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Adventures of a Gringa in Rio
Uma visão bem-humorada e realista do Rio de Janeiro: Adventures of a Gringa in Rio.
Inclui ótimas sugestões para estrangeiros, como estas Top Ten Tips for Doing Business in Brazil.
E o delicioso: Top Ten Gringos in Brazil Videos.
Os comentários transformam o blog num fórum internacional. Devia ter um assento no G-20.
No commentsRio que mora no mar
O jornal O Globo de hoje traz, na coluna Boa Gente do Segundo Caderno (infelizmente só disponível na net para assinantes, o que eu lamento, mesmo sendo assinante), depoimentos de vários cariocas ilustres sobre os “sabores perdidos” do Rio de Janeiro.
Uma reportagem deliciosa para a memória.
Em destaque, o depoimento de Elizabeth de Mattos Dias que distribui por e-mail listas com as boas coisas do Rio. (Suspeito que o O novo blog Rio que mora no mar , ainda sem identificação de autoria, seja é uma criação dela. O primeiro post é lindo. Tomara que ela tome gosto pela coisa!)
Transcrevo a lista de Elizabeth:
ÁGUA NA BOCA
- 1. O arroz doce da leiteria Mineira;
2. O mingau da Boi;
3. Sorvetes do Morais, em Ipanema, a Sorveteria das Crianças;
4. A banana split da lanchonete da Mesbla;
5. A comida árabe do Baalbek, na Galeria Menescal, em Copacabana;
6. O cassoulet do Penafiel;
7. O espaguete do Giotto, em Botafogo;
8. Os pastéis do Bar do Adão, no Grajaú e em Botafogo;
9. Os bolinhos de bacalhau do Rei do Bacalhau, no Encantado;
10. O pão francês da padaria Eldorado, em Ipanema;
11. As tortas da Gerbô;
12. Doces da Confeitaria Tijuca (onde hoje fica uma Lojas Americanas);
13. O cachorro quente das lojas Americanas;
14. A maçã caramelada da Galeria Menescal;
15. Angu do Gomes na Praça XV;
16. Mate no copo de papel com base de alumínio da Casa Flora, na Ramalho Ortigão;
17. Laranjada americana da Travessa do Ouvidor;
18. Pirulitos de cone nas ruas;
19. Madrilenho da confeitaria Manon;
20. Maravilha de camarão da Colombo.
Concordo com tudo e muitas dessas comidinhas faziam parte do meu menu até o início da década de 70.
Algumas observações pessoais sem fugir da lista original:
15. O Angu do Gomes da Praça XV está presente em muitas destas listas… Estudante, morador de Niterói e freqüentador da Praça XV e do Largo do Machado em horas fora do relógio dos seres humanos normais, eu ataquei uma ou outra das barraquinha algumas vezes. (Eles não tinham autorização para servir bebidas alcoólicas, mas, em segredo, com alguma insistência, discretamente, o vendedor sorria e servia uma generosa dose de pinga para abrir o apetite dos fregueses habituais da madrugada. Segredo de polichinelo: todo mundo sabia.) O prato pode ter salvado muitas vidas, mas, cá entre nós, nos primeiros anos da década de 70, o gosto era horrível. No entanto acredito na Elizabeth quando diz que o que era servido anteriormente, desde 1955, era bem melhor.
17. A Laranjada Americana da Travessa do Ouvidor ainda servia a famosa laranjada até recentemente, no mesmo lugar, com o mesmo sabor indefectível de que me lembro de meados da década de 60. Vou verificar se ainda está lá, mas não abre aos domingos.
Atualização em 18/08/2008, às 23h14min:
Quem quiser receber regularmente uma obra de arte em forma de ótimas histórias e belas imagens do Rio de Janeiro em sua caixa postal faça-se (isso! A si mesmo!) o favor de enviar um e-mail para a designer gráfica Elizabeth de Mattos Dias: rioquemoranomar@oi.com.br.
O de agosto, que ela gentilmente me enviou, além de bonito estava uma delícia.
Mas já é tarde e, se minhas filhas não me traíram, tem sorvete Kibon no congelador…
1 commentRio de Janeiro, gosto de você
Cariocas gostam de brincar com o povo de Niterói. Dizem que a melhor coisa de Niterói é a vista para o Rio.
A vista é mesmo uma beleza, como podem demonstrar muito bem algumas das belíssimas fotos de neloqua.
Mas, como pode ser visto nesta foto aqui, faz tempo que a melhor coisa de Niterói é que fica a uma distância segura do Rio.
Shake, baby, shake
Você vive numa grande região metropolitana. Você acorda cedo todos os dias úteis e se prepara para mais um dia de trabalho fecundo.
“Ah! A velha e boa rotina”, você pode dizer para si mesmo.
Negativo. Ao menos se você vive numa região como a do Grande Rio.
“Mas eu moro e trabalho próximo a estações da linha principal do metrô. É verdade que os vagões costumam estar lotados, mas não é tão difícil.”
Você tem sorte. Isso funciona bem.
“Hei! Eu fiz por merecer isso. Eu me organizei para facilitar a minha vida”.
Pelo amor de Deus, cara! Não me venha com racionalizações baratas! Você nasceu virado para a lua. Você sabe disso e nós te odiamos.
Porque, se, por outro lado, você depende de condução própria, ou de outros tipos de transportes de massa, ou até de baldeações entre as diversas modalidades do metrô para sua rotina diária de trabalho, você poderá chamar sua rotina de qualquer coisa, menos de rotineira. Você precisa se preparar para uma verdadeira epopéia. Não daquelas com uma hidrazinha comum de sete cabeças, mas daquelas com setenta vezes sete hidras com setenta vezes sete cabeças cada. Por dia.
A geografia da região do Rio de Janeiro complica um pouco os deslocamentos, com suas belas cadeias de montanhas que em muitos pontos se projetam avidamente para o mar.
Mas o fato é que a natureza não precisava se esforçar tanto. Os seres humanos se saem muito melhor quando se trata de complicar o que poderia ser simples ou de tornar inviável uma tarefa que prometia ser repetitiva.
Todas as regiões metropolitanas têm seus problemas quando se trata de deslocar grandes massas de suas populações. Ontem mesmo visitei Melbourn virtualmente e pude acompanhar uma longa discussão a esse respeito.
Outras regiões são famosas, como Nova Iorque, Roma ou Milão. (Como? Não há ninguém do Metblogs na Grande Bota para confirmar isso?)
O que eu reivindico para o Rio de Janeiro é a marca da Região Metropolitana com o Trânsito mais Imprevisível do Mundo.
Nota: Esta saga continua. Ao menos até que me interrompam ou que voluntários mais inspirados possam tomar o meu lugar. Só no Bloglines eu contei sete assinantes deste Rio de Janeiro Metblogs, além de mim, que assino há muito tempo.
Comments are off for this postViva Raul!
Uma das grandes características da cidade do Rio de Janeiro, e talvez seja melhor dizer do povo que nela habita, vem a ser a inigualável facilidade com que se encontra gente de todo tipo sempre disposta a entabular amistosa conversação nos pé-sujos que se espalham por toda parte. Eu já andei por vários cantos do país e alguns outros fora dele e digo que não há nada igual. Sou capaz de lembrar de conversas engraçadíssimas que tive com estranhos, conversas de uma noite ali encostado no balcão do botequim. A última aconteceu na Casa da Cachaça. Pra quem não sabe, a Casa da Cachaça é um minúsculo boteco na Mem de Sá que vende, é claro, cachaça. Eles têm lá uma enorme quantidade de marcas, pra consumo local ou não. Muito bem. Eu estava no meu canto bebendo uma cerveja e fazendo hora antes de seguir pra outro local, apenas observando a farra naquele bar do outro lado da rua. Pra quem não sabe também, tem um bar de nordestinos – em sua maioria — bem em frente à Casa da Cachaça. O lugar é bombado através de potentíssimas junkie boxes que tocam todos os tipos de forrós, xaxados e baiões. Como todos sabem, esse gênero de música é, nada mais, nada menos, a música árabe, mais sincopada e com temática mais mundana. Mas se você fechar os olhos e cantarolar alguma coisa como “ramaji alah amadjih al-ramah”, como eu fiz ali enquanto ouvia ao fundo um forró ou um xaxado vai pensar que está bebendo arak em Riad. Sobretudo porque abre os olhos e vê três cabras dançando lado a lado, fazendo uma coreografia de pernas e braços retorcidos que lembram muito aqueles kurdos do youtube. Bem, eu estava lá comprovando a teoria musical do oriente-médio-nordestino e eis que avisto um tipo peculiar entre os presentes. Um sujeito baixinho de uns sessenta e tantos anos, longas barbas brancas, colete e um boné de revolucionário francês. Daqueles de feltro marrom. Parecia aquele personagem do Angeli. Viva Rauuuuuuuuullllll!!! gritou ele. Viva Rauuuuuuuuullllll!!! berrava. Eu levantei meu copo, o de Seleta, e retribuí a sua empolgação sem gritar: Viva Raul! Ele sorriu e veio bater o seu copo de cachaça no meu. É o Raul Seixas que você está homenageando? Não!!! Respondeu com os dois olhos arregalados. O Raul Castro! Viva o Raul Castro!!! Ah!… claro. Emanuel contou que tinha visitado a ilha diversas vezes. Cinco ou seis vezes. É mesmo? E o que é que tem de melhor por lá? O tratamento. Fui muito bem tratado. É isso o que tem de melhor lá. Todo muito é muito bem recebido, seja quem for. Mas e a comida? Frango, só comi frango… Y las chicas? Aí ele coçou a barba, deu uma risadinha e fez hummm… Ha-ha! Imagino… Então Cuba é que nem um boteco carioca, não é? É, é sim. Emanuel ainda falava de Cuba mas de repente muda a expressão, fica sério, vira para a pequena multidão na calçada e volta a gritar: Lula safaaaaado! Lula traidooooor!!! Na hora levei um susto mas depois ri bastante, devo confessar. Como ele seguia com os impropérios eu tentei fazê-lo esquecer o Presidente e pensar nas coisas boas de Cuba. Emanuel, e que tal o rum, que tal os… Lula sem-vergonha!!! Lula corrupto!!! Desisti. Ele tinha mudado o tom e agora encarnava um daqueles sindicalistas barbudos que, há algum tempo atrás, berravam palavras raivosas à porta das indústrias do país. Lembram? Esse mundo é mesmo pequeno e dá muitas voltas pela Mem de Sá.
Comments are off for this postNo Rio, a violência importa mais que as pessoas.
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Grafites botânicos
Depredar a natureza é o fim. Mas acontece que vivemos em indecisos tempos pós-modernos de verdades transitórias — onde ninguém sabe ao certo se é melhor o açúcar ou o adoçante — de modo que também sempre tive opinião cambiável em relação aos grafites produzidos por visitantes nos bambús do Jardim Botânico do Rio. Exatamente como penso a respeito dos grafites urbanos. Às vezes gosto muito mas às vezes detesto, dependendo isto do que é feito, de onde é feito e dependendo do meu bom-humor no dia. Neste domingo eu estava mais para gostar — até porque dentro do Jardim Botânico tudo são flores — e por isso resolvi registrá-los. Para quem duvida, vi coisas ali de 20 anos até. E não são apenas os brasileiros que arranham a clorofila e deixam gravados seus nomes para a posteridade. Vi assinaturas em inglês, espanhol, holandês, russo e até alguma coisa que julguei chinês. A maioria pertence a casais de namorados e entre os que consegui observar, o mais estranho era o de um casal tímido que aparentemente pretendia manter anonimato e assim escreveu somente “marido & esposa”.

Malandragem universal ou turista é uma merda.
No Brasil o carioca é conhecido, entre outras, pela malandragem, o cara “exxxxperto”. Isso irrita muita gente de outros estados que chega para visitar a cidade maravilhosa.
Longe de ser uma especificidade local, vemos que até em países ditos desenvolvidos, de “primeiro mundo”, como Grécia, Itália e Espanha, a malícia e vontade de tirar vantagem em cima dos outros também é constante.
Circular pelas ruas mais visitadas de Atenas e Barcelona é um exercício de atenção. Seja a pé, de metrô, bondinho ou carro, tem que ficar ligado o tempo inteiro se não quiser ter seus pertences surripiados solenemente, com classe e discrição européia.
Na hora de pegar um táxi por lá, só para citar outro exemplo, prepare-se que você também pode pagar mais caro e ser enrolado, ainda mais se o idioma é grego. Difícil discutir.
Na verdade, onde tem turista, tem um bando de besta em potencial e alguém querendo se aproveitar, pouco importa o lugar do mapa.
Aí você pensa, “poxa, sou do Brasil, moro no Rio, tenho curso avançado nisso”. A malandragem é universal, mas os artifícios para exercê-la são diferentes.
Você pode até sair com cara de otário ou ser feito de idiota nessas viagens ao velho mundo. Pelo menos o europeu é mais pacífico na hora do roubo, ou melhor, furto. E muito provavelmente não vai apontar uma arma na sua cabeça. O que já é alguma coisa.
3 commentstropa de elite
Um amigo de um primo comprou o “Tropa de Elite” em um camelô, e narrou pra mim o que acontece via mímica. Você não perguntou mas, azar seu, vou te dizer o que achei assim mesmo.
Me pareceu um filme não só acima da mera barrinha de competência técnica (coisa que Cidade de Deus, um filme apenas bobo, macumba de butique for export, já era), mas feito com senso de diversão, a diversão basal, macha, antiintelectual que a vertente verité do filme ou livro policial oferece, que consiste basicamente na possibilidade de acompanhar um oficial da lei ou detetive numa diligência perigosa, com chances de resolução violenta e risco de vida.
Não vi muitos filmes policiais (não vi muitos filmes) - os companheiros de portal com certeza conhecem mais, têm listas mesmo de favoritos (HINT aí, né turma). Destes policiais com uma aproximação mas realista, gosto de “Operação França”, com Gene Hackman fazendo um policial nervosinho (mas ainda não vi “Get Carter”, ou “Bullit”, ou, ou). E agora, pelo jeito, gosto de “Tropa de Elite”, em que Wagner Moura faz um policial mais nervoso ainda.
A idéia original do filme era ser um documentário; segundo nossa tradição de fazê-los bem, o resultado não desaponta. Suponho que seja impossível falar de um filme como este sem tratar de suas bases ou pretensões sociológicas. O filme policial vérité é necessariamente um documento muito próximo da sociologia - um instantâneo de costumes e expressões circunscritas a determinado local e época, mas focando especialmente a área de atrito entre extratos sociais diferentes (a sociedade estabelecida é representada pelas forças de repressão, por exemplo - aliás, desculpem o sotaque ligeiramente francês, é só meio inevitável, dado o assunto. Há mesmo uma cena numa sala de faculdade de Direito em que o careca submisso (refiro-me, é claro, a Foucault) não sai da boca das aluninhas (o livro citado é “Vigiar e Punir”, quelle surprise). E, aliás, cosa mui linda, o filme dá uma caneladinha em certa atmosfera que quem já fez faculdade pública (não me refiro à área de Exatas, claro) reconhecerá de cara. O papagear narcotizado, pré-mastigando a papinha ideológica de um menu com validade vencida de décadas, as respostas já esperadas, senhas para o equivalente da estrelinha dourada na testa dos tempos de jardim de infância (é a “melhor faculdade de Direito do Rio”, no filme - o que não impede que os alunos a frequentem de bermuda e camisa praiana, tá ligado? A cena é clueless como na vida real - e trouxe lembranças a este velho).
Ah, spoilers, é.
Noutra cena, um personagem invade uma passeata pela paz e desce o braço num dos participantes. Ulalá. Talvez seja isto que meus amgos esclarecidos politicamente querem dizer com debate: O playboyzinho maconheiro sacudia muito no chão, é verdade, ao ser chutado de um canto pro outro.
Obviamente o filme dará motivo para todo tipo de discussão sobre esse ramerrame de sempre. Você sabe… aqueles temas do Fantástico lá. Mas o filme apenas documenta a realidade das zonas de conflito no Rio. Não me venham falar de distorções; claro que há distorções, mas elas não tocam no ponto principal, são acessórias (como por exemplo: Se a probidade a toda provas do BOPE é factual; ou se a PM é mesmo tão corrupta assim).Digo que o troço é meramente documental porque a discussão sobre o problema não sobe para esferas mais delicadas, onde as respostas começam a ficar interessantes de verdade:
O tráfico de drogas é um negócio de US$400 bi por ano, então… não vai parar. Não vai parar nem se Jesus Cristo descesse do céu e pedisse de joelhos. Você precisaria de um argumento muito bom para conseguir isso. Tente aí. Pense *de com força* num argumento para convencer alguém de que investir US$13 bi e ter retorno de US$400 bi livre de impostos não é algo que se deva continuar a fazer enquanto for possível (o que me lembra: Ninguém vai parar de se drogar. Ninguém vai parar de se drogar. Neguinho sempre se drogou, as mumiazinhas do Museu lá todas se drogavam, tudo junkie. Ninguém vai parar de se drogar, malz ae.)
the war on some drugs
Um negócio de US$400 bi por ano não vai parar porque isso geraria um vácuo econômico, e seria estúpido pensar em algo assim. E, se mesmo empresas que valem lá seus digamos 100 milhões já terão seu magote de lobistas, políticos, que dirá um sistema que dispõe de tanta grana. O tráfico de drogas não vai acabar porque está bom do jeito que está. Está ótimo do jeito que está.
A discussão sobre se o filme “se posiciona de maneira correta frente ao problema das drogas” perde o sentido; Se o filme não toca o ponto principal, a raiz a partir do qual o problema floresce e se desdobra, então o que sobra é a documentação do corte (e imediato renascimento) das cabeças da Hidra: Que os caras do BOPE são animais mesmo, quando têm que ser, fazendo coisas que você deve dar muitas graças por não fazerem parte da descrição do seu trabalho. Que os policiais põem a culpa na “burguesia-zona-sul” do Rio, nos consumidores de drogas que financiam o tráfico; Que a tendência é a escalada da violência à medida que a população aumenta e as armas vão subindo de calibre (sabemos de lança-foguetes, carros blindados que são filhotinhos de tanque etc); que os playboys… sei lá, são babacas mesmo, e por aí vai. No final, foi a aproximação mais adequada para o material, que pode se concentrar apenas em mostrar de maneira realista e excitante as incursões dos Caveiras.
Me parece que o protagonista do “Tropa…” é o mesmo ex-integrante do BOPE que deu uma entrevista à Trip há alguns anos. O cara entrou pra polícia por opção livre e própria, por querer fazer algo, chegando a tirar grana do próprio bolso em cursos de aprimoramento etc. Aparentemente ele se desiludiu lá dentro por ver como a banda toca de verdade (o filme mostra isso em vários níveis). Parece que ele optou por sair e trabalhar com segurança privada… e hoje é a favor da descriminação das drogas. O filme não toca nestes pontos e nem precisa. Apresenta a visão da polícia mesmo e pronto - se o sujeito está portando um fuzil todo pimpão na favela, acabou pra ele.
Claro que faço uma distinção entre a fria resolução profissional de executar uma ação para atingir um fim objetivo com o mínimo possível de dano colateral e demonstrações de crueldade e sadismo. Por uma simples noção de elegância, mesmo. E não duvido de que haja profissionais que podem se orgulhar de executar sua profissão dentro dos parâmetros estipulados pela máxima bélica inglesa no séc. XIX: Oferecer violência (“offer violence”, no original - expressão que acho linda) no nível mínimo necessário para atingir determinado fim. Mais do que isso não se pode pedir numa guerra - e é uma guerra. No caso do Rio, todos os clichês se realizam. O negócio de US$400 bi globais não pode ter suas disputas resolvidas legalmente, então todas as queixas se conciliam em violência, frequentemente extrema e imaginativa. É o tipo de métier para lobos, não para assistentes sociais: Só lobos podem caçar lobos.
(O Rio de Janeiro faz a gente pensar nestas merdas. A cidade tem o clima mais boa-gente e relaxado que se pode conceber - e no entanto, pode ficar surreal-do-mal muito rápido, dependendo de onde você estiver (o filme mostra isso numa cena - que achei desnecessária e de mau-gosto. Não concebo assisti-la na tela grande, deve dar uma onda errada fudida). Eu sei que há casos em que a única resolução possível é a violenta. Não vivemos num mundo perfeito apesar de vivermos no melhor dos mundos.)
Enfim, é isso. Bem legal o filme. “Tropa de Elite” passa longe da histrionice carioca exagerada de “Cidade de Deus”. Há talvez uma caricaturização da proverbial boca-suja nativa (só ocasionalmente: Quase todos os palavrões e sujidades proferidas no filme estão impecáveis, eu fiz uma tabelinha). E é bem citável, coisa rara em filme nacional (vá em frente, lembre aí de mais que meia dúzia de linhas de diálogos de filmes nacionais - e variações de “filha-da-puta” ou “puta-que-pariu” não valem). As pessoas lembram dos nomes de vários personagens de “Tropa…”, e professam preferência mesmo por personagens terciários. Lembra como os americanos dominavam a arte do filme de diálogos memoráveis, que os geeks de cinema repetiam depois entre si? Você sabe, um dos sinais de que determinada peça de ficção está funcionando bem, está em sintonia com o público. A comunidade do filme no Orkut já conta com 33.000 jenhos (entre os quais me incluo) que sabem de cor longos trechos de diálogo do filme, exempli gratia:
01 (Wagner Moura, o Cap. Nascimento, confirmando minha tese de que baiano com raiva é o diabo): Caralho que vontade de meter tiro nesses filha da puta…
14 (um sniper): Qual deles, meu capitão, só falar.
01: Nesses filha da puta da PM (A PM carioca não é mostrada muito favoravelmente. Eles são o Sistema estabelecido, subsistindo dos próprios problemas da cidade).
(…)
14: 01, ‘cho que dá pra derrubar dois coelhos com uma porrada só aqui hein…
01 É 100%, 14?
14: Caveira, meu capitão.
01: Então senta o dedo nessa porra.
Miolos. Etc.
6 commentsEm foco [1]

“Art is the only way to run away without leaving home.” Twila Tharp
Ninguém pode deixar de ir. É a exposição BRASILDESFOCOS que traz cerca de 100 fotografias de artistas gringos contemporâneos. Todos fodas. É o resultado de um olhar crítico-pervertido-delirante-criativo-etc sobre aquilo que temos por aqui, em nossa terra. Gabriel Orozco, Matthew Barney, Candida Höfer, Damián Ortega, Thomas Struth, Kenny Sharf estão presentes. Vá.
E para quem dispõe de tempo é bom aparecer a partir das 15 horas — de hoje a domingo — porque ali, sob a rotunda, acontecem espetáculos de música e dança do Festival do Folclore Brasileiro. Muito bom ver aquela criançada feliz acompanhando com os seus passinhos tímidos os ritmos da ciranda paratyana (que aconteceu ontem).
CCBB Rio, 2º andar, 30 de julho a 16 de setembro
foto: Candida Höfer, Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro
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