Archive for March, 2008

Eletrônica

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Oi Futuro: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo – Rio de Janeiro, RJ – Tel.: (21) 3131.3060.

Viva Raul!

Uma das grandes características da cidade do Rio de Janeiro, e talvez seja melhor dizer do povo que nela habita, vem a ser a inigualável facilidade com que se encontra gente de todo tipo sempre disposta a entabular amistosa conversação nos pé-sujos que se espalham por toda parte. Eu já andei por vários cantos do país e alguns outros fora dele e digo que não há nada igual. Sou capaz de lembrar de conversas engraçadíssimas que tive com estranhos, conversas de uma noite ali encostado no balcão do botequim. A última aconteceu na Casa da Cachaça. Pra quem não sabe, a Casa da Cachaça é um minúsculo boteco na Mem de Sá que vende, é claro, cachaça. Eles têm lá uma enorme quantidade de marcas, pra consumo local ou não. Muito bem. Eu estava no meu canto bebendo uma cerveja e fazendo hora antes de seguir pra outro local, apenas observando a farra naquele bar do outro lado da rua. Pra quem não sabe também, tem um bar de nordestinos — em sua maioria — bem em frente à Casa da Cachaça. O lugar é bombado através de potentíssimas junkie boxes que tocam todos os tipos de forrós, xaxados e baiões. Como todos sabem, esse gênero de música é, nada mais, nada menos, a música árabe, mais sincopada e com temática mais mundana. Mas se você fechar os olhos e cantarolar alguma coisa como “ramaji alah amadjih al-ramah”, como eu fiz ali enquanto ouvia ao fundo um forró ou um xaxado vai pensar que está bebendo arak em Riad. Sobretudo porque abre os olhos e vê três cabras dançando lado a lado, fazendo uma coreografia de pernas e braços retorcidos que lembram muito aqueles kurdos do youtube. Bem, eu estava lá comprovando a teoria musical do oriente-médio-nordestino e eis que avisto um tipo peculiar entre os presentes. Um sujeito baixinho de uns sessenta e tantos anos, longas barbas brancas, colete e um boné de revolucionário francês. Daqueles de feltro marrom. Parecia aquele personagem do Angeli. Viva Rauuuuuuuuullllll!!! gritou ele. Viva Rauuuuuuuuullllll!!! berrava. Eu levantei meu copo, o de Seleta, e retribuí a sua empolgação sem gritar: Viva Raul! Ele sorriu e veio bater o seu copo de cachaça no meu. É o Raul Seixas que você está homenageando? Não!!! Respondeu com os dois olhos arregalados. O Raul Castro! Viva o Raul Castro!!! Ah!… claro. Emanuel contou que tinha visitado a ilha diversas vezes. Cinco ou seis vezes. É mesmo? E o que é que tem de melhor por lá? O tratamento. Fui muito bem tratado. É isso o que tem de melhor lá. Todo muito é muito bem recebido, seja quem for. Mas e a comida? Frango, só comi frango… Y las chicas? Aí ele coçou a barba, deu uma risadinha e fez hummm… Ha-ha! Imagino… Então Cuba é que nem um boteco carioca, não é? É, é sim. Emanuel ainda falava de Cuba mas de repente muda a expressão, fica sério, vira para a pequena multidão na calçada e volta a gritar: Lula safaaaaado! Lula traidooooor!!! Na hora levei um susto mas depois ri bastante, devo confessar. Como ele seguia com os impropérios eu tentei fazê-lo esquecer o Presidente e pensar nas coisas boas de Cuba. Emanuel, e que tal o rum, que tal os… Lula sem-vergonha!!! Lula corrupto!!! Desisti. Ele tinha mudado o tom e agora encarnava um daqueles sindicalistas barbudos que, há algum tempo atrás, berravam palavras raivosas à porta das indústrias do país. Lembram? Esse mundo é mesmo pequeno e dá muitas voltas pela Mem de Sá.

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