos, o que é que existe em comum nessas salas todas? Um menino, no meio do grupo, responde com sua voz aguda, rápido e certeiro: - As paredes!…
E Sexta retrasada, ópera.
Não sei se ainda estão levando (notem o tom plebeu) “As Bodas de Fígaro” no Municipal, mas recomendo o programa. Nem que seja só pela beleza do lugar (ou pelo kitsch do restaurante, que poderia ter saído de um parque temático do Indiana Jones. Se você nunca foi lá, basta imaginar como é estar encerrado numa tumba de faraó gay.), que justificaria uma visita mesmo sem nenhum espetáculo acontecendo.
No meu caso, a visita de um amigo de Brasília acabou causando tipo uma invasão jóveim ao Municipal, tipo umas dez cabeças em 2 frisas contíguas, do lado esquerdo do palco. Perto o suficiente pra se apaixonar umas três vezes pelas mezzo sopranos e se quedar com expressão bocó no escuro pensando “Elas existem de verdade, então, não é só no cinema”.
Foi a primeira vez que fui à ópera, ou ao Theatro Municipal. Infelizmente, por termos entrado em cima da hora (esperávamos um amigo que teve um encontro pouco amigável com um espécime da fauna local e acabou perdendo o celular), não pude andar direito pelo lugar, erro que espero consertar em breve.

Quanto à ópera, bem, eu não sou um conhecedor, embora já tivesse algumas árias das “Bodas..” decoradas dos Youtubes da vida, e das cenas do filme “Amadeus” (”Amadeus”, aliás, acaba sendo uma maneira ruim de entrar em contato com as obras do Mozart, porque as versões que aparecem no filme são tão mas tão boas, Sir Neville Marriner meteu tanto mas tanto a mão, que torna difícil encontrar gravações feitas com tanto gusto e brilho (basta comparar a ária “Martern allen Arten” do “Rapto do Serralho” com outras versões - é páreo bem duro - ou pelo menos assim pareceu para este par de ouvidos de madeira aqui). Mas se dizem que no sexo brasileiro goza quando conta, na arte o bom mesmo deve ser dar pitaco:

“Essas orelhas de coelhinha da Playboy tão foda, hein, Michelangelo…”
Esta versão é por sorte mais próxima ao molde clássico, como se podia notar no figurino, historicamente fidedigno, e luxuoso sem causar distração, embora com pouca variação de cor. A figurinista (pode ter sido um homem também, não sei, o libreto estava cinco paus) privilegiou tons claros, pastéis e neutros, tornando a apresentação visual dos personagens um tanto indistinta. A cenografia era minimalista talvez um pouco demais pro meu gosto, mas pelo menos não havia acenos anacrônicos ou “intervenções” desnecessárias, remetendo adequadamente ao período em que a história se passa). Alguns toques pessoais da direção foram:
- Um personagem extra no palco: Mozart aparece na peça mas não fala um “a”. Fica apenas de lado no palco, tocando cravo - e uma vez ele sussurra instruções de canto para Marcellina;
- Uma “ola” que o corpo de de balé executou num determinado momento. É sério;
- Uns caras musculosos seminus representando sabe lá Deus o quê fazendo dancinhas desnecessárias no fundo do palco em certos momentos. É sério;
- Na cena em que Cherubino descobre que terá que se alistar, a indumentária militar dos dançarinos é ostensivamente minada de qualquer pretensão a seriedade: Os capacetes são chapéus de jornal dos que as crianças fazem, as armas são mosquetes cenográficos de boca exagerada e cômica.
Não posso oferecer comentários quanto à execução da música por ainda não ter comparado com outras versões - e também por ter sido a primeira vez que ouvi música erudita ao vivo, rs. Um amigo reclamou que o início do primeiro ato pareceu meio apressado, por exemplo. Mas achei os recitativos algo cansativos pro meu gosto, e nesse caso admito uma preferência pelo Singspiel (como no “Rapto…”), com os trechos de diálogo falados como no teatro normal, e não o meio termo entre canto e fala. Outro amigo diz que ópera é artificialismo mesmo, e que trechos falados entremeados à música aproximariam o espetáculo de musicais da Broadway. Ambos os amigos entendem mais de ópera que eu, então não me escutem.
Luiza Francesconi, no papel de Cherubino, foi a mais aplaudida, em parte por causa dos aspectos de “clown” do personagem, em parte pela vivacidade, graça e beleza da atriz (seria esperar demais da minha fé que eu dissesse que suas qualidades técnicas foram devidamente apreciadas por um público que fazia questão de rir por qualquer motivo, interrompendo o fluxo da história). Para uma crítica técnica mais detalhada no que concerne à performance vocal dos atores, recomendo este post, em Inglês. Procure pelo tópico “Problems in the Almaviva household”.
Quanto à música, com certeza Mozart não precisa das minhas palavras de louvor. Me lembro que no “Rapto…”, quando, durante a já citada “Martern allen Arten”, Constance diz ao paxá “E minha morte me libertará no final”, a música que acompanha o trecho é a tradução aural mais perfeita da letra, duas erupções súbitas, agudas, que ascendem como uma alma subitamente liberta do peso da vida, como se lastros invisíveis fossem cortados, se abrindo e subindo com tons alegres como poucas coisas são alegres, de uma leveza e despreocupação do tipo que só a liberdade absoluta concede, como se a morte fosse mesmo uma “awfully big adventure”, como dizia Peter Pan. Os arpeggios que se seguem, desafiantes e imponentes, são a expressão confiante e orgulhosa da irredutibilidade final de quem encontra provisões de coragem para enfrentar a morte dentro de si mesmo - no Amor. Essa é a música inalcançável ao mero talento, inventiva, eloquente, sublime. No final das “Bodas…” eu se arrupiei todo, quando começou o “Ah tutti contenti” (que diabos, baixe, ouça e se arrupeie também). E pra terminar com outra coisa que público carioca curte, segue a letra pra cantar junto no banheiro:
BASILIO, CURZIO, ALMAVIVA, BARTOLO & ANTONIO: (Oh cielo, che veggio! Deliro! Vaneggio! Che creder non so?) IL CONTE: Contessa, perdono! LA CONTESSA: Più docile io sono, e dico di sì. TUTTI: Ah, tutti contenti saremo così.
Com a mostra China Hoje o CCBB Rio faz mais um gol de placa e confirma a justa fama de ser a mais versátil e dinâmica instituição na área de artes plásticas da cidade. A maior mostra de arte contemporânea chinesa já apresentada no país tem curadoria do alemão Alfons Hug — curador da 25ª e da 26ª Bienal de São Paulo — e do suiço Uli Sigg, dono do maior acervo do gênero. A produção artística chinesa é representada ali por 27 artistas, em sua maioria pintores, e foi organizada pelas temáticas A Imagem do Ser Humano e Retrato, Vida Urbana, Paisagem, Caligrafia, Tradição Espiritual e Herança Revolucionária, compondo assim um panorama da produção artística chinesa no período de 1979 a 2007. Excelente oportunidade para aprender que os chineses fazem muito mais do que apenas fornecer as quinquilharias que abarrotam os tabuleiros dos camelõs da cidade.
CCBB Rio: Rua Primeiro de Março, 66, Centro - China Hoje - Coleção Uli Sigg - Abertura: Terça-feira, 15 de maio - Exposição: 15 de maio a 15 de julho

Na Lagoa
Em 2002, recebi isso:

E lá fui eu, com amigos e ex-namorado ver “qual era”. O que vi foi bem constrangedor: jovens caminhando pelas Visconde Pirajá, cantando “Sou maconheiro com muito orgulho, com muito amor…”
Não que fosse necessário alguém tomar as rédeas da situação e se pronunciar, mas se tornou algo tão aleatório.
Um assunto tão polêmico, e que precisa ser discutido mais de mil vezes, se tornou uma caminhada banal pelas ruas de Ipanema. As pessoas nos olhavam e faziam gestos de desapontamento, e muitos da marcha gritavam: “Ah, o quê que foi? Tem que legalizar mesmo essa porra, velhinha!”
Resultado: saí de lá com um péssima impressão de que muitos seres humanos não sabem fazer uso de uma erva natural.
E a maioria dos seres, quase nunca sabe o que realmente está dizendo.
“Don’t wanna a short zig man” - Lembram dessa música? E todos gritavam isso na pista, mas ninguém sabia o que estava cantando.
Ora, por favor.
Daí que no dia seguinte, meu pai veio me perguntar:
- Onde você estava ontem?
- Em Ipanema, num showzinho lá…
- Sei… Letícia, tem uma foto na contra-capa do Globo, que você aparece numa marcha pró-maconha.
- Ah é?
- É.
- Se sua vó vê isso, ela tem um infarte.
- Foi mal, coroa.
A foto da contra capa.
A foto já tá velha e má escaneada (ui), mas eu tinha um brinco de girassol que vivia com ele, e assim apareci na contra capa do globo, para delírio de alguns amigos e desespero dos meus pais.
Esse ano teve marcha, não pude ir, estava em São Paulo (aliás, JAMAIS moraria em Sãpa, deus pai, que cidade cansativa. pra passear, tudo bem, morar? affff). Li algumas matérias sobre a marcha, e pelo que li, esse ano foi um pouco mais interessante. Munido de faixas, camisetas e um discurso afinado contra a atual política de repressão às drogas, manifestantes das mais diversas idades concentraram-se na orla carioca e seguiram, aos gritos de “tem que liberar a maconha pra plantar”, em direção a Ipanema, onde o ato foi finalizado na areia da praia, em frente ao posto 9.
Seria, de fato, maravilhoso poder plantar e parar de ter contato com criminosos e ainda por cima fumar coisa estragada.
O deputado estadual e secretário de Meio Ambiente do Rio, Carlos Minc, afirmou que é favorável à regulamentação da venda de maconha e participou do ato. “Eu acho que o Rio de Janeiro é uma cidade sitiada pelo tráfico de drogas e de armas e isso não se resolve com a atual política de drogas, que fortalece o traficante. O maior interessado em manter a política de drogas como ela é hoje é o traficante e o lado corrupto da polícia”, disse Minc.
Adoro.
As partes em itálico são do site do Terra.
Música: The Observers - Pass the pipe
Desculpa a falta de posts, sô sem tesão no Rio de Janeiro.
Daí, já viu…
abril acabou.
o tempo caducou.
a gripe saltou.
meu flamengo ganhou.
a maconha desfilou.
cristo panfletou.
e a igreja chiou.