“HEY GIRL” – Rio Cena Contemporânea.

Quinta-feira, 11 de outubro, teatro Caixa-Cultural Nelson Rodrigues.
Diretor: Romeo Castellucci
(…)

É uma peça difícil; isso quer dizer que o intelecto não dá conta, só o emocional (e um emocional difícil de ser tragado e digerido). Ou você se entrega e se contorce como o espetáculo requer ou faz uma caca imediata dele. Foi a reação das pessoas o que mais me estressou. Elas estavam fazendo suas cacas imediatas ali, ao meu lado, atrás de mim, não entendendo estarem diante de um lugar compartilhado, sagrado para muitos (não estou falando do espaço físico do teatro, mas da viagem dolorida aos infernos, reino de um deus).
Elas estavam se distraindo com celulares, comentários e risadas descasadas pelo desconforto em entrar naquele território. E precisavam dessa válvula de escape para se esconderem do incômodo. Não foram capazes de observar a obra de arte por si só, subjetiva e internamente.

E esse não é o tipo de arte que se possa dizer “gostei/ não gostei”. Não é o tipo de arte que se aplaude no final. Não é o tipo de arte que se sai rindo e conversando depois. Mas isso tudo aconteceu.

É uma peça incômoda, que mexe com partes das pessoas com as quais elas não costumam lidar. É incognoscível, beirando o impossível, é escura, fria, angustiante, aguda, explosiva e retraída. E foi assim que eu fiquei, contorcida na cadeira, enquanto as pessoas saíam em “off”, como se nada tivesse acontecido.

Durante a peça, celulares, tosses, cadeiras rangendo, comentários e risadas completamente fora de hora eram as reações mais comuns. As pessoas estavam fazendo escárnio de um Deus, tirando o direito dele de ser sagrado e adorado no seu altar, através das suas risadas. Não era livre auto-expressão o que estava acontecendo, mas escárnio, pelas próprias incapacidades de colocarem à parte seus processos cognitivos e receberem aquela informação pura e simplesmente. A peça era em italiano e as pessoas ficaram, como eu, esperando algum momento de entendimento. Ao primeiro “catzo de mierda”, várias risadas, como sinal de confirmação ao que estavam vendo… Mas era um alarme falso. Os processos cognitivos da mente acontecem independentes da nossa vontade, mas cabe a nós controlá-los. Eram crianças mal educadas, reagindo ao estímulo.

Não sei como o diretor lida com isso, mas ao final, tiveram aplausos! As atrizes, coitadas, visivelmente mexidas pelo conteúdo intenso, tendo que agradecer. Obviamente estavam no piloto automático, viradas para dentro, olhar fixo no nada, agradecendo por obrigação. Não é peça que se aplauda. É peça que vai se acendendo a luz devagarzinho e deixando as pessoas livres para saírem quando se sentirem confortáveis para caminhar.

Levei uns dez minutos para conseguir me mexer. Fiquei parada, sem conseguir conversar, só respirando para relaxar. Mas só consegui mesmo hoje. Ainda tenho o incômodo no estômago da noite de ontem.

Acho que por mais que digam que os europeus são reprimidos, pelo menos acredito haver mais respeito em relação à subjetividade alheia em espaços públicos, mas posso estar romantizando mesmo e generalizando ao dizer que brasileiro é mesmo sempre carnaval e o quanto eu me sinto peixe fora desse mar…

2 Comments so far

  1. letícia (unregistered) on October 13th, 2007 @ 5:49 pm

    uma vez fui ver denise stoklos, mas a platéia reagiu de uma maneira tão estranha (ou estranha era eu? hahahaha) que fiquei mal. eles riam, GARGALHAVAM de cada coisa, que eu pensava: “gente, parem! estão me desconcentrando…”

    queria tanto ter visto. vi o zé celso. PUNK PUNK PUNK. mas teve uma lance da platéia que tb me constrangeu, depois te conto.


  2. Nicola (unregistered) on October 15th, 2007 @ 2:12 am

    Oi Alexandra, gostei da tua crítica mesmo. Eu tentei tirar aquela lama do meu corpo durante dois dias. Só uma nota: o diretor é Romeo Castellucci, enquanto Raffaello Sanzio (o pintor amigo de Leonardo e Michelangelo) dá o nome à companhia.
    Quando puder, dê uma olhada nas criticas do cenacriticacontemporanea no site do festival.
    abraço
    Nicola



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