Archive for December, 2007

Receita de cidade nova

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Para você ganhar uma cidade nova
da cor do pôr-do-sol no posto nove, ou da cor da sua paz,
cidade sem comparação com tudo o que tem havido
(e todo mundo sabe o que tem havido)
para você ganhar um Rio de Janeiro
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas nele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa fumar, nem cheirar, nem encher a cara de birita,
não precisa escrever post em lugar nenhum
(planta tem blog?)

Não precisa
fazer lista de reivindicações
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de amanhã as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre a cidade e os cidadãos,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Rio de Janeiro novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que a cidade maravilhosa
cochila e espera desde sempre.

(Adaptação do poema de Drummond)

foto: Monique Cabral

No Rio, a violência importa mais que as pessoas.

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Merry Christmas Mr Lawrence do Árabe da Gávea

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

A Casa e Vídeo fica aberta até MEIA-NOITE! SÓ HOJE

“Faça suas últimas compras de Natal!!! Aproveite, que é SÓ HOJE”

AHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAAH

Só não gargalho mais ALTO porque sinto muita pena de todos os vendedores, expremidos até a última gota de sangue nesse feriado.

Gente, como é que pode? Papai Noel e comércio SÃO o Natal!
Não há mais nada que possa ser feito.

(e depois do Natal, só tem mais um pesadelo… O Reveillon! O que fazer? Pra onde ir neste Rio de Janeiro? Pra onde FUGIR?! PRA ONDE, PRA ONDE???) – risos –

Nas asas da Panair

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Em tempos de apagões aéreos Luis Fernando Kubrusly pinta aviões. LFK (não confundir com o aeroporto JFK, em Nova Iorque) está ali na saída do Metrô Carioca, logo à direita de quem sai da estação, em direção a Rio Branco. Ele me disse que antes de pintar trabalhou numa companhia de aviação e que hoje tem quadros seus até nos Estados Unidos. Eu achei interessante aquela temática e aquele resultado de quem não passou por academias de arte e que carrega um típico saber e não-saber, o que confere ao trabalho uma certa singularidade bacana. As pinturas, a óleo e acrílicas, baseiam-se em fotografias. Na maioria das vezes mantém apenas o corpo das aeronaves e altera a pintura externa delas, trocando as cores de uma companhia por outra, mudando o cenário aqui e ali. Você pode encontrar alguns de seus trabalhos aqui. Ele me disse para não reparar na apresentação porque era um site tosco, segundo ele “meio brucutú”. Brucutú, meu caro LFK, é esse bando que nos governa, que até hoje não resolveu essa questão e valha-nos Deus, porque o fim do ano chegou.

A dura vida do pedestre na Barra

A Barra da Tijuca definitivamente não foi feita para pedestres. Isso não é novidade, mas ainda surpreende quão difícil é se locomover com as próprias pernas pelas principais vias do bairro. Hoje precisei andar cerca de 15 minutos e o trajeto se transformou numa aventura, tamanha era a quantidade de obstáculos. O que dirá um cadeirante.

Ir do Condado de Cascais até o Shopping Downtown, há apenas uma parada de ônibus de distância, parecia infinitamente mais longe. Pistas múltiplas sem passarelas, viaduto sem espaço para pessoas atravessarem, ausência de calçadas ou vias para quem está a pé, enormes bocas-de-lobo pelo percurso, enfim, só caminhando para crer. Fora quando se precisa atravessar a Av. das Américas, carinhosamente apelidada de “via da morte”. Haja corrida para se adequar ao tempo dos sinais. Quando existem, claro.

Os inúmeros acidentes já são motivos suficientes para mostrar que algo deve ser feito. Mas continuando sobre meu trajeto de hoje, nos canteiros por onde estive, só se via aqueles caminhozinhos formados por quem precisa andar pelo local e tem que dar algum jeito de driblar as inadequações, nem que isso implique em riscos. A Prefeitura só deve passar por ali de carro, e muito rápido, para não perceber uma coisa dessa.

Ho-Ho-Ho!

O moleque experimenta o boné e a mãe diz que está lindo mas que vai estragar o topete. Ele tem aquele cabelo liso esticado para cima, com laquê. Vou ao banheiro e vejo um senhor esticando o cabelo enrolado para baixo, com água. Quem reclama de calor não pode reclamar de chuva… Ele concorda comigo e fala que não reclama de nada. Tem 60 anos, saúde boa, é motorista de caminhão e já dirigiu por quatro países na América do Sul. A vendedora da loja de camisetas, caríssimas, é linda e me chama de querido. Eu pensei que ela estava ali porque vai viajar pro Nordeste, no Carnaval. O vendedor na outra loja usa terno, caminha muito rápido e dá umas freadas súbitas com seus sapatos finos, provocando umas derrapadinhas, sonoras, espetaculosas e meio viadas. Em outro canto, duas meninas conversam sobre as maravilhas do Lexotan. Dois negões com sotaque africano me perguntam onde fica a Lacoste. Descubro a calça Coca-Cola. Um jovem cego entra no ônibus e esbarra em mim. Pra onde você vai? Lineu de Paula Machado. Eu te aviso quando saltar. Fala ao celular e eu fico sabendo que o cego vai para um amigo oculto. O passageiro à frente mete a cara na janela e grita pruns caras no bar ao lado da Botafoguense Malas. Ô Jair! Ô Jair! Ô Mendonça! Ô Mendonça! Vai trabalhar! Jair não olha e Mendonça caga. Tá chovendo pra caralho. O cara vira pra mim e diz que vai zoar o Mendonça amanhã. Vira outra vez e fala mais baixo agora: tem um ceguinho sacana que frequenta aquele bar ali, ha-ha-ha!

Muito rápido

O carnaval foi ontem, não foi?
Não, não foi. Agora já é dezembro e a porta do Inferno está aberta. Sonho que um dia nevará e de fato – esses bonecos de neve que tanto vejo, existirão realmente. Cada ano mais rápido. Ou é impressão? Quando criança o tempo era mais elástico, não é verdade?
Não, não é verdade. Cabeça lotada, e pra entrar mais coisas, sinto que tenho apagado sem querer mil outras coisas. Estou perdendo a memória seriamente e desenvolvendo uma dislexia poética bizonha. Troco palavras, esqueço pessoas, invento palavras e nomes para as pessoas. Você também, não é? Diz que sim.
Curiosa com a roda-gigante que vão construir no Forte de Copacabana. Será que vai ser caro? Tudo bem, acho que cabem 10 pessoas por vagão. Chamo amigos, levo vinho.
Tem um Papai Noel no shopping Tijuca per-tur-ba-dor. Ele É O PAPAI NOEL. Barba branca, carinha de bom, olhos claros, cabelo REAL. Fiquei bem impressionada, cogitei bater foto e tudo, mas fiquei com medo de sentar no colo dele e me desapontar com malícias natalinas.
Carnaval foi ontem, né?
Não.
Memória do olfato ainda intacta.
Dezembro voa sozinho.

Tudo isso é paz

JoaoGilberto.jpgNão sei porque, mas acordei hoje com o refrão da música na cabeça. Aí fiquei pensando numa idéia pro Reveillon de Copacabana. Depois do foguetório sobe ao palco o João Gilberto, apenas o banquinho e o violão… ele dedilha e canta suavemente:

Tropa de Elite, osso duro de roer
Pega um pega geral, também vai pegar você
Tropa de Elite, osso duro de roer
Pega um pega geral, também vai pegar você

Era só isso. Bom fim de semana.

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