Reflexões numa Delegacia Legal
Há cerca de vinte dias perdi minha carteira ali no Leme. Pronto. Lá se foram a Identidade, cartões do banco, CPF, Habilitação, anotações, bilhetes de meu pai, uma imagem de Santo Expedito, algumas unhas e bigodes dos meus dois gatos, alguns caraminguás, papéis velhos que nem sei de que se tratavam e uma poesia anotada à lápis faz tempo, aquela onde Drummond diz que amar o perdido deixa confundido este coração. Pois é. Perdi essa tralha toda aí e embora não amasse o meu CPF fiquei com o coração confundido. Entretanto ontem à tarde, sentado em um banco da Delegacia de Polícia na Hilário de Gouveia, aquela do restaurante A Polonesa e da primeira filial do McDonald’s no Brasil (Uau!), bem, sentado ali no banco da Delegacia da Hilário, aguardava meu nome ser chamado, o que para minha surpresa não demorou muito, pois o cana de terno escuro e sapatinho claro anunciou logo Luiz Paulo, gerando a minha pronta resposta, conjuntamente com o outro Luiz Paulo, que levantou-se há três bancos do meu, naquele mesmo local e hora. Mas será o Benedito? Não, era um outro Luiz Paulo mesmo, apanhado, como eu, por alguma agrura da vida e tentando resolver o problema. Pois bem, voltei ao meu banco, pensei na coincidência etc e tal e, na falta de coisa melhor para fazer, comecei a analisar as pessoas em volta. Tentei imaginar em que infortúnios ou enrascadas cada uma daquelas pessoas estava metida. A mulher ao lado que recebia instruções de um aparente advogado. Teria surrupiado o laptop da firma? E aquela mulata que falava com o policial careca? Sofria assédio sexual do patrão? E os três gringos? Ficaram sem a máquina digital?… Subitamente, no meio desses pensamentos ocorreu-me o primeiro insight: aqui dentro, tudo é caso de polícia. Fato. O primeiro insight precipitou o segundo, um pouco mais preocupante: aqui dentro e lá fora, tudo é caso de polícia. Fato, também. Mas, experimente o suflê de chocolate do Polonesa.
Foto: Angel, do artista britânico Marc Quinn


Estar na delegacia alimenta mesmo a imaginação. Eu já estive em algumas: na do Recife, por estar sendo perseguida por um doido de carro; na de Praga, por ter passaporte e demais pertences de mão furtados; e na de São Paulo por ter bolsa roubada. Em cada uma, na revolta da situação e na espera emputecida pelo atendimento o pensamento voa, a observação fica aguçada e a sensação do imprevísivel que nos ronda é um verdadeiro arroto na nossa cara. Não dominamos o acaso. Foram-se os anéis, ficaram algumas boas histórias. Esse é o lado Pollyana de tudo isso. Bem, de qualquer forma, espero não precisar visitar nenhuma delegacia no Rio de janeiro.