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Neta do sol

Eu agora trabalho segunda, quarta e sexta na Ilha do Governador. Sabe a Ilha? Não, né. Sabe o Aeroporto? Então. Ali perto. O bom é que estou indo com o carro do meu irmão. O carro do meu irmão tem som. O meu não, o que não faz o menor sentido. Tenho escrito pouco até por isso. No meu carro, sem som, tinha altas idéias e anotava uma ou outra observação dessa cidade insana. Agora piloto um carro dois ponto zero na Linha Vermelha (sei onde estão os pardais), gritando de vidros abertos Hot Chip, Sonic Youth, Janis Joplin, Mundo Livre, Frank Sinatra, Caetano… É uma coisa boa, tá me fazendo bem não pensar tanto e só cantar, cantar, cantar, esqueço do ar condicionado e vou de vento mesmo.
Mas o melhor, meus caros míseros leitores, curiosos, amigos, piscopatas: eu volto da ilha às 16:30. O entardecer me causa um torpor que só a lua conseguia comigo. O som no talo, e aquele sol ALI, tá tá tá tá tá tá, zumbido infinito no meu ouvido. Um cheiro tenebroso do Fundão, um cenário miserável e perturbador, e o sol ali caindo como a bandeira do Japão, círculo vermelho, bola solitária pegando fogo.
Uns coqueiros pra acalmar o caos, o sol caindo e eu nem aí para o trânsito.
Eu sou uma bola solitária pegando fogo.
5 commentsQuando só não vê quem não quer
Um turista português de 19 anos foi morto hoje de manhã durante um assalto na praia de Copacabana.
Tô aqui pensando em como começar qualquer comentário a respeito desse triste episódio, mas as possibilidades são tantas que eu me confesso perdido.
Uma coisa é certa: não pra dizer que a praia de Copacabana é um lugar tranqüilo e policiado. Sou morador do bairro, adoro vagar pela orla, mas em determinados trechos (como do Copacabana Palace ao Posto 2, por exemplo), e particularmente em alguns horários (como nos fins de tarde), a praia de Copacabana está entregue às moscas.
Por diversas vezes eu me senti na beira de ser assaltado ali. Durante uma época, quando eu jogava vôlei toda semana à noite como uma galera no Posto 3, vi diversos assaltos a turistas desavisados que tiravam o começo de noite pra passear na faixa de areia mais próxima à água ou fumar seu baseado debaixo das estrelas.
Os trechos da orla com coqueiros, então… Costumo chamá-los de Gotham City: só tem morcego, olhinhos brilhantes esperando a hora certa de pular em você.
Em resumo: tudo é muito óbvio, tudo é muito nítido, menos pra polícia, que nunca está lá, e especialmente nos lugares onde todo mundo sabe que sempre rola uma merda dessas.
E amanhã, claro, vai ser aquela novena: o comandante explicando no jornal que foi um ato isolado, mas que mesmo assim vai reforçar o policiamento na área, aí a Globo põe um cinegrafista de plantão flagrando outros delitos à luz do dia, a polícia prende meia dúzia e blablablá: voltamos às obras atrasadas do emissário e afins.
Ô, meu saco…
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