“tudo está no mesmo lugar, mas as vezes não vejo”

Santa Teresa me abre as portas e eu passo. Os paralelepípedos comem minha sandália velha. E eu deixei por lá a sola do pé direito. Os gringos me olham profundamente. Olho no olho. As outras línguas talvez leiam dor. E todas aquelas cores me dão uma estranha sensação de paz. Mas a vida vem com seus métodos nada gentis, ele* me disse no livro que eu grifei com marcador fluorescente. O bonde, depois de mim, enguiça a cada curva. E demora. Todas as coisas no momento se resumem em esperas. E todas sem previsão. Sem prazo de fim. Então eu monto alguns sorrisos, de repente a leveza se instaura. Mas as correntes das desventuras são seqüenciais. E vem de assombro. Vem vestida com violência e me persegue. Eu fujo, claro. E atravesso ruas sem perceber. Ontem eu caí numa fuga. No meio de uma pista gigante. Tenho cortes, tenho hematomas e me falta parte de uma unha. Voltei para casa sangrando. Antes uma amiga havia dito: “você anda marchando”. Eu estou em guerra. E tudo parece tão metafórico. Mas é real. Deus, me custa dizer, mas é real. Eu caí. E pensei com força: do chão não passo. Alí, deitada na pista, por uns segundos me vi em slow motion, sabendo que as minhas quedas são sempre grandes. Porque eu sou inteira demais. Mas o sol de ontem aqueceu. E teve brisa, teve céu azul. Algumas verdades se pregam na parede. E eu repito como um mantra: que seja doce, que seja doce. Repito sem posse de causa. Repito porque assim o tempo passa e as coisas ganham outras formas. Minha perna dói. Já se sabe, mesmo salvos, não voltamos das guerras.

sagrado1.JPG
(do ateliê de algum artista de Sta. Teresa, ontem a tarde)

* ele: Gustavo Rios, autor de “O amor é uma coisa feia”.

3 Comments so far

  1. lucas n (unregistered) on July 10th, 2007 @ 10:15 am

    Todas as quedas são grandes, quando se cai em almas profundas. Mas acho que certas pessoas só sabem cair para o alto. Os cacos, as marcas, as pernas. Podem-se usar pomadinhas e band-aid. E sempre há açúcar para os cafés mais amargos. Há domingos em que todas as portas são sagradas. E abertas. Não há retornos. Os gatilhos já se apaixonaram por seus dedos.


  2. letícia (unregistered) on July 10th, 2007 @ 11:53 am

    o amor é uma coisa feia, eu quero ler como te li.


  3. M.Cambará N. (unregistered) on July 17th, 2007 @ 4:54 pm

    Rememorar me faz chorar. Rio chorando, você sabe disso. As veredas sentimentais nos transbordam para além do coração, é verdade, conduzem nossas realidades. Não há redenção, não há o que seja breve, não há espaço. O traço é grosso e firme. É severo como a vida, vida severina.



Terms of use | Privacy Policy | Content: Creative Commons | Site and Design © 2009 | Metroblogging ® and Metblogs ® are registered trademarks of Bode Media, Inc.