Me baseando no primeiro baseado
No ano 2000, enquanto os carros não voavam, para a minha incubada decepção infantil, eu tinha 18 anos, fazia faculdade de letras na puta que pariu, que outros preferem chamar de Fundão. Sabe Deus porquê, eu não bebia (nada) e não fumava. Cigarro ou maconha. Mas sempre fui… sempre fui… Como é mesmo que vovó Régia diz? Uma figura. Talvez pela altura, que nunca me permitiu ser discreta, sempre assumi minha graça espalhafatosa. E somente os céus sabem quantas vezes eu não ouvi: “Você não bebe? Mas você é a mais louca!” ou “Você não fuma? Mas você só fala coisa nada a ver.” Nessa época, o rock ‘n roll ainda não tinha salvado minha vida de uma mesmice que algumas meninas tijucanas costumam ter. Papai já tinha me dado o Abbey Road para ouvir, com recomendações de ouvir “Oh, darling!” no talo. Mamãe já tinha feito lavagem cerebral na minha mente, me levando ao cinema para ver Ettore Scola com 9 anos. Mas faltava alguma coisa. Algum brain damage que partisse de mim mesma. Com 18 anos descobri os shows de reggae no Lagoinha em Santa Tereza ou no Teatro de Lona, na Barra da Tijuca. Sendo capricorniana, com ascendente em virgem, e lua em touro, sempre tive dificuldades de tomar iniciativa para algo. Então, Bob Marley Cover cantava, o baseado passava, e cadê coragem de falar: “Posso experimentar?”
Quedê coragggi? Coragem eu tinha pra cantar as músicas do Planet Hemp bem alto. Achava tudo muito “legal, bacana, aquela coisa…” Pois então. Um belo dia de julho, meu irmão chega em casa com a Playboy de alguma gostosona da época. Tiazinha, Feiticeira, qualquer merda dessas. Sempre gostei das entrevistas da Playboy, porque entrevista pra mim tem que ter mais de 4 páginas. Tem que ter. A entrevista do mês era com um tal de Eduardo Bueno, um jornalista gaúcho que escreveu um livro sobre a história colonial do Brasil e também traduziu On the Road, de Jack Kerouac. Até aí tudo bem.
Só que a entrevista foi praticamente só sobre drogas. Maconha, ácido, cogumelos e afins. E Bob Dylan. O cara falou de como Bob Dylan tinha mudado a vida dele, e o que ele diria para as filhas se elas começassem a fumar maconha. De uma vez que tomou um ácido não sei onde no Peru e a mente dele isso aquilo isso. Fiquei intrigada. Umas duas semanas depois, nas férias de julho, fui à praia com uma amiga. Viva o inverno carioca! Tijucanas, pegamos o 415 (puta que pariuuuuu), e quase duas horas depois chegamos em Ipanema. Quando estava atravessando a rua pra botar os pés na areia, vejo à minha frente um homem alto, magro e com uma sunga hilária, Fernando Gabeira style. Comentei com a amiga, que riu baixinho. O homem se virou, com um sorriso que só turistas têm, e eu percebi: era o Eduardo Bueno! Resumi para minha amiga, quem era ele, pois ela não entendeu minha repentina excitação. Chegamos na areia, e eu fui diretamente ao mar. Dei meus mergulhos, e quando saí, Eduardo Bueno estava entrando. Tenho vergonha de lembrar o que eu disse, mas eu disse: “Fala fã de Bob!”. Ele sorriu gauchamente e entrou no mar. Voltei para minha canga constrangida com a minha capacidade de ter estragado um momento tão especial, e deitei ao sol. Dez minutos depois sinto uma sombra e quando abro os olhos, Eduardo Bueno está me olhando: “Posso sentar, guria?” E já foi sentando. E ali ficou por mais 3 horas. Contei que tinha lido a entrevista, contei que nunca tinha fumado maconha na vida, embora as pessoas me achassem doente e maluca. Contei da minha decepção com a faculdade de letras. Contei da virgindade. Contei do Fluminense. Ele sorria. E contou também. Dos amores em cada lugar do mundo. Do casamento. Das amizades. Das duas filhas. Das drogas. De Aldous Huxley. Me disse TUDO que eu queria saber sobre maconha e nunca tinha lido em nenhum site, em nenhuma revista. Emprestei meu protetor solar. Ele comentou que estava no Rio, com o Nelsinho. Motta. Disse-me para ter cuidado, e me desejou uma boa vida. Eu sorri com sorriso que só turistas têm e agradeci por tudo. E terminei com um “Até um dia…” Nesse mesmo dia, 1° de julho, fui à Lapa e fumei meu primeiro baseado. Corta para 2004. São Paulo, Tim Festival, show da minha musa, P. J. Harvey. Estou lá, cantando, pulando, quando de repente um homem alto e magro pára na minha frente. Pensei eu com os meus neurônios: “Das duas, uma: ou está me paquerando ou lembra de mim”. Sim, era ele. Eduardo Bueno. Resolvi agir e já saí falando “sou eu, aquele dia, Ipanema, praia, maconha…” Ele deu um grito de “Bah!”, e comentou que eu estava mais alta. Dã. Falei do quanto aquele dia tinha sido importante, mais do que qualquer matéria da revista Super Interessante sobre o assunto. Ele riu sacaninha e perguntou: “E hoje em dia? Fumas?” Eu ri sacananinha e voltei a ver o show. Não nos despedimos, nos perdemos na multidão. Hoje, mesmo sem dar entrevistas para Playboy, sou eu que faço a linha: “Cuidado meu amigo/Não vá se estrepar/Não queira dar um passo mais largo/Que as pernas podem dar/Não se iluda com um beijo/Uma frase ou um olhar/Não vá se perder por aí…” quando minha prima de 17 anos vem perguntar o que acontece com a nossa cabeça quando se fuma um.


Que história boa e bem contada, Letstellar… Bravíssimo, bravíssimo!
Que ótima história!
Me lembrou das minhas milhões de dúvidas no primeiro doce e uma gracinha de semi-desconhecida que com toda paciência e simpatia me fez sentir mais segura e partir para outras dimensões!
;o)
que boa história… que agradável… eu vi tudo.
não é qualquer um que consegue escrever tanto na internet sem ficar chato.
sério… internet geralmente só funciona pra textos mais curtos.
vc tem um talento. foi lindo. hahahahahaha
parabéns.
“os grandes espíritos se encontram!”… me ensinou uma vez minha esposa. E é a pura verdade.
“os grandes espíritos se encontram!”… me ensinou uma vez minha esposa. E é a pura verdade.
O Peninha é uma figura! Já vi várias entrevistas dele e um debate também num Forum da Liberdade aqui em Porto Alegre. Impagável. Além de tudo, gremista fanático. Só faltou dizer que ele escreveu a biografia dos Mamonas Assassinas, mas ninguém é perfeito :-))))
Bjs
Experiências assim só com pessoas como vc.. e poder escreve-las desse jeito.. só vc.. tá vai nem conheço tanta gente que escreve.. mas vc manda bemmm :)
Depois conversamos mais sobre maconha.. hah
Lindo, lindo!
capricorniana com ascendente em virgem e lua em touro? meu deus, letícia. aperta, aperta. e não passa. ;)
AHHAHAHAHAHAHA, MAÍRAAAA.
meu astrólogo me disse, um dia:
“letícia, vc DEVE fumar de vez em quando… vc DEVE”
HAHAHAHAHAHA
Belo texto, Letícia! :)
=|
er..
que pena… não posso me juntar a turma das congrutulações. pulei do bonde da inércia que segue sobre a lapa
Legal o que você disse do constrangimento ao estragar momentos especiais… lembra muito a mim, às vezes, especialmente quando conheço uma pessoa ou quando tenho a oportunidade de reencontrar essa pessoa.
A propósito, quando fumei meu primeiro, batia tanto a cabeça na parede(Por não conseguir mantê-la de pé) que meu amigo que ofereceu o dito colocou uma almofada atrás da cabeça pra não virar uma fratura,rsrsrs!
Parabéns por seu talento múltiplo!
beijão!
Johny
que barato!
vou fazer uma pergunta:
putz, esqueci!