Archive for November, 2007

Rio(s) de (rima para todos os) Janeiro(s)

Rio de Janeiro, fora do eixo
é tão destro nosso desleixo…
Não está inteiro, não está ao meio
Rio de Janéramos, fevereiro e março…
Primeiro de abril, eleições fechadas, apague o isqueiro
se não for tabaco…

Rio de janeiro, teu aguadeiro
é um atoleiro para os bicheiros
E os banqueiros abrem o berreiro no cativeiro
É cavalheiro o bombardeio do brigadeiro
E o fuzileiro apronta o fogareiro, o sinaleiro para o marinheiro

E o cheiro dos teus bueiros, quase um chiqueiro.
Não está inteiro, teus morros são coveiros,
Falta dinheiro, falta cinzeiro, falta um escudeiro…

Teu estaleiro é um picadeiro sem nenhum roteiro,
É um pipoqueiro, um sorveteiro e um corneteiro
E o mundo inteiro, dentro de um palheiro.
E o salgueiro canta o samba para o formigueiro.
Tuas pessoas são peças soltas no tabuleiro,
Um pardieiro com um letreiro, sem travesseiro
nem paradeiro

Teu carpinteiro, de braços abertos pro desfiladeiro,
Vê tuas meninas com bicho-carpinteiro e teus meninos
caminhando sobre braseiros, são açougueiros…
Rio de janeiro, teu sol nunca ilumina o nevoeiro (Será que sabem o polícia que mata o bandido e o bandido que mata o polícia que os dois torciam para o Flamengo?)
Está vazio o teu saleiro, pague um cruzeiro e vá para outras margens.
Não há água em teus chuveiros que possa lavar essa sujeira.

Descobri que…

…se eu entrar na Voluntários da Pátria, de carro, de madrugada, e o primeiro sinal estiver na eminência de ficar verde, pegarei TODOS os sinais da rua, verdes. Todos. É preciso brincar com essa cidade. Uma belezura ver tanta cor vermelha ficar verde numa sequência e velocidade incrível. Voluntários da Pátria, só hoje reparei na beleza da etimologia. É preciso brincar com essa cidade. Depois eu conto da minha mini Montanha Russa particular quando saio da Urca e pego aquela descida-subida para Botafogo.

Grafites botânicos

Depredar a natureza é o fim. Mas acontece que vivemos em indecisos tempos pós-modernos de verdades transitórias — onde ninguém sabe ao certo se é melhor o açúcar ou o adoçante — de modo que também sempre tive opinião cambiável em relação aos grafites produzidos por visitantes nos bambús do Jardim Botânico do Rio. Exatamente como penso a respeito dos grafites urbanos. Às vezes gosto muito mas às vezes detesto, dependendo isto do que é feito, de onde é feito e dependendo do meu bom-humor no dia. Neste domingo eu estava mais para gostar — até porque dentro do Jardim Botânico tudo são flores — e por isso resolvi registrá-los. Para quem duvida, vi coisas ali de 20 anos até. E não são apenas os brasileiros que arranham a clorofila e deixam gravados seus nomes para a posteridade. Vi assinaturas em inglês, espanhol, holandês, russo e até alguma coisa que julguei chinês. A maioria pertence a casais de namorados e entre os que consegui observar, o mais estranho era o de um casal tímido que aparentemente pretendia manter anonimato e assim escreveu somente “marido & esposa”.

bambus.jpg

Salve meu nobre

bac.jpg

E viva a Lisboa de Portugal que nos legou esse sotaque carioca cheio de xizes e de erres e todos os santos e santas e todos esses açougues, padarias e botequins que se chamam rainhas disso e reis daquilo, sobremaneira as dúzias de variantes em torno do bacalhau, seja o Rei do Bacalhau, seja o Bacalhau do Rei, seja ainda este Império do Bacalhau e aquele Bacalhau Imperial, príncipes e princesas do Reinado do Bacalhau e todas essas nobrezas vagabas que se estampam nos letreiros e nos cartazes da cidade, inclusive o da Padaria Santa Marta, na Fonte da Saudade, que anuncia em promoção 88 bolinhos de bacalhau, tudo aos módicos 88 reais e 88 centavos.

Latitude 0

A culpa era do calor. A única coisa que realmente fazia sentido. Culpar o clima por suas atitudes intransigentes. Era final de primavera. A mais abafada de todos os tempos. Novembro dos infernos. Nestes dias, ela alegava incoerência mental, dizia que não conseguia se concentrar. Maldito fim de ano. Na tv, já se anunciava o Natal na Leader Magazine.

Virou a noite acordada lucubrando pensamentos nada saudáveis. Mas se estendeu na cama até às 10h.

Pagou umas contas no banco e depois foi almoçar. Achava sempre o cúmulo da solidão sentar sozinha numa mesa de restaurante. Ficava olhando as pessoas e inventando histórias para cada uma delas. Teve vontade de ligar para ele, mas resistiu. Há uma semana não tem notícias. Tinha realmente desistido de estabelecer qualquer tipo de contato. Ele era sempre hostil. E ela se achava patética pela insistência.

Às 13h pegou no trabalho, revisou uns textos, autorizou umas edições e amargou numa reunião tediosa que não sabe ao certo o que foi discutido. O ar condicionado não dava vazão para o calor e ela suava. Tinha na camiseta uma marca molhada no meio dos peitos. Ela não conseguia parar de pensar nele. Era saudade de voz. E não mera distração.

No fim do dia, leu umas notícias na internet e soube de um banhista afogado em Ipanema. Teve sobressaltos e imaginou se não teria sido ele.

Toda drama era pouco. E qualquer motivo seria suficiente para a ligação encubada desde a hora do almoço. Fechou o dia e foi para casa pensando atacar o telefone em primeira instância. A saudade, claro. Ela não dizia em voz alta para não ter que assumir que sentia falta dele, e também, para não lembrar que ele vivia muito bem sem ela. O silêncio dessa semana sem contato era isso, a total falta de interesse dele.

Arriou a bolsa no chão da sala e encarou o telefone. Pensou se aquilo era realmente válido. Mas ela era impulsiva e inconseqüente. Não sabia dosar nunca.

Ligou o rádio e rolava qualquer música numa voz feminina.

Ele atendeu sem nenhuma surpresa, e ela afoita, querendo saber da vida, das coisas todas. Ele estava em Brasília visitando família, amigos (antigos casos – de certo). Foi tão monossilábico e desinteressante que ela respirou fundo aquele desdém a distância. Sabia que aquela ligação não representava nada para ele. Não prolongou o assunto, nem contou do bafo quente que assolava as moleiras no Rio de Janeiro. Mas quis saber do clima daquele lugar antes de desligar. Parecia uma pergunta sem sentido. E a resposta veio breve e sem questionamentos. Seco, ele disse.

Ela desejou que aquela cidade seca fizesse o nariz dele sangrar.

Em Brasília, 19 horas.

Après la pluie

6N.jpg

Corcovado, sábado, 19:15

Terms of use | Privacy Policy | Content: Creative Commons | Site and Design © 2009 | Metroblogging ® and Metblogs ® are registered trademarks of Bode Media, Inc.