Latitude 0

A culpa era do calor. A única coisa que realmente fazia sentido. Culpar o clima por suas atitudes intransigentes. Era final de primavera. A mais abafada de todos os tempos. Novembro dos infernos. Nestes dias, ela alegava incoerência mental, dizia que não conseguia se concentrar. Maldito fim de ano. Na tv, já se anunciava o Natal na Leader Magazine.

Virou a noite acordada lucubrando pensamentos nada saudáveis. Mas se estendeu na cama até às 10h.

Pagou umas contas no banco e depois foi almoçar. Achava sempre o cúmulo da solidão sentar sozinha numa mesa de restaurante. Ficava olhando as pessoas e inventando histórias para cada uma delas. Teve vontade de ligar para ele, mas resistiu. Há uma semana não tem notícias. Tinha realmente desistido de estabelecer qualquer tipo de contato. Ele era sempre hostil. E ela se achava patética pela insistência.

Às 13h pegou no trabalho, revisou uns textos, autorizou umas edições e amargou numa reunião tediosa que não sabe ao certo o que foi discutido. O ar condicionado não dava vazão para o calor e ela suava. Tinha na camiseta uma marca molhada no meio dos peitos. Ela não conseguia parar de pensar nele. Era saudade de voz. E não mera distração.

No fim do dia, leu umas notícias na internet e soube de um banhista afogado em Ipanema. Teve sobressaltos e imaginou se não teria sido ele.

Toda drama era pouco. E qualquer motivo seria suficiente para a ligação encubada desde a hora do almoço. Fechou o dia e foi para casa pensando atacar o telefone em primeira instância. A saudade, claro. Ela não dizia em voz alta para não ter que assumir que sentia falta dele, e também, para não lembrar que ele vivia muito bem sem ela. O silêncio dessa semana sem contato era isso, a total falta de interesse dele.

Arriou a bolsa no chão da sala e encarou o telefone. Pensou se aquilo era realmente válido. Mas ela era impulsiva e inconseqüente. Não sabia dosar nunca.

Ligou o rádio e rolava qualquer música numa voz feminina.

Ele atendeu sem nenhuma surpresa, e ela afoita, querendo saber da vida, das coisas todas. Ele estava em Brasília visitando família, amigos (antigos casos – de certo). Foi tão monossilábico e desinteressante que ela respirou fundo aquele desdém a distância. Sabia que aquela ligação não representava nada para ele. Não prolongou o assunto, nem contou do bafo quente que assolava as moleiras no Rio de Janeiro. Mas quis saber do clima daquele lugar antes de desligar. Parecia uma pergunta sem sentido. E a resposta veio breve e sem questionamentos. Seco, ele disse.

Ela desejou que aquela cidade seca fizesse o nariz dele sangrar.

Em Brasília, 19 horas.

2 Comments so far

  1. LP (unregistered) on November 6th, 2007 @ 2:37 pm

    Depois de 1 ano em Buenos Aires volto pro Rio fazendo escala no Distrito federal. Durmo uma noite em Brasilia. Entro num taxi, o rádio ligado, são 19 horas, é a Voz do Brasil e toca o Guarani de Carlos Gomes. Estou em casa e aquela chatice infinita me alegra.


  2. lucas n (unregistered) on November 7th, 2007 @ 9:57 am

    Belo texto, queridona. E belo comentário tb, LP.



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