A cidade holográfica


O Rio é uma das cidades mais belas do país. Aqui você encontra praias e montanhas combinadas em paisagens absurdamente lindas. Temos a maior floresta urbana do mundo, além de outros benefícios, como ir à praia na época do horário de verão e poder andar de bicicleta ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas.
Pela janela do ônibus, indo trabalhar, é realmente um privilégio poder cruzar a cidade examinando a paisagem. Quem segue de metrô não tem a mesma sorte, quem mora em outras cidades também não.
Mas a impressão que tenho é exatamente a seguinte: através das janelas é o quanto podemos usufruir das belezas do Rio, vidros que deveriam ser blindados. Vou desenvolver. Além de quase 100% das paisagens dos cartões de visita pertencerem à zona sul (tirando o Maracanã), lá mesmo encontramos disparates que não condizem com a crença disseminada sobre o Rio de Janeiro, de que temos uma qualidade de vida superior à de outras cidades brasileiras.
Olha só: nossas praças públicas estão infestadas por cocô de cachorro, xixi de mendigo e os bancos servem de cama aos desabrigados. Você corre o risco de pegar uma doença de pele só de pensar em sentar-se em qualquer lugar público. Nossas calçadas são sujas, o lixo impera nas ruas e a qualidade do mar das nossas praias é absolutamente questionável; um esgoto aberto no qual as pessoas insistem em se banhar. Alguém me perguntou outro dia: “– Carioca gosta de viver na merda?” — disse essa pessoa. E continuou: “– Caminhamos na rua e desviamos dos cocôs. A praia é um esgoto cheio de merda no qual as pessoas gostam de mergulhar. Em todos os cantos públicos o cheiro de mijo seco ou o medo de ser assaltado impede de ficarmos tranqüilos curtindo a paisagem ou o pôr-do-sol.” (…)

Os paulistas dizem que os cariocas têm uma qualidade de vida invejável. E todo o Brasil acredita nisso. Até os cariocas. Mas quero analisar a questão. Será que é verdade?

Por todos os motivos citados anteriormente, a cidade do Rio de Janeiro é holográfica, meu povo! E não sabemos por onde começar a arrumar as inúmeras bagunças do Rio, essa é a verdade. Não podemos levar um livro a nenhuma praça pública e ficar sentados, ao sol, munidos do nosso mp3 player, curtindo a paisagem fazendo uma leitura descompromissada, porque podemos ser assaltados. Não podemos estender uma canga na grama e ficar ao sol porque além dos carrapatos e outros bichos que podem nos picar, temos a chance de ficar infectados ou nos sujarmos com as sujeiras dos mendigos e cachorros. Além disso, o Aterro do Flamengo é aterrorizantemente perigoso para passeio, então menos uma opção. Todas as nossas praias estão contaminadas com óleo de barco, esgoto e lixo. E se você for à praia e não pegar uma doença na água, pega na areia. Micoses, verminoses e hepatites estão à sua espera, também as moscas e os pombos.
A floresta da Tijuca, a Pedra da Gávea, o caminho de trilha para o Pão-de-Açúcar ou o Corcovado e a Vista Chinesa são todos pontos foco para assaltos e outros malefícios. Onde pode o carioca aproveitar, de fato, as belezas de que dispõe o Rio?
O Jardim Botânico é seguro, limpo e organizado, mas é pago e você não tem o direito de relaxar deitando nos bancos que estão dispostos ao longo do parque, nem de estender uma canga na grama ou fazer um pique- nique, ou seja, você pode pagar para entrar e ver o parque, como é bonito e bem cuidado, mas não pode de fato usufruir dele.
Da mesma forma funciona o turismo pela cidade. Os turistas podem pagar para entrar e ver no que dá, através do mesmo vidro não blindado que nós, e podem também sonhar em morar nesta cidade repleta de belezas naturais (e todas holográficas).

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