Archive for June, 2007

Acho graça de graça da desgraça

As ruas são sarjetas dilatadas cheias de sangue e, quando os bueiros transbordarem, todos os vermes vão se afogar. A imundície de todo sexo e matanças vai espumar até a cintura e os políticos e as putas vão olhar para cima gritando ‘salve-nos’… E eu vou olhar para baixo e dizer ‘NÃO’.

Alan Moore

Naquela época, eu esperava pelo metrô com as mãos suadas de água fria, olhando para trás com medo que alguém me empurrasse. Síndrome do que você quiser, meu caro. Do pânico, do terror, da ansiedade, distúrbio, déficit de atenção, a porra toda que você quiser. Eu só quero dizer que por 2 segundos eu jurava que alguém ia me empurrar e morreria ali, estraçalhada pelo vagão que não teria tempo de frear. Estou sem direção e ainda nem cheguei ao ponto. Culpa dos dedos mindinhos, não me obedecem, esses putos desgraçados. Boa essa palavra: puto. ÉS UM PUTO, queria dizer para algum homem. Qualquer um, pode ser meu pai até, meu tio que tem a voz engraçada, você… Um puto, um puto. Como de costume, estava na frente de todos, para poder entrar antes e ter mais opções – ou não, de escolher um lugar para sentar – ou não. Eram 17 horas da tarde, as chances não eram tão boas, mas vai saber, sou rainha das sortes inacreditáveis, a vida gosta de mim embora eu a maltrate um bocado. Entrei no vagão após medo ensurdecedor de ser empurrada, e para minha não compreensão de vida, senti que haviam muitas pessoas aglomeradas na área da minha porta, e à nossa esquerda, o vagão estava vazio. Nessa época eu vivia gripada, era usuária voraz de sorine, mas ainda assim, quando as portas fecharam, senti um grande cheiro de merda se alastrando com força pelo vagão. As pessoas, as pessoas, as pessoas, quantas vezes posso repetir que AS PESSSOAS, elas falavam coisas, mas meu medo de ser empurrada me faz pingar água das mãos e me deixa surda, é preciso esclarecer isso. E isso dura. Isso dura minutos. Então, as pessoas faziam elucubrações e eu não ouvia nada. Só sentia um insuportável cheiro de merda. Curiosa que sempre fui, me movimentei em direção à tal parte vazia do metrô, afinal o quê poderia estar acontecendo? E é porque sou feita de carne, ossos, sangue, merda e amor, é que quase tive um filho tamanha vontade de expelir qualquer coisa bonita que apaziguasse meu choque. O que eu vi foi um homem de terno, sentado no chão, todo cagado. Sim. Um homem na merda. Literalmente. Chorando feito criança, meu caro, meu barato. Chorando de soluçar e tremer ombros, minha cara. Minha barata. Mas as pessoas, as pessoas, as pessoas, quantas vezes eu posso repetir que as pessoas, elas estavam num zoológico, e muito espantadas faziam comentários, que agora já podia ouvir, sem o menor cabimento. A maioria, obviamente, ignorava, constrangida com o constrangimento alheio e cheirando o pulso borrifado com perfume às 8 da manhã para aliviar o terror do cheiro da merda. O homem cagado, talvez sem querer, um problema, um azar, característica das sacanagens que deus pode nos proporcionar, um peido falso, uma infecção intestinal, uma merda, uma merda mesmo. O homem de terno, bonito, eu até diria se ele um dia passasse por mim na rua e me olhasse dentro do olho e não para o meu peito. Cagado. E chorando. Naquela época eu era otimista que só, e não me conformava em ver gente na merda sem tentar sair dela. É terrível, mas não é metafórico, o que torna tudo mais cruel. O homem ali na merda própria, merda marrom, meio aguada, um cheiro que me deixava a um segundo de vomitar meu almoço infeliz com meu ex-marido. Naquela época, as crianças moravam com ele, o que todo mundo achava muito estranho, mas eu preciso confessar que eu gostava muito, Jaime sempre foi um ótimo pai. E eu, uma mãe mediana. Me aproximei do homem cagado e choroso como quem se prepara para cutucar uma espinha que já causa vergonha de sair de casa. Sabemos que não devemos, mas cutucamos. Ah, cutucamos. Porque somos putos, putos, putos. Uns putos. Não devia, pois minha vida já é bem caótica, mas era tudo tão feio, tão horroroso, era tanta merda, que era tudo lindo por demais, beleza de salivar e aumentar o tamanho do coração de uma mão fechada para todo o tronco humano. Caminhei até ele, e as pessoas ficaram chocadas com a louca que entrou na jaula do leão, da onça, do hipopótamo. Mas as pessoas são curiosas, não querem que a pessoa vá, mas já que a pessoa está indo, ora… vamos ficar aqui e observar, só um pouquinho? Vamos, ué. Eu ficaria, Jaime ficaria, as crianças ficariam, todos nós, os putos. Ficariam. Observando. Estava solteira há tempos, o amor nunca chegava até a mim, fazia sérias propagações mas nunca o sentia, de fato, na fibra dos meus dedos. E era o que eu queria. Amor na fibra dos dedos. E isso lá existe? Era o que eu queria. O homem ainda chorando e eu nessa época, tinha lenços de papéis na bolsa, achei sofrido demais. Constrangedor demais. Queria ser certeira, queria tirar toda a merda, sem ter que passar 75 paninhos molhados e essências e incensos e isso aquilo outro. Agachei, agora já pouco incomodada com o cheiro da merda – afinal, o que era a vida, o metrô, o cu dos meus filhos, o beco da minha rua, a boca de meu ex marido? – ele percebeu um corpo estranho próximo ao dele, parou de chorar e esperou por aquilo que também eu esperava: minhas palavras. Achei de bom grado, dizer-lhe: Quer namorar comigo? Eu era a criança que os lobos criaram, não tem essa história? O zoológico, as pessoas, que acompanhavam tudo pois assim é a vida, fizeram silêncio criador de cancros, de úlceras, provocadores de aneurismas, esse era o silêncio. Pois não concebiam o amor vindo da merda. Mas eu era tão cheia de vida, e tudo me parecia tão sincero e real e certo. O homem sorriu dentes que o faziam ser mais bonito e disse entre babas de lágrimas: “Perdi minha estação”.
“Pra tudo, há voltas”, lhe disse com sorriso de quem sua frio nas mãos. Dei-lhe um beijo no olho esquerdo e depois comentei com amor nas fibras dos dedos: merda é adubo.

Instantâneos

Em Botafogo, numa pastelaria da Voluntários, peço à Dona Chinesa-sorridente: Um caldo de cana, por favor. Ela ordena pro atendente: Códo! Bebo o códo e pergunto o preço. Ela devolve: Quê? O preço do caldo. Uom-uau-uen! Caralho, não entendo nada. Olho pro atendente mas ele olha de volta sem ajudar. Descubro o cartaz na parede. Um real e quarenta.

Em Ipanema, no 157, sempre lotado desde que o mundo é mundo, entram na altura do Bar Lagoa três meninas de 20 anos mais ou menos, bem altas, magras, cabelos mudernos, muito brancas e elegantes. Modelitas certamente. As 3 vão em pé, às minhas costas. São paulistanas e falam sem parar. Estão voltando do “trampo” e reclamam do “puta engarrafameeeiiinnnto, meu!”. Mas são tão bonitinhas que relevo o sotaque.

Na Lapa, na encruzilhada do capeta. Anotem aí as três ruas que se cortam: Resende X Inválidos X Mem de Sá. Eu atravesso e chego à calçada mas ouço uma freada logo atrás. Viro a tempo de ver o táxi atropelando uma velhinha, assim meio de lado, que com a porrada dá uma pirueta e cai estatelada com um saco de plástico na mão. Corro até ela e pergunto se está tudo bem. Ela se levanta, despachada: Tá tudo bem meu filho. Mas vou precisar ir na farmácia pra ver se compro uma arnica.

O cão chupando manga

Agora minha casa está mais segura. Comprei um scooby doo para fazer a guarda do lar. Foi paixão à primeira vista. Voltando do trabalho, no trânsito infernal da Lagoa-Barra, avistei-o de longe, pendurado numa árvore. Imaginem um cachorro voador. Que maravilha. O sinal ficou verde, tive que ir. Não deu para levar o bichinho, mas aquilo ficou na minha cabeça. Na oportunidade seguinte, em pleno festejo junino, no furdunço da feira de São Cristóvão, lá ía ele passando distante. Em meio a homens-aranhas, bobs-esponjas e outros fofos, ele flutuava se destacando na multidão. Interrompi a dança e – eeeeeeeeei – corri atrás. Você agora é meu, Scooby. Voltei do forró feliz, com meu cachorrinho debaixo do braço. Bem que disseram que um cão dá mais vida a uma casa. E eu que pensei que nem gostava de animais de estimação.

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Quero ver Irene dar sua risada

Foi isso o que eu disse à ela. Aquela morena de cílios longos que estava ali, agora há pouco, próxima à nossa mesa no BG. Ela atendeu meu pedido e deu a sua risada. Me disse o que fazia — e não pude compreender — e quando tentei contar que torcia pelo Vasco, que tinha dois filhos, a pescaria na Urca, etc e tal… naquele momento alguma coisa falou mais alto e eu me calei. Muitas pessoas ali em volta… Irene era espetacular! Eu também disse isso a ela. E ela deu de novo a sua risada. Voltei pra casa e no banco traseiro da Van pensei no que disse Vinicius: são demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão… Principalmente quando uma lua chega de repente e se deixa no céu, como esquecida. E se ao luar, que atua desvairado, vem se unir uma música qualquer aí então é preciso ter cuidado, porque deve andar perto uma mulher.

Esse tal Tim Maia

Pra esquentar a sua semana nesse comecinho de inverno… ;)

tem programa pro dia 30?

Pode promover essas coisa? Não deixa de ser um evento, ahm, muitas aspas cultural no Rio, hein. Sem falar que Letícia Novaes, a mulher grande que também escreve aqui, também estará lá. E é isso:

É hoje que a paia da cana voa!

Tá sem festa junina pra ir? Anota aí uma solução caseira: Feira dos Paraíbas, ali em São Cristóvão. Nesses dias — quase frios — de junho e julho rola lá um clima típico de São João, com forró, bandeirinha pendurada e aquela comidinha leve que é uma delícia: buchada de bode, tapioca, jabá com jerimum, baião-de-dois, picanha de cabrito, canjica… Tudo em porções generosas e a preços bem camaradas. Pra animar, tu pede uma cachacinha Marimbondo que em qualquer birosca é servida em copo de chope, até o talo, a míseros “três real”. Tá bom assim? Então arruma o chapéu de palha, põe um lenço no pescoço, calça a sandalia de dedo e se prepara pro arrasta-pé.

Bom, os cabras no vídeo dispensam apresentações mas já que vocês querem os nomes, vamos lá: Gonzagão, Dominguinhos, Sivuca e Oswaldinho do Acordeon. Só faltou ali o Jackson do Pandeiro e o Hermeto Pascoal.

DELEITE

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Foto ilustrativa

O Rio é uma cidade abençoada também para quem gosta de pudim. Em toda birosca que se preze tem. Mais popular que ele só mesmo o arroz de brócolis e o feijão preto, mas aí é outro prato. Esse texto é de sobremesa.

Verdade que nem todo pudim de leite é daqueles tradicionais. Uns levam baunilha, outros inovam na calda. Apenas açúcar, gente! Ah, e desconfie dos que vem com uma ameixa em cima. Geralmente bonitinho, mas ordinário. Pudim que é pudim se basta, não precisa de decoração.

Entre os diversos que provei, até agora, já tenho um preferido. Fica no cruzamento da Real Grandeza com a Voluntários da Pátria, na Choperia Itu. E, sim, a fatia é enorme. A apresentação, na verdade, não é tão bonitinha como a foto. Na vitrine mostra o bicho ainda na fôrma, naquela opulência, quase pulando para fora. Não se intimide, peça um pedaço. Depois dê uma garfada e boa viagem ao reino encantado do huuuuum. Para completar o deleite, preço super camarada.

P.S. Se você tem mais dicas de onde comer um bom pudim de leite, conta aí.

Neta do sol

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Eu agora trabalho segunda, quarta e sexta na Ilha do Governador. Sabe a Ilha? Não, né. Sabe o Aeroporto? Então. Ali perto. O bom é que estou indo com o carro do meu irmão. O carro do meu irmão tem som. O meu não, o que não faz o menor sentido. Tenho escrito pouco até por isso. No meu carro, sem som, tinha altas idéias e anotava uma ou outra observação dessa cidade insana. Agora piloto um carro dois ponto zero na Linha Vermelha (sei onde estão os pardais), gritando de vidros abertos Hot Chip, Sonic Youth, Janis Joplin, Mundo Livre, Frank Sinatra, Caetano… É uma coisa boa, tá me fazendo bem não pensar tanto e só cantar, cantar, cantar, esqueço do ar condicionado e vou de vento mesmo.

Mas o melhor, meus caros míseros leitores, curiosos, amigos, piscopatas: eu volto da ilha às 16:30. O entardecer me causa um torpor que só a lua conseguia comigo. O som no talo, e aquele sol ALI, tá tá tá tá tá tá, zumbido infinito no meu ouvido. Um cheiro tenebroso do Fundão, um cenário miserável e perturbador, e o sol ali caindo como a bandeira do Japão, círculo vermelho, bola solitária pegando fogo.

Uns coqueiros pra acalmar o caos, o sol caindo e eu nem aí para o trânsito.

Eu sou uma bola solitária pegando fogo.

Dia do blogueiro

Só pra deixar bem claro aqui, pessoal, que nós, blogueiros do meu planeta Terra, não estamos sozinhos e somos lembrados. Temos até o nosso dia, gente!
Amanhã, dia 14 de junho, é o Dia Internacional do Blogueiro. E que soem as trombetas!!!

Parabéns para todos nós!

Fiquei sabendo da notícia pelo Tiago Doria.

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