Um salto para a liberdade


Meu amigo ficou sozinho. No escuro. Ficou sangrando, por dentro, por fora. Meu amor não pôde chegar, não foi suficiente. Não posso estar lá com ele onde está agora.Não tenho curativos para ele, nem meu toque serve, talvez os pensamentos. Ele disse um monte de coisas que não me disseram nada quando eu falei com ele ontem na madrugada, quando eu soube do que tinha acontecido. Exceto por ter dito que era muito estranho ver a pessoa que tinha dado a ele a vida tirar a própria. Disse que estava sozinho, que tudo estava nas suas mãos agora, que qualquer parcela de adolescência que ainda restava nele estava enterrada lá no Caju, desde quarta-feira passada.

E eu disse tantas coisas… Tantas coisas que não sei se pioraram o que ele sentia, por ter feito o abismo negro dele crescer, entre o que ele estava sentindo, pensando a partir do que eu estava falando pelo o que eu podia alcançar da situação, sem entender nada de fato. A mãe de um dos seus melhores amigos comete suicídio e você faz o que? Eu disse que ele não estava sozinho, disse que podíamos ficar juntos e que eu via ele, tão claramente, sendo feliz e conseguindo tudo que ele sempre quis da vida, que eu tinha essa certeza para ele. Mas ele não tinha essa certeza. A certeza dele era bem diferente da minha e me sinto tão estúpida agora com todas as coisas que eu falei, porque ele já sabia o que ia fazer.

Estou com raiva, estou muito triste, não consigo acreditar direito que ele pôde ter sido tão frio. Saiu de casa hoje. Fico pensando se tomou banho antes de sair, no que comeu… Se foi de ônibus ou de táxi. No que estava pensando enquanto subia para o andar. Não sei que andar foi. Se subiu de elevador ou de escadas, se sabia para qual andar estava indo. E o pior é eu achar saber parte do que se passava na cabeça dele enquanto caía. Não sei de qual andar da UERJ foi, mas foi hoje, durante a tarde, e eu não senti absolutamente nada de diferente. Nada. Nenhum pressentimento, nenhuma tristeza. Meu irmão, que também é grande amigo dele, estava na UERJ, indo embora, quando ele devia estar chegando. O meu anjo púrpura. Dama de companhia. Fizemos tantas coisas juntos… A cegueira da alma vinha da doença no sangue da família e ele acreditava nisso. Que jamais seria feliz.

Ele agradeceu pela ligação e disse: “É, vamos ver, né?”
E hoje eu pensei nele, mas querendo dar um tempo, pensei em ligar amanhã.
Só que não vai ter amanhã para ele. E é surreal ver a notícia sobre isso no jornal online com várias propagandas piscando na tela, oferta de produtos. É muita falta de respeito reunida, muita banalização de tudo o tempo todo.

2 Comments so far

  1. (unregistered) on September 28th, 2007 @ 11:01 am

    Opa! Mais gente nova?
    Bem-vinda!


  2. Let (unregistered) on September 28th, 2007 @ 5:16 pm

    punk, girl. respeitei .



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