Arco-Íris no Jardim Botânico

Aproveitando o fato de ser hoje uma quinta-feira e ainda boquiaberto com a passagem da Gisele Bünchen pela cidade, resolvi ajudar o(a)s amigo(a)s encalhado(a)s e, ao mesmo tempo, faturar um cascalho. Seguinte. Tenho dois gatos aqui em casa. Um, macho, cinza, mijão, comilão, easy-going, bem na dele. Outra, fêmea, preta, ultra-manhosa, miona, ciumenta e meiguíssima. Por isso convivo hà mais de 10 anos com cheiro de urina, forros de sofás e poltronas arranhados, lençóis esburacados e… pêlos de gato, muitos pêlos de gato. Essa semana recebi um e-mail que divulga o livro Manual dos Ardentes Feitiços de Amor, da Publifolha, que ensina truques e magias para se conquistar a pessoa amada. Uma das receitas do livro eu transcrevo abaixo. É simples. Só precisa de umas bobagens, tipo fósforo e pêlo de gato. Não estou interessado em conquistar ninguém em questão mas tenho muitos pêlos de gato sobrando de modo que, unindo o útil ao agradável, estou vendendo pêlos de gato para quem estiver sozinho ou mal-acompanhado. Anotem aí:
Feitiço para atrair alguém especial
Os ingredientes
- um pouco de pêlo de gato
- um pouco de seus próprios cabelos
- um pouco de gatária (também chamada de erva-dos-gatos) sêca
- uma caixa de fósforos ou outro recipiente
- fósforos
- um pratinho
O feitiço
Em uma quinta-feira à meia-noite, perto da lua cheia, coloque os ingredientes menos a gatária na caixa. Misture tudo pensando na pessoa que você quer e diga: Fúria felina, alimente a tentação, sou um(a) predador(a), conquistarei a minha paixão, Sa-Sekhem! Sopre sobre a caixa três vezes, sussurre o nome da pessoa amada e feche-a. Queime um pouco de gatária no prato e passe a caixa encantada sobre ela, falando: Sa-Sekhem! Agora, dê um pulo para sair da posição em que está. Dê uma corrida e leve consigo a caixa encantada, rugindo enquanto corre. Vá ao encontro do objeto do seu desejo (mas vá logo porque a Gisele vai embora depois do fim de semana) e use o encantamento. Para os marmanjos não aconselho o rugir enquanto corre. Apenas mostre determinação e garra.


Fotos: Juliana Moreira
Tou quase um J. Menezes clamando pra não ser eliminada deste espaço. Mas o Rio tem me engolido neste inverno (e sei que você não tem nada a ver com isto, mas que fique aqui registrado o desabafo). Trabalhando até o talo, achando que estou enlouquecendo na correria insólita do mundo corporativo. Mas pensando bem, talvez não seja loucura. Preciso procurar lá pelas quintas do dicionário algum outro termo que traduza melhor esta vida fast-super-acelerada-o-mundo-vai-nos-engolir que vivemos. Ou que vivo. Ainda preciso aprender mais com os budistas, os suecos e as tartarugas.
Mas voltando à loucura: na verdade, dizer que minha vida é loucura é uma atentado à loucura. Loucura ainda carrega qualquer coisa de lírica. E não há nada de lírico numa rotina de prazos absurdos, negociações infindáveis, reuniões intermináveis e nem sempre produtivas (por isto a busca de tantos subterfúgios, por isto querer sempre viver tudo ao mesmo tempo agora para sempre quando voltamos pra casa). A loucura é um refúgio do mundo que não nos compreende. Ou que não queremos compreender porque dói demais.
Copacabana é um lugar repleto de loucuras líricas. Um imenso hospício à beira-mar, salpicado de loucuras literalmente líricas e inspiradoras. Como a do filho de Deus que esconjurava o Diabo, agarrado ao pescoço da estátua de Drummond. Eu vi com estes olhos que a terra há de comer ou que o mar há de salgar. Ele bradava qualquer coisa entre “César Maia toma cuidado!” e “Olha o Satanás!” Falar do demônio é uma forma também de exorcizá-lo. E o coisa-ruim adora que falem dele, nem que nem que seja pra falar mal. E o que César Maia diz disto? E o poeta ali quietinho, mineirinho, com seu coração maior que o mundo, escutando o amigo Raimundo que esbravejava em prosa livre. Uma reza pra Deus e outra pro Cão pra começar o dia e o dia pode acabar bem. Mas isto só o louco iria saber. Eram 7:30 da manhã de segunda-feira e o frio já se anunciava. O louco nem imaginava que por alguns instantes sua loucura foi o meu refúgio.
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A minha loucura lírica (ou barata) do dia: que nos envolvam numa camisa de força transparente, para desfilarmos no Fashion Rio com os mamilos em riste no antártico inverno carioca! E que de cada mamilo pulem rosas pra destruir as balas que continuam a sitiar esta cidade do Alemão ao Leme. Se bem que isto vale mais como frase de efeito que como qualquer outra coisa…

Depois conto essa história. Agora não dá.

Tijuca - Ao fundo o morro do Salgueiro