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Neta do sol

Eu agora trabalho segunda, quarta e sexta na Ilha do Governador. Sabe a Ilha? Não, né. Sabe o Aeroporto? Então. Ali perto. O bom é que estou indo com o carro do meu irmão. O carro do meu irmão tem som. O meu não, o que não faz o menor sentido. Tenho escrito pouco até por isso. No meu carro, sem som, tinha altas idéias e anotava uma ou outra observação dessa cidade insana. Agora piloto um carro dois ponto zero na Linha Vermelha (sei onde estão os pardais), gritando de vidros abertos Hot Chip, Sonic Youth, Janis Joplin, Mundo Livre, Frank Sinatra, Caetano… É uma coisa boa, tá me fazendo bem não pensar tanto e só cantar, cantar, cantar, esqueço do ar condicionado e vou de vento mesmo.
Mas o melhor, meus caros míseros leitores, curiosos, amigos, piscopatas: eu volto da ilha às 16:30. O entardecer me causa um torpor que só a lua conseguia comigo. O som no talo, e aquele sol ALI, tá tá tá tá tá tá, zumbido infinito no meu ouvido. Um cheiro tenebroso do Fundão, um cenário miserável e perturbador, e o sol ali caindo como a bandeira do Japão, círculo vermelho, bola solitária pegando fogo.
Uns coqueiros pra acalmar o caos, o sol caindo e eu nem aí para o trânsito.
Eu sou uma bola solitária pegando fogo.
5 commentsDa arte de subir em telhados
Esses segundos antes da chuva. Essa TPM dos céus. Essa dança macabra das folhas. O vento dando um rasante na piscina e círculos pequenos procriando mais círculos, um dentro do outro. Esse cheiro que sobe do jardim e me deixa tonta com sete anos. Raízes e caules excitadas dançando silenciosamente, subindo pelas minhas pernas sem meias e picadas por pernilongos. Ainda não chove e percebo que amo a palavra “ainda”. Ainda não é outono, ainda não viajei para longe, ainda não vi um ser sair de dentro de mim, ainda não comprei carne sozinha, ainda não saltei de um avião, ainda não chove. Mas essa TPM do céu vai acabar. A gravidade é óbvia, e tudo desce. Água então. Como desce. Talvez arrisque olhar para cima e beber o que nos é dado. Talvez arrisque uns passos em poças, as onomatopéias que envolvem água me fascinam. Splash. Uma sereia em minha vida. Uns cantos que me levam, me hipnotizam. Hoje levei minha mãe nas Paineiras, ela não lembrava da queda d’água. Preciso tanto de água caindo, que apelei. A força daquilo na cabeça é para abrir um cérebro e retirar memórias ruins. E olha que não chove há tempos. A força nem estava tão assim. Ainda. Eu disse ainda. Grama molhada, céu menstruado. Tudo passou. Sorrimos como pinturas de Normal Rockwell. Guardas-chuvas absorventes impedem que eu me ensope. Hoje eu vou fazer uma prece pra Deus, nosso senhor, pra chuva molhar meu amor. Ainda não é outono, mas eu o celebro.
5 commentsÉ o carnaval voltando da serra
Acabando o carnaval, é isso aí!
Voltei da minha ótima viagem, desci a serra, caindo fora de Friburgo, daquele lugar de temperatura amena, ótima! À noite, no máximo a temperatura era 19° C. Uma maravilha! E olha que eu suava!
Já até senti saudades dessa temperatura, hoje mesmo. Ao voltar, primeiro passei pelo terminal rodoviário de Niterói, onde avistei um termômetro e constatei que realmente havia saído da serra e voltado para a metrópole.
O termômetro mostrava um absurdo número 44, às duas e poucas da tarde!

Grandes questões do Fashion Rio
O que leva as mulheres que estão acima do peso a colocarem uma calça quatro números menor com uma blusa curta que deixa ao léu a barriguita? Este é o figurino de metade das fêmeas cariocas.
A calça apertada a gente entende: dá uma definida nas curvas (mesmo nas que não existem), ressalta o popô, enfim: dá ao povo o que o povo gosta. Mas e a blusa que deixa exposta a barriga imensa, caindo pela cintura como um rocambole de torresmo? Qual a manha disso?
O certo não seria usar a calça apertada e uma blusa cobrindo o resto?
O esperto não seria guardar o segredo da cinturinha de foca para o escuro do quarto ao amante curioso?
O certo não seria a armadilha?
Fica a alfinetadinha de Ronaldo Ésper, amiga leitora: blusa curta em mulher fora de forma é que nem mágico entrando no palco com o rabo da pomba pra fora da cartola.
8 commentsFalta sol. Mas vai faltar água.
Meu irmão do meio, Bernardo, namora uma inglesa. From London. Lorraine chegou no Rio de Janeiro para passar dez dias de sol, praia e amor, semana passada. E tudo que Lorraine viu foi água caindo do céu. Minto. Um dia fez um mormaço, o que pra nós, cariocas, é sinônimo de nada, pra ela já foi uma maravilha. Lorraine observou o quanto nós, carioca, ficamos preguiçosos em dia de chuva.
- Let’s go to the movies?
- But it’s raining, baby…
Lorraine faz cara de espanto. E conta que em Londres é assim EVERY FUCKING DAY. Sinto calafrios deitada no sofá. Faz um frio estranho para novembro, e eu visualizo minha vida em Londres. Insana, insana, insana. Mas sem sol. Não dá. Não dá. Bernardo conta a história de uma amiga dele que casou com um inglês, e foi morar em Londres. A vida da amiga ia ótima: emprego maravilhoso, marido incrível e um filho fucking cute. Mas a amiga vivia numa certa depressão sem fim. E o psicólogo receitou aquilo que mudou sua vida: bronzeamento artificial. Sim. A amiga do meu irmão estava sentindo falta de luz, de sol, de claridade, amarela, vermelha, laranja. E acreditem ou não, a depressão passou.
Embora chova sem parara na cidade, vai faltar água a partir de quinta-feira. A CEDAE vai fazer uma manutenção na Estação de Tratamento de Água do rio Guandu. De acordo com a CEDAE, a manutenção da rede é feita como medida para evitar perdas principalmente no verão, quando os dias são mais quentes e o consumo de água aumenta significativamente.
“Cuidado ao comerem fora, queridos.” - Minha mãe alerta.
E vamos torcer pelo sol ainda em novembro.
Mesmo que em dezembro eu reclame do calor insuportável.
Todo carioca é bipolar, creio eu.
Out on the weekend
O centro do Rio de Janeiro visto de dentro da Confeitaria Colombo numa sexta-feira à noite é diferente. E, bom, eu tenho adorado escrever sobre o centro do Rio de Janeiro desde que vim trabalhar aqui. È um lugar que eu sempre gostei, pronde me levavam na infância. A minha geração não conhece o Centro, e sequer sabe se locomover por lá. Os 50 e 60 pra cima sabem porque as manifestações políticas aconteciam por lá, assim como o Carnaval. Mas a minha geração não conheceu isso, no máximo bate ponto no polígono dos museus e centros culturais que começa na Praça XV e acaba na Primeiro de Março, com extensões pro Centro Cultural da Caixa e o Centro Cultural dos Correios, no Largo da Carioca. Pois eu faço o centro do Rio de Janeiro num pé só e até com ele nas costas, conheço cada beco, é como se eu já tivesse sido camelô lá. Explico: quem me levava pra lá na infância era uma tia minha. Que me arrastava, na verdade, pra todos os pólos culturais escondidos no centro do Rio. Eu ia sem entender mas eu ia feliz da vida. A única coisa de errado que essa tia fez comigo além de me entupir de livros, era permitir que eu jogasse milho pros pombos na Cinelândia. Aqueles ratos voadores que voam do gótico à arte moderna com a mesma cara, largando bosta envenenada na gente, ou quando muito sabiamente naquelas estátuas. As estátuas da Cinelândia são muito feias, não sei quem colou aquilo lá. E aí a gente andava da Central até o Passeio Público parando em todos os lugares e fechávamos o dia no cinema, normalmente aos sábados, e com a minha prima menor a tiracolo reclamando que era longe e não tinha ninguém na rua.
Nunca dei pela falta de pessoas no centro do Rio aos sábados porque elas realmente não faziam a menor falta quando o que eu queria entender era porque o centro era mais cinza que o resto da cidade da toda, e porque lá tudo era mais bonito e mais rebuscado e mais mais mais. E aí começa crescer o monstro ouvindo causos de arquitetura e história e Europa e colonização e nuvô e decô e gótico rococó não sei que mais assim no meio da rua.
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Abre a porta, Teresa!!!
Neste fim de semana aconteceu a edição 2006 do Arte de Portas Abertas, em Santa Teresa.
Pra variar, um perfect day pra dar inveja em qualquer Lou Reed
NÃO PENSE duas vezes, caro leitor: vá de bonde!
Santa Teresa é passagem obrigatória pra quem vem ao Rio. Uma das regiões que mais temperam o imaginário da cidade, com seus sobrados de arquitetura antiga e o famoso bondinho, o bairro é marcado pela boemia e por um clima meio bicho-grilo, morou?, como se ainda estivéssemos nos anos 70.
Outra caracterísitica de Santa Teresa é o grande número de artistas que escolhem o bairro para morar. Eles estão por todo lado: são músicos, escritores, artistas plásticos ou tudo isso ao mesmo tempo, o que às vezes dá no saco, qualquer mesa de bar acaba virando palco pros mais exibidos, mas é impossível negar: Santa Teresa é um lugar bem divertido.
Há dez anos, num fim de semana do mês de julho, os ateliês do bairro (e eles são muitos) são abertos para a visitação do público, num evento chamado Arte de Portas Abertas. Estive lá no sábado com uns amigos e atesto com a humildade que me é devida: o programa continua imperdível.
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Salt America
Atenção, pilantragem. Tava me lembrando dum poema da Ledusha, poeta da década de 80, que eu adoro: “Felicidade”, de 1984. Aí peguei pra reler o que eu já quase guardo decorado e fiquei pensando numas referências que comecei a cruzar há uns meses atrás quando o li pela primeira vez. Diz assim:
Felicidade
Ledusha, 1984
Nada como namorar
um poeta marginal
incendiado
nada
como um mingau de maizena
empelotado
de tanto amor acumulado
uma casinha em Botafogo
um quarto uma eletrola
uma cartola
&
depois da praia sonhar
que a bossa nova voltou
pra ficar
eu você joão
girando na vitrola sem parar.
Esse poema é foda, na minha opinião. Aí Rio de Janeiro, poesia marginal, Chacal, Glauco Mattoso, Ledusha, Reinaldo Moraes, Tanto Faz, Bossa Nova. Lembrei do Tom Jobim e do João Gilberto. E do Johny Alf. Rs. E do Caetano, que é fã do cara. Do João. Pois bem, lembrei de uma música dele que tá não sei em que álbum, mas que a Gal gravou no disco de 68. Chama-se “Saudosismo” e é linda:
Saudosismo
Caetano Veloso, 1986
Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar tentamos inventar
Tentamos inventar tentamos
A felicidade a felicidade
A felicidade a felicidade
Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões
Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados
Ser
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade.
E aí caiu a ficha de que “Saudosismo” é, antes de qualquer coisa, uma chupação escancarada de “Fotografia”, do Tom. Perceba:
Fotografia
Antonio Carlos Jobim, 1959
Eu, você, nós dois
Aqui neste terraço à beira-mar
O sol já vai caindo
E o seu olhar
Parece acompanhar a cor do mar
Você tem que ir embora
A tarde cai
Em cores se desfaz
Escureceu
O sol caiu no mar
E a primeira luz lá embaixo se acendeu
Você e eu
Eu, você, nós dois
Sozinhos neste bar à meia-luz
E uma grande lua saiu do mar
Parece que este bar
Já vai fechar
E há sempre uma canção para contar
Aquela velha história de um desejo
Que todas as canções têm pra contar
E veio aquele beijo
Aquele beijo
Aquele beijo
Engraçado e não só, além da referência explícita, “Saudosismo” tem um caralhão de microreferências ao álbum “inaugural” da Bossa Nova, o “Chega de saudade”, de 58. Eu detectei três.
O Caetano é mesmo um doce vampiro:
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Supermã
Ontem fui ver “Superman - O Retorno” e não consegui evitar um pensamento óbvio: a nave do pequeno Kal-El caindo em Seropédica, ele descobrindo seus superpoderes em corridas alucinadas num terreno baldio, sua mudança para o Rio e seu ingresso no Dia, no caderno de poliça, o amor confuso por Gis Lane e seus esforços para evitar que Fernandinho Beira-Mar conquistasse o mundo.

Técnica: improviso sobre tela do PC
Rotisseria Sírio Libaneza, com Z

Enquanto israelenses, palestinos e libaneses se engalfinham pras bandas de lá, pras bandas de cá todos são “brimos” e muito bem-vindos na Rotisseria Sírio Libaneza, um clássico da comida árabe carioca. Com precinhos bem camaradas, o cardápio é farto e convidativo. A esfiha de carne é um primor, mas experimente as kaftas, o kibe crú e a pasta de grão de bico… A casa fica na Galeria Condor, no Largo do Machado. Ontem, fazendo hora antes de ir pra exposição LUZ ZUL de Regina Silveira, no Centro Cultural Telemar, passei ali e detonei três esfihas. Duas de carne e uma de queijo. Quem tava ali também era a Lan Lan, ex-percussionista da Cássia. Ela é aquela ali de costas, de blusa rosa. Caindo de boca numa esfiha.
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