O Outro Lado

São famosas diversas peculiaridades dos habitantes daquelas bandas, seja a elipse dos artigos entre a preposição e o nome próprio ou a incorrigível desorientação entre as ruas da capital. Certamente há motivos de sobra que inspiraram a criação politicamente incorreta do termo para designá-los – niteroíbas -, quimera lingüística capaz de reunir toda uma gama de preconceitos.

Mas não perderei meu tempo enumerando curiosidades sobre os habitantes dessa cidade. Antes, apresento ao leitor esse subgrupo do qual faço – ou fiz – parte, essa geração, filha daqueles que, temerosos da então incipiente escalada de violência do Rio de Janeiro e da constante ameaça às suas crianças, cruzaram pela primeira vez a Baía de Guanabara rumo a uma terra prometida de paz. Baía que nossos pais atravessaram ainda embalados pela lembrança dos botos brincalhões que já haviam morrido, e que nós aprenderíamos a chamar de poça. Poça de água suja, poluída, fedida. Poça de esgoto, que goteja dos canos estourados e das juntas mal-feitas dos gatos de água. Poça de merda, que atravessaríamos todo os dias, para trabalhar, tantos anos depois. Poça de sangue, que escorre dos morros e se acumula no centro deste inferno metropolitano. Poça de lágrimas.

Não é de se espantar que tenhamos crescido temendo a cidade louca, tumultuada, gigantesca, e não é difícil de entender a desorientação que toma muitos de nós ao penetrar em suas ruelas escuras. Enquanto os cariocas aprendiam que o morro pertence ao diabo e a passar longe das ladeiras, um outro tipo de fissão social se operava – a divisão ilusória entre a cidadezinha pequena e pacata e o outro lado. Acreditávamos ingenuamente que poucos quilômetros de água poderiam ser uma barreira mágica contra todos os problemas. Até hoje, tantos anos depois do fim das ilusões, ouço pais resmungando – por que meu filho tinha que arranjar emprego naquele rio?

O medo, no entanto, não impediu um certo fascínio apavorado, e nem aquele sentimento que sempre impele os jovens provincianos a buscarem a metrópole. Vieram os anos 00 e as incursões à Lapa, de início tímidas, acabariam por se tornarem rotina, mas nunca sem um certo nervosismo. Nossa geração acabou retomando suas origens, a partir da Praça XV – o posto avançado dos niteroienses – passando pelo CCBB e rumo ao emprego, à universidade e, enfim, em alguns casos, novos lares.

Ainda assim, mesmo agora, já tendo trilhado de volta o caminho de meus pais, já tendo emprego fixo no centro e posto um pé no bairro das laranjeiras, a cisão entro o mundo de cá e o outro lado da poça persiste como um fantasma. Ainda hoje sinto como que uma paz vinda do nada, toda vez que entro na barca e, após o cochilo da travessia, repito os passos da geração anterior, deslizando sobre a Baía de Guanabara – poça de sonhos -, e avisto o letreiro brilhante do Plaza. Sinto-me inexplicavelmente tranqüilo quando transito entre a sujeira e a pobreza do centro de Niterói, chego à velha casa, e, finalmente, durmo mais uma vez ao som dos pipocos dos fuzis da Grota.

Bala perdida que não dá na TV não mata.

Comments are closed.


Terms of use | Privacy Policy | Content: Creative Commons | Site and Design © 2009 | Metroblogging ® and Metblogs ® are registered trademarks of Bode Media, Inc.