tropa de elite

Um amigo de um primo comprou o “Tropa de Elite” em um camelô, e narrou pra mim o que acontece via mímica. Você não perguntou mas, azar seu, vou te dizer o que achei assim mesmo.

Me pareceu um filme não só acima da mera barrinha de competência técnica (coisa que Cidade de Deus, um filme apenas bobo, macumba de butique for export, já era), mas feito com senso de diversão, a diversão basal, macha, antiintelectual que a vertente verité do filme ou livro policial oferece, que consiste basicamente na possibilidade de acompanhar um oficial da lei ou detetive numa diligência perigosa, com chances de resolução violenta e risco de vida.

Não vi muitos filmes policiais (não vi muitos filmes) – os companheiros de portal com certeza conhecem mais, têm listas mesmo de favoritos (HINT aí, né turma). Destes policiais com uma aproximação mas realista, gosto de “Operação França”, com Gene Hackman fazendo um policial nervosinho (mas ainda não vi “Get Carter”, ou “Bullit”, ou, ou). E agora, pelo jeito, gosto de “Tropa de Elite”, em que Wagner Moura faz um policial mais nervoso ainda.

A idéia original do filme era ser um documentário; segundo nossa tradição de fazê-los bem, o resultado não desaponta. Suponho que seja impossível falar de um filme como este sem tratar de suas bases ou pretensões sociológicas. O filme policial vérité é necessariamente um documento muito próximo da sociologia – um instantâneo de costumes e expressões circunscritas a determinado local e época, mas focando especialmente a área de atrito entre extratos sociais diferentes (a sociedade estabelecida é representada pelas forças de repressão, por exemplo – aliás, desculpem o sotaque ligeiramente francês, é só meio inevitável, dado o assunto. Há mesmo uma cena numa sala de faculdade de Direito em que o careca submisso (refiro-me, é claro, a Foucault) não sai da boca das aluninhas (o livro citado é “Vigiar e Punir”, quelle surprise). E, aliás, cosa mui linda, o filme dá uma caneladinha em certa atmosfera que quem já fez faculdade pública (não me refiro à área de Exatas, claro) reconhecerá de cara. O papagear narcotizado, pré-mastigando a papinha ideológica de um menu com validade vencida de décadas, as respostas já esperadas, senhas para o equivalente da estrelinha dourada na testa dos tempos de jardim de infância (é a “melhor faculdade de Direito do Rio”, no filme – o que não impede que os alunos a frequentem de bermuda e camisa praiana, tá ligado? A cena é clueless como na vida real – e trouxe lembranças a este velho).

Ah, spoilers, é.

Noutra cena, um personagem invade uma passeata pela paz e desce o braço num dos participantes. Ulalá. Talvez seja isto que meus amgos esclarecidos politicamente querem dizer com debate: O playboyzinho maconheiro sacudia muito no chão, é verdade, ao ser chutado de um canto pro outro.

Obviamente o filme dará motivo para todo tipo de discussão sobre esse ramerrame de sempre. Você sabe… aqueles temas do Fantástico lá. Mas o filme apenas documenta a realidade das zonas de conflito no Rio. Não me venham falar de distorções; claro que há distorções, mas elas não tocam no ponto principal, são acessórias (como por exemplo: Se a probidade a toda provas do BOPE é factual; ou se a PM é mesmo tão corrupta assim).Digo que o troço é meramente documental porque a discussão sobre o problema não sobe para esferas mais delicadas, onde as respostas começam a ficar interessantes de verdade:

O tráfico de drogas é um negócio de US$400 bi por ano, então… não vai parar. Não vai parar nem se Jesus Cristo descesse do céu e pedisse de joelhos. Você precisaria de um argumento muito bom para conseguir isso. Tente aí. Pense *de com força* num argumento para convencer alguém de que investir US$13 bi e ter retorno de US$400 bi livre de impostos não é algo que se deva continuar a fazer enquanto for possível (o que me lembra: Ninguém vai parar de se drogar. Ninguém vai parar de se drogar. Neguinho sempre se drogou, as mumiazinhas do Museu lá todas se drogavam, tudo junkie. Ninguém vai parar de se drogar, malz ae.)

the war on some drugs

Um negócio de US$400 bi por ano não vai parar porque isso geraria um vácuo econômico, e seria estúpido pensar em algo assim. E, se mesmo empresas que valem lá seus digamos 100 milhões já terão seu magote de lobistas, políticos, que dirá um sistema que dispõe de tanta grana. O tráfico de drogas não vai acabar porque está bom do jeito que está. Está ótimo do jeito que está.

A discussão sobre se o filme “se posiciona de maneira correta frente ao problema das drogas” perde o sentido; Se o filme não toca o ponto principal, a raiz a partir do qual o problema floresce e se desdobra, então o que sobra é a documentação do corte (e imediato renascimento) das cabeças da Hidra: Que os caras do BOPE são animais mesmo, quando têm que ser, fazendo coisas que você deve dar muitas graças por não fazerem parte da descrição do seu trabalho. Que os policiais põem a culpa na “burguesia-zona-sul” do Rio, nos consumidores de drogas que financiam o tráfico; Que a tendência é a escalada da violência à medida que a população aumenta e as armas vão subindo de calibre (sabemos de lança-foguetes, carros blindados que são filhotinhos de tanque etc); que os playboys… sei lá, são babacas mesmo, e por aí vai. No final, foi a aproximação mais adequada para o material, que pode se concentrar apenas em mostrar de maneira realista e excitante as incursões dos Caveiras.

Me parece que o protagonista do “Tropa…” é o mesmo ex-integrante do BOPE que deu uma entrevista à Trip há alguns anos. O cara entrou pra polícia por opção livre e própria, por querer fazer algo, chegando a tirar grana do próprio bolso em cursos de aprimoramento etc. Aparentemente ele se desiludiu lá dentro por ver como a banda toca de verdade (o filme mostra isso em vários níveis). Parece que ele optou por sair e trabalhar com segurança privada… e hoje é a favor da descriminação das drogas. O filme não toca nestes pontos e nem precisa. Apresenta a visão da polícia mesmo e pronto – se o sujeito está portando um fuzil todo pimpão na favela, acabou pra ele.

Claro que faço uma distinção entre a fria resolução profissional de executar uma ação para atingir um fim objetivo com o mínimo possível de dano colateral e demonstrações de crueldade e sadismo. Por uma simples noção de elegância, mesmo. E não duvido de que haja profissionais que podem se orgulhar de executar sua profissão dentro dos parâmetros estipulados pela máxima bélica inglesa no séc. XIX: Oferecer violência (“offer violence”, no original – expressão que acho linda) no nível mínimo necessário para atingir determinado fim. Mais do que isso não se pode pedir numa guerra – e é uma guerra. No caso do Rio, todos os clichês se realizam. O negócio de US$400 bi globais não pode ter suas disputas resolvidas legalmente, então todas as queixas se conciliam em violência, frequentemente extrema e imaginativa. É o tipo de métier para lobos, não para assistentes sociais: Só lobos podem caçar lobos.

(O Rio de Janeiro faz a gente pensar nestas merdas. A cidade tem o clima mais boa-gente e relaxado que se pode conceber – e no entanto, pode ficar surreal-do-mal muito rápido, dependendo de onde você estiver (o filme mostra isso numa cena – que achei desnecessária e de mau-gosto. Não concebo assisti-la na tela grande, deve dar uma onda errada fudida). Eu sei que há casos em que a única resolução possível é a violenta. Não vivemos num mundo perfeito apesar de vivermos no melhor dos mundos.)

Enfim, é isso. Bem legal o filme. “Tropa de Elite” passa longe da histrionice carioca exagerada de “Cidade de Deus”. Há talvez uma caricaturização da proverbial boca-suja nativa (só ocasionalmente: Quase todos os palavrões e sujidades proferidas no filme estão impecáveis, eu fiz uma tabelinha). E é bem citável, coisa rara em filme nacional (vá em frente, lembre aí de mais que meia dúzia de linhas de diálogos de filmes nacionais – e variações de “filha-da-puta” ou “puta-que-pariu” não valem). As pessoas lembram dos nomes de vários personagens de “Tropa…”, e professam preferência mesmo por personagens terciários. Lembra como os americanos dominavam a arte do filme de diálogos memoráveis, que os geeks de cinema repetiam depois entre si? Você sabe, um dos sinais de que determinada peça de ficção está funcionando bem, está em sintonia com o público. A comunidade do filme no Orkut já conta com 33.000 jenhos (entre os quais me incluo) que sabem de cor longos trechos de diálogo do filme, exempli gratia:

01 (Wagner Moura, o Cap. Nascimento, confirmando minha tese de que baiano com raiva é o diabo): Caralho que vontade de meter tiro nesses filha da puta…
14 (um sniper): Qual deles, meu capitão, só falar.
01: Nesses filha da puta da PM (A PM carioca não é mostrada muito favoravelmente. Eles são o Sistema estabelecido, subsistindo dos próprios problemas da cidade).
(…)
14: 01, ‘cho que dá pra derrubar dois coelhos com uma porrada só aqui hein…
01 É 100%, 14?
14: Caveira, meu capitão.
01: Então senta o dedo nessa porra.

Miolos. Etc.

6 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on September 6th, 2007 @ 10:29 pm

    salve elton, meu mestre sublime.
    vi o filme sábado passado.
    sempre me intrigou muito o fato de alguém querer ser policial no RIO DE JANEIRO. o filme foi um embrulho no estômago que eu SABIA que teria e QUIS ter.
    vivemos num fim que nunca acaba.
    mas vivemos num fim.
    Nietzsche dizia sobre o eterno retorno, acho que todo dia acordo e é igual. nessa cidade então..


  2. Camila (unregistered) on September 7th, 2007 @ 3:58 pm

    caro Elton, tinha eu aqui uma resenha em ponto de bala (com perdão do trocadilho) para postar esperando apenas que o filme estreasse para não firmar o esquema da pirataria.

    mas acho válido seu discurso.

    e penso que é tudo um terror gigantesco. coisa de dar medo. de vomitar. de tirar o sono.

    a questão da elite-zona-sul-que-alimenta-o-tráfico-com-sua-maconha-para-relaxar-antes-de-dormir me causa um incomodo sem dimensão.

    a coisa é séria. a cidade só não é a faixa de gaza por falta de um nome para se assumir assim.

    uma vez vi uma entrevista com crianças nascidas e criadas em morro. a questão era:
    “você tem medo de quê?”

    e quase todas as crianças disseram:
    “do caveirão”.

    não há mais bicho papão. o mundo está ao contrário. jizas.


  3. LP (unregistered) on September 7th, 2007 @ 8:36 pm

    “a cidade só não é a faixa de gaza por falta de um nome para se assumir assim.”

    Camila, a cidade é faixa de relaxa e goza. Tá bom assim?


  4. LP (unregistered) on September 10th, 2007 @ 2:36 pm

    Conexão França é muito bom, mesmo, já vi n vezes… mas olha o hint aí: O dia do Chacal — não confundir com o remake “O Chacal” com o Bruce Willis, fraquinho — Serpico, com o Al Pacino moleque, Os Suspeitos, com Kevin Spacey, Cães de Aluguel — trilha sonora dez — e Pulp Fiction, ambos do Tarantino e porque não Fargo, dos irmãos Cohen? Não vi Tropa de Elite ainda.


  5. Elton (unregistered) on September 11th, 2007 @ 12:13 am

    oi, letícia = ) triste, não é, assim se estraga uma cidade maneirinha…
    —-
    Oi, Camila.

    Quero ler a resenha, hein.

    >>> a questão da elite-zona-sul-que-alimenta-o-tráfico-com-sua-maconha-para-relaxar-antes-de-dormir me causa um incomodo sem dimensão.)

    Luiz Paulo, seu infame >), obrigado pela listinha.


  6. Andy (unregistered) on September 27th, 2007 @ 1:00 pm

    Vi o filme ontem e achei demais.
    Mostra as coisas como são ( um pouquinho pior pra uns, ou pouquinho mehor pra outros ) mas o recado é dado de uma forma pra lá de especial.
    Muito bom seu post Elton!



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