Grafites botânicos

Depredar a natureza é o fim. Mas acontece que vivemos em indecisos tempos pós-modernos de verdades transitórias — onde ninguém sabe ao certo se é melhor o açúcar ou o adoçante — de modo que também sempre tive opinião cambiável em relação aos grafites produzidos por visitantes nos bambús do Jardim Botânico do Rio. Exatamente como penso a respeito dos grafites urbanos. Às vezes gosto muito mas às vezes detesto, dependendo isto do que é feito, de onde é feito e dependendo do meu bom-humor no dia. Neste domingo eu estava mais para gostar — até porque dentro do Jardim Botânico tudo são flores — e por isso resolvi registrá-los. Para quem duvida, vi coisas ali de 20 anos até. E não são apenas os brasileiros que arranham a clorofila e deixam gravados seus nomes para a posteridade. Vi assinaturas em inglês, espanhol, holandês, russo e até alguma coisa que julguei chinês. A maioria pertence a casais de namorados e entre os que consegui observar, o mais estranho era o de um casal tímido que aparentemente pretendia manter anonimato e assim escreveu somente “marido & esposa”.

bambus.jpg

5 Comments so far

  1. lucas n (unregistered) on November 21st, 2007 @ 3:06 pm

    lp,

    essas marcas me lembram as deixadas pelos ursos e outros animais em árvores, para demarcar território. Não me parece que esse tipo de uso seja igual ao dos grafites urbanos. Nestes últimos, a característica transgressora é fundamental, já que é invadido um espaço privado de outra pessoa ou entidade. Os muros de prédios são intencionalmente mantidos em seu estado “sem marcas”, enquanto as plantas permanecem nesse estado apenas incidentalmente. Conquanto não firam realmente as plantas, não me parecem tão graves esses rabiscos. Já os grafites urbanos são necessariamente graves, mesmo quando seu resultado final é válido.

    um abraço,
    lucas


  2. lucas n (unregistered) on November 21st, 2007 @ 3:17 pm

    na verdade achei muito interessante esse post. me lançou em várias reflexões. talvez escreva em algum momento. obrigado.
    um abraço,
    lucas


  3. LP (unregistered) on November 22nd, 2007 @ 4:08 pm

    Esse assunto, do grafite botânico, dá pano pra manga, mas de fato todas essas manifestações, seja o grafite urbano, seja botânico ou agro-pecuário, têm caráter de demarcação de território, de registro de uma identidade pessoal ou coletiva, em local não-autorizado, para a posteridade. Assim como as marcas que vemos nas portas de banheiros públicos e bancos de ônibus. A transgressão em todas elas é flagrante. O bambú tb é espaço público, assim como as grandes mangueiras, os gramados do Aterro e as pedras do Arpoador. Não é o fato do suporte pertencer ao reino vegetal, animal ou mineral, ou ser coisa edificada que caracteriza a intervenção como grafite. Eu poderia rabiscar com pilot aquelas cotias ali do Campo de Santana e ainda assim estaria fazendo o mesmo que os grafiteiros. Ademais não vejo muito sentido em tentar categorizar “cientificamente” essas coisas. Eu prefiro questionar a explicar. :)

    O assunto me interessa muito também. Eu tenho um trabalho — The Cat’s Amazing Target Project (he-he) — em que fiz alvos para registrar a mijada de gatos. Quem quiser pode ver o trabalho, por enquanto, nessa conta do Flickr >

    http://flickr.com/photos/36993308@N00/2053565715/

    Abraço


  4. lucas n (unregistered) on November 23rd, 2007 @ 3:02 pm

    LP,
    Ainda assim, me parece que a transgressão é um pouco diferente nas marcas de casais nas árvores que no grafite urbano. A cidade (numa redundância etimológica) é um espaço completamente politizado, artificialmente constituido. Cada pequeno elemento da cidade, seja mineral, animal ou vegetal, é um “bem”, uma “propriedade”. Tudo na cidade possui uma realidade jurídica indissociável.
    Mas concordo com o que você diz (e percebo outro aspecto da questão não analizado no meu primeiro comentario). O caráter transgressor talvez seja ainda maior nas plantas, porque elas politizam aquilo que, a princípio, seria neutro. As marcas nas plantas tornam um ser que era quase alheio à sociedade, em um foco de conflito, um espaço com limites a serem transgredidos.

    Vou dar uma olhada nas suas fotos.

    abraço,
    Lucas Nicolato


  5. letícia (unregistered) on November 24th, 2007 @ 11:56 am

    “marido & esposa” me rendeu uma gargalhada sensa.



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