Seu Giusseppe

Não sei como é nas outras cidades, mas aqui no Rio esse negócio das bancas de jornal é um empreendimento tradicionalmente italiano. São de famílias italianas as maiores empresas distribuidoras de jornais e revistas, e muitas bancas ainda são de italianos, aqueles que vieram na última grande leva de imigrantes, logo depois da Segunda Guerra. O jornaleiro aqui do quarteirão é um. O nome dele é Giusseppe, mas todo mundo chama de Seu José.

Uns quarenta anos de Brasil, mas o rabicho do sotaque ainda entrega a origem. Cuida da banca sozinho, 365 dias por ano, desde que o irmão e sócio voltou pra Itália no ano passado. Trabalha muito o Seu José… Umas 15, 16 horas por dia, pelas minhas contas. Ao fim da vida, não terá vivido, mas habitado uma banca de jornal.

Não sou um bom freguês, admito. Depois que inventaram isso aqui, a internet, passei a ler cada vez mais na tela. Nada de jornal nem revista. Até pouco tempo ainda entrava na banca do Seu José pra comprar cigarro. Mas aí no começo do ano eu parei de fumar. Ainda fiquei indo lá durante um tempo pra comprar chiclete, mas passada a crise demente de abstinência (que eu regava com doses cavalares de Trident), só passo na porta da banca de manhã pra dar bom dia e conferir o manchetão dos jornais.

Mas outro dia fui lá comprar um jornal que andava com uma coleção de CDs com a história da vida dos santos católicos (narrados pelo Pedro Bial; impossível não imaginar os santos no paredão do Big Brother). Nem sou católico, não me devoto a nenhum santo, mas desde criança gosto das histórias deles (talvez um apego estranho pelo martírio alheio, sei lá), por isso comprei. E logo o do São José. Peguei o jornal, pedi o CD e arrisquei a social: “Esse eu tenho certeza que lhe diz muita coisa, Seu Giusseppe…” Seu José riu. Riu e recusou o valor extra que eu deveria pagar pelo CD. “Deixa, deixa pra lá, ê!”, falou, com a boca e as mãos, na impaciência das concessões meio culpadas.

Hoje, quando chegava em casa, vi o seu Seu Giusseppe de olho esticado, do fundo da banca, em direção à TV do boteco em frente. Era a Itália jogando com a Alemanha pela Copa. Nunca morei fora do Brasil, mas imagino o que não passa pela cabeça de uma pessoa numa situação dessas. No finalzinho da prorrogação, a Itália fez dois. Ouvi uma gritaria na rua. Deduzi o grito do Seu Giusseppe no meio do barulho.

É provável que no domingo ele peça ao santo carpinteiro uma forcinha pra Azzurra. Eu, como disse, não me dirijo aos santos, mas se me dirigisse, numa hora dessas seria à Nossa Senhora de Fátima, a mesma de Portugal e do Felipão, a mesma do meu pai, português, igualmente imigrante e que, se estivesse vivo, a esta hora andaria orgulhoso e eufórico com o desempenho da seleção portuguesa na Copa.

De modos que amanhã, no Portugal X França, em vez de dizer o chavão “Sou Portugal desde criancinha!” eu vou poder tirar a onda: “Sou Portugal desde antes de mim mesmo, rapá!”

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