Figurantes

Antigamente era papo de ambientalista ou de raras pessoas com noção de tempo e espaço. Hoje em dia, o aquecimento global é papo de botequim, e veja só, de salão de beleza. Entrei num salão aleatório na Praça Saens Peña, para fazer as unhas. A manicure se chamava Sandra, tinha um sotaque mineiro e obviamente iniciamos o papo com o clássico: “Que calor, né menina!“. Sandra, seríssima, inicia um monólogo sobre o ser humano inconseqüente e sobre sua falta de esperança. Diz que é muito triste pensar que a neta dela terá que lutar por água potável. Fico chocada com o tom da conversa e ao mesmo tempo, feliz. A manicure ao lado entra na conversa. Comenta que leu no Globo que as geleiras já quase não existem. E que o Rio de Janeiro poderá sumir, assim como várias outras cidades no litoral. As duas se mostram assustadas. Em momento algum falamos da Suzana Vieira e do marido quebrando o motel. Sorrio e conto para elas do caso dos ursos polares que não estão conseguindo dormir, pois só estão habituados a dormir com 28 graus negativos. E como a temperatura não está essa, eles não dormem. E estão estressados. A manicure arranca um bife. Dou gritinho de “ai” e explico que aquela é minha décima terceira vez numa manicure. Ela ri e comenta: “Agora que o mundo tá acabando resolveu ficar bonita?” Sandra é engraçada. E politizada. E manicure. Essa minha coisa de entrar em salões aleatórios, taxistas aleatórios, depiladoras aleatórias, me rende sempre boas conversas.
Já fiz escova com uma cabeleireira que no verão brasileiro vai para Itália trabalhar num hotel. Enquanto malhava o braço para domar minha crina, ela contou que ficou muito impressionada quando chegou no tal hotel pela primeira vez. “Assustador”, disse. Depois ficou sabendo que foi ali onde foi gravado “O iluminado”. Senti a orelha queimar. Não me lembro do nome dela, mas lembro dela ter me ensinado alguns palavrões em italiano, e de ter dito que nunca teve coragem de olhar para trás quando estava no corredor. “E não consigo ver filme com Jack Nicholson”.
Teve também a depiladora cuja irmã fez faculdade de direito com a Clarice Lispector. A depiladora, muito ruiva, aplicava a cera e com uma voz muito suave, dizia na hora de arrancar: “A Clarice lá em casa era muito esquisita…” E PÁ. Bye bye, pentelhos.Contou dos romances lispectorianos. E eu, muito aflita, ficava super atenta.
Uma vez fiz um trajeto Tijuca-Lagoa com um taxista formado em Letras. “Português-Literatura”. O engraçado é que foi bem na época que eu estava querendo desistir do mesmo curso. Falei mal dos professores múmias de Latim, ele contava das aulas de lingüística com um fodão aí da época dele, um papo ótimo. Lembro que o taxista era apaixonado por Carlos Drummond de Andrade, e juntos, recitamos o poema dele que vinha na nota de 50 cruzados. (Nota que eu ainda tenho). Esqueci alguns pedaços na hora de recitar, mas o homem (João? Pedro? Paulo? Severino? Wilson? Carlos?) sabia tudo. E assim, pela janela de um carro que não era meu, eu vi a minha cidade duplicada. Ora no céu, ora n’água.

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

E assim continuo nessa escolha aleatória de “figurantes” importantes na minha vida.
E olha que nem contei da senhora capricorniana, dona de 2 gatos, num prédio na Cinelândia; do Adílson, atendente do Bob’s, nas madrugadas de 2003, que tinha um sorriso engolidor de mundos; da caixa da farmácia Granado que quis me mostrar opções de vestido de noiva, e insistiu numa opinião…
Nem contei.

Eu preparo uma canção
Onde eu consiga
Contar tudo
O que parece ser figuração

9 Comments so far

  1. Tainá (unregistered) on February 6th, 2007 @ 1:45 am

    menina, vi o iluminado anteontem…e teria pavor de trabalhar no hotel…

    qto a questão ambiental..falo nada…affff

  2. Gleidson (unregistered) on February 6th, 2007 @ 7:41 am

    Perfeito post!

    E sobre a questão ambiental… antes tarde do que nunca, né!
    Pra você ver o quanto a TV dita a vida do povo…

  3. Nuno Virgílio Neto (unregistered) on February 6th, 2007 @ 9:00 am

    No sábado peguei um táxi com uma amiga, deixei-a em Santa Teresa e fui pra Copa. Aí o motorista, que tava quieto, veio com um papo de “Tão assaltando taxista direto aqui. Casal… Os dois entram no carro, a gente sobe e pum!: eles assaltam”.

    Acho que em algum momento ele desconfiou da gente, e só resolveu dar papo quando viu que a menina tinha endereço fixo e não era bandida, logo eu também não.

    Moral da história, amiguinhos: a desconfiança tem tornado mais difícil o contato com estranhos.

    Em relação à nota do Drummond: a única vantagem de um país com inflação galopante é que a mudança de moedas e o corte de zeros faz com que as notas mudem e muita gente possa ser homenageada. Se não fosse o Plano Real, ia sugerir o Mussum pra nota mais alta do Brasil! “In cacildis we trust!”

  4. maíra (unregistered) on February 6th, 2007 @ 9:30 am

    letícia, upalalá. fueda.

    nuno, mussum, né? ia ser lindo: “menina, ontem fui ao mercado e gastei uma nota preta!”
    :P

  5. Gleidson (unregistered) on February 6th, 2007 @ 9:44 am

    Ia comprá mé só com ela!

  6. Bruna F (unregistered) on February 6th, 2007 @ 12:21 pm

    Nooooossa, que loucura! Le, onde é que vc encontra essas manicures loucas? rsrsrs

  7. rainhadecopas (unregistered) on February 6th, 2007 @ 2:11 pm

    Talvez, seja simplesmente um agrado do inesperado com capricórnianas fugazes… pois, por aqui o mar não canta, embora tantos figurantes alegrem o caminho.

    …um vento diz, q há de se ter muita humildade pra ouvir humanos corações desconhecidos, a alimentar sorrisos.

    q assim seja

  8. rainhadecopas (unregistered) on February 6th, 2007 @ 2:15 pm

    mas muito mais arte pra faze-los reverberar em letras,
    para Béns Ti

  9. Ângela (unregistered) on February 7th, 2007 @ 8:40 am

    só saber olhar e ouvir o que está a nossa volta, né?


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