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Carnaval: considere o ladrão na hora de bolar sua fantasia

Hoje cedo, a caminho do trabalho, vi um homem ser roubado ao meu lado na rua Sete de Setembro, quase na esquina com a Primeiro de Março. Tudo muito rápido, pra variar, graças àquela agilidade típica dos ladrões do Centro: o cara foi por trás e limpou o bolso DA CAMISA da vítima, que saiu correndo atrás do ladrão.

Também diria que sobra audácia a esses bandidos, mas não é o caso: é fácil ser ladrão no Centro do Rio. No episódio de hoje cedo, uma senhora que fica sentada pedindo dinheiro ali na Sete de Setembro, ao lado da Igreja do Carmo, comentou que aquele era o terceiro assalto que ela via somente na manhã de hoje.

A PM também ajuda: nem um minuto depois do roubo, encontramos um policial e contamos o que tinha acontecido. O soldado (outro clássico carioca: gordo, antipático e cheio de disposição) saiu andando atrás do ladrão. Replay: ele saiu ANDANDO atrás do ladrão.

O fato é que nessa época entre o fim de ano e o carnaval - com a cidade cheia de turistas, e os bandidos precisando levantar recursos para financiar outros crimes e o tráfico de drogas, cujo consumo aumenta nessa época - as ratazanas fazem a festa. Além desse assalto de hoje, ontem à tarde eu vi outro, na avenida Rio Branco, saindo do trabalho, e tenho ouvido várias histórias de gente sendo roubada nos blocos de carnaval.

Falando nisso, se você vai passar o carnaval no Rio, lembre-se que a sua fantasia deve considerar a possibilidade de você ter sua carteira e seu celular roubados. Eu mesmo vou sair de casa levando apenas:

1. Xerox plastificada da identidade
2. Cartão do plano de saúde
3. Uma quantidade certa de dinheiro, sem cartões do banco ou afins
4. Celular

Tudo devidamente acondicionado num saco plástico, pra que eu possa cair no mar, na poça, no samba e resistir a temporais de verão e carros-pipa.

É óbvio que ter esse kit de sobrevivência roubado também vai me deixar puto, mas pra curtir a folia no Rio, amigo… sinceramente: a gente tem que avaliar a situação pela Escala dos Males, o Menor.

Outra alternativa para garantir sua segurança é sair fantasiado de ladrão, mas aí você corre o risco de ser eleito e ter que morar em Brasília, longe da praia, do samba e dos assaltos cariocas, os mais bonitos do mundo, não é verdade?

O Havaí é aqui.

Mais do que carioca, o Rio tem é Havaianas. Só eu tenho três. Elas estão em todos os lugares, nos pés dos que fazem essa cidade ou estão só de passagem. Não importa se é praia ou boate, inverno ou verão, nem o ambiente de trabalho escapa. Para uns, desleixo. Para outros, condição. Para todos, o símbolo de um estado de espírito mais carioca impossível: descontração. E também democracia. Unhas feitas ou feias, pés de seda ou calejados, calcanhares com sobrenome ou não, todos desfilam com ela. Se a história de Cinderela tivesse sido ambientada no Rio, provavelmente ao invés do sapatinho, o príncipe carregaria uma sandália de tirinhas de borracha para procurar a amada. É, meus amigos, com todo o respeito ao Corcovado, mas para quem vive no Rio, mais onipresente do que o Cristo, é a Havaianas.

Ensaio técnico da Sapucaí — eu fui, mas cadê a polícia????

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Conforme noticiou hoje a coluna do Ancelmo Gois, no O Globo, o ensaio técnico da Mangueira e da Beija-Flor levou 60 mil ontem à noite para sambar e torcer na Sapucaí. Eu estava lá, no meio da muvuca verde e rosa na arquibancada do setor 11, cantarolando um samba e aquecendo os quadris para a folia. O Ancelmo noticiou que faltou ambulância, mas eu noticio aqui que faltou polícia também! Felizmente não vi confusão alguma, mas será que as autoridades não se deram conta que grandes multidões + carnaval + cerveja são ingredientes para uma possível combustão espontânea? ACORDA, CABRAL!

Um trem chamado samba e a viagem que continua

Em teoria, no último sábado 02 de dezembro o Rio de Janeiro entrou num trem da Central do Brasil pra comemorar o Dia Nacional do Samba. Só na teoria. Na prática, o Rio de Janeiro entrou no trem pra pandeirear os pandemônios nossos de cada dia, levando o desgracê lá longe e deixando as energias boas da cuicagem telecutearem com o tamborim incendiário que amolece os quadris. E longe é láááá nos cafundós pra quem praticamente só conhece o rio pra turista (pros que tem a pouca vergonha de não conhecer o resto desta cidade de tantas cidades). Longe é Oswaldo Cruz, parada final do trem do samba e ponto de chegada da farra que enche a alma de música, alegria, mocotó e reflexões que se prolongam vida adentro.

Numa ensolarada tarde de sábado partiu a cigana da caatinga em direção à Central do Brasil, trocando um quilo de feijão por um bilhete de ida para uma estação que ela jamais havia ouvido falar. No vagão de janelas emperradas, ela era mais uma sardinha enlatada entre a) um sovaco cabeludo cujo dono encontrou no teto do trem seu balacobaco e b) umas senhoras animadíssimas entoando todas as batidas com seus bundões de 2km². Espremida, a cigana ainda conseguiu sambarolar uns “vai vadiáááááá, vai vadiáááááá, vai vadiáááááá, vai vadiááááááá”, mas tava na cara que ela era turista da zona sul que só samba na Lapa e acha que isto já lhe dá autoridade para dizer que entende de samba (entre uma das grandes descobertas da noite, ela descobriu que é ainda mais ingnorante do que imaginava).

Meia hora de aperto, sovacada na cara, fedor de coisa queimando além dos trilhos e sorrisos imperando na cara e o trem pára na estação final. A mulherada desce em polvorosa: são litros e litros de urina acumulados em centenas de bexigas explodindo de cerveja, tentando se aliviar ainda ali nos trilhos do trem, alívio este interrompido por um segurança que pede pra que pelamordedeus não façam isto com ele. E elas riem e imploram, afinal mijar na rua não deve ser privilégio apenas de macho, que não precisa pedir licença. Os direitos iguais devem sem garantidos até mesmo na sem-vergonhice.

Oswaldo Cruz é subúrbio. Suburbão. Daqueles que grande parte da zona sul nunca ouviu falar, não sabe apontar no mapa, nem tem o menor interesse em conhecer. Daqueles que no folheto da programação ainda precisa se explicar para o povo da zona sul que lá em O.C. o povo da zona sul não precisa se preocupar não, pois se o povo da zona sul tiver bolsa pra guardar, a dona da casa vai levá-las para um quartinho bem seguro e ainda oferecer água pra matar a sede do povo da zona sul. Tava lá escrito na programação, não foi invenção da cigana.

Lá por trás do canal fedorento, tão podre quanto o do Leblon (pelo menos no Rio de Janeiro o fedor é igual para todos), depois de ser espremida pra passar entre a multidão e barracas de salsichões apetitosos para estômagos famintos e mulheres carentes, a cigana e sua trupe fincaram acampamento na roda de samba de uma casa de quintal grande, galinheiro enfeitado com bolas natalinas e um banheiro externo em forma de casinha. A casa, aberta a qualquer fã de samba ou aventureiro que por ali quisesse aportar, pertencia a uma senhorinha de 93 anos, fã de Zeca Pagodinho e avó da genuinamente simpática senhora de bermuda de lurex coladérrima no corpo (de pelo menos uns 20 kg acima do padrão Posto 9 Coqueirão de ser). Essa mesma senhora fritava hambúrguer e calabresa acebolada bem ao lado da mesa onde o grupo da cigana regava o bucho com cerveja, afinal cabelo que se preze tem mais é que ser defumado. Essa mesma senhora que, agradável surpresa, engatou num francês trés bien, merci beaucoup, ao descobrir que entre os amigos da mesa havia uma francesa original. E fez até crepe especial, hours menu, para aquele grupo de visitantes que, entre dois cariocas, incluía um grupo de estrangeiros: uma francesa, um chileno e três pernambucanas. Crepe maravilhosamente degustado, acompanhado de caldo de mocotó e angu a baiana, exatamente como manda o Celidônio. A cigana lambia os beiços e pedia mais.

O final da noite no quintal aconteceu embaixo de uma frondosa mangueira, com todos pagodeando na roda que tinha puxada pra entoar até o sol raiar, mas a trupe já havia descoberto e experimentado o encantador mundo de O.C, lá onde a senhora de lurex e seu companheiro convidam os recém amigos a dormir nas suas casas caso estejam cansados pra voltar (”as mulheres na minha casa e os homens na casa dele”). Olhem só, quem sabe até um case pra entrar no panfleto da programação do ano que vem. Mas bom mesmo seria se o subúrbio não tivesse que dar satisfações.

O epílogo desta jornada ainda está em andamento na vida da cigana, após algumas reflexões extremamente lugar-comum mas de fato tão pouco pensadas: 1) que do outro lado do Rebouças o Rio de Janeiro é negro. Preto, mulato, negão, negona, tição. Lindo. 2) Que na verdade, como bem colocou uma das cariocas da trupe, é ela quem mora num gueto chamado zona sul.

E ainda bem que existe o samba pra unir vários lados de uma mesma cidade.

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Pra botar na carteira, no espelho do banheiro, aos pés do santinho

Sentir-se gringo em sua própria cidade não vale, né, mãe?

Se você é o tipo de carioca mané que não sabe que igreja é aquela e quem é o carinha que virou estauta, continua lendo:

Acaba de ser lançada a coleção de postais O Rio que o carioca não vê, que pretende fazer isso aí mesmo: mostrar ao morador do Rio as maravilhas da arquitetura e da história da cidade que ele mal sabe que existem. A primeira fornada traz belezuras como os relógio da Central do Brasil e do Largo da Carioca, a Igreja do Carmo (que por acaso está ficando linda com a reforma), a Escadaria do Convento de Santa Teresa (aquela dos azulejos, na Lapa) e a Ladeira da Misericórida, entre outros.

Como todo postal que se preze, no verso das fotos rola um textinho explicativo sobre o ponto fotografado.

A sugestão da Auge é que os postais sejam distribuídos gratuitamente pelas empresas, como material promocional.

Um projeto bem legal - e que certamente também vai interessar os turistas, porque nem só de bunda e Copacabana vivem os postais do Balneário Bossa Nova!

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Super Night Shot!

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Teatro filmado nas ruas? Cinema dentro do teatro? Performance? Improviso? “Super Night Shot” é tudo isso ao mesmo tempo. Quatro atores saem pelas ruas do Centro exatamente uma hora antes do início do espetáculo. Cada um carrega uma câmera de vídeo permanentemente ligada. A peça, portanto, é encenada antes, de improviso, pelas ruas da cidade. E é exibida em seguida, no teatro, colocando na tela, simultaneamente, o que foi filmado pelas quatro câmeras. Para a platéia, o espetáculo começa com a recepção aos atores, que naquele instante estão chegando das ruas, concluindo suas atuações registradas por eles próprios.
As quatro fitas são exibidas sem cortes, logo em seguida à entrada dos atores na sala do teatro. O áudio é editado em tempo real por um DJ, que vai selecionando o que destacar a cada momento.
O tema discutido na peça é o anonimato nas grandes cidades. Os atores interagem o tempo inteiro com transeuntes e tentam convencê-los a entrar no jogo, a participar daquele filme. Há cenas hilárias, não só promovidas pelo improviso dos atores, mas também, e talvez principalmente, pela reação de alguns dos não-atores.
“Super Night Shot” foi concebido por um grupo de atores alemães e ingleses intitulado Gob Squad. No Brasil, foram escolhidos artistas cariocas e paulistas para a realização. O espetáculo é uma das atrações internacionais do festival Riocenacontemporânea. Fui na apresentação de ontem à noite e fiquei positivamente impressionado. Haverá apenas outras duas sessões, hoje e amanhã, às 20h, no Teatro Nelson Rodrigues (Avenida Chile, 230). Preço: R$ 20 (inteira).

Ensinando peixe a nadar

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Você não é carioca, mas gostaria de ser? Acha que é carioca, mas tá na dúvida? Tem mêdo de não ser suficiente ou adequadamente carioca? Na moral, seus problemas acabaram. Agora na Casa do Saber você vai encontrar tudo o que você sempre quis saber sobre cariocas mas tinha medo de perguntar. A Casa do Saber fica na Avenida Epitácio Pessoa, 1164, entre a Garcia e a Maria Quitéria, na Lagoa. O centro, que também atua em São Paulo, tem formato extra-acadêmico e oferece cursos livres, oficinas e palestras, de filosofia à arte contemporânea. O de carioquice pra cariocas - “Ser carioca” - é ministrado pelo Antonio Edmilson Rodrigues, que é coordenador do programa de pós-graduação em História Social da Cultura, da PUC. Como dizia o Bezerra: malandro é malandro, mané é mané.

Qual foi a maior maldade que você já fez com a sua avó?

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Responda a essa pergunta e concorra a um Chevrolet Opala, ano 76, quatro portas, com capota de vinil branca. Para participar basta acessar o site do Cinemark ou clicar aqui e responder a pergunta acima. Esse concurso faz parte da campanha de lançamento do filme “Muito gelo e dois dedos d`água” que estréia agora, dia 6 de outubro na rede Cinemark. O carrão é o Opala original do filme. “Muito gelo”, que é do Daniel Filho e traz as tchutchucas Mariana Ximenes e Paloma Duarte, pode não ser lá nenhuma obra prima da sétima arte mas um opalão 76, bordeaux, com capota de vinil branco, ah moleque! É ou não é do balacobaco?

A inestimável contribuição carioca à gastronomia mundial.

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Os cariocas são um povo criativo — mas que fala alto, é preguiçoso, vagabundo, inculto e tem mau-gosto musical, gastronômico e vestuário, segundo alguns — e o fato é que criaram, há algum tempo atrás, a seguinte receita de sanduíche: duas fatias de pão, uma série de produtos que variam — ervilha, queijo parmesão, ovo de codorna, farofa, carne assada, sardinha, molho à campanha, etc — e ao menos uma fatia de queijo (cheese). De acordo com a composição do sanduíche chamavam-no de cheese-alguma coisa. Ou seja, uma salada de ovo com queijo batisaria o sanduba como cheese-salada-de-ovo.

A evolução deste conceito linguístico-culinário atingiu seu paroxismo com o advento do sanduíche-coringa, o sanduíche multi-funcional, aquele que além do queijo traria todos (?!) os componentes presentes na barraquinha do ambulante. Este sanduba ganhou a alcunha de cheese-tudo.

Comer um cheese-tudo não é para iniciados. Ele exige estômago, desapego à razão, perícia motora e sobretudo muita coragem. Os mais famosos cheese-tudos do Rio estão nas imediações do Estádio do Maracanã em dias de jogos, ou nas proximidades da Rodoviária Novo Rio. Entretanto este blog não aconselha aos incautos a assistir a um jogo de futebol e menos ainda, a viajar de ônibus — sobretudo se você for pra Bahia — depois de comer um cheese-tudo.

Curiosamente, como em português a letra X — de xenófobo — tem pronúncia próxima a de cheese em inglês, nossos gourmets de rua abreviaram e simplicaram o nome desses sanduiches, passando a ser reconhecidos por X-tudo. Isto agilizaria a escrita e a leitura dos cartazes e dos pedidos. Apesar da referência inglesa (cheese) esta denominação dos produtos não faz parte dos cardápios das redes globais de lanchonetes e nem das fast-foods chiques. Talvez por simples preconceito ou talvez pelo fato de que, em contra-partida, a leitura inglesa de X (Écs) refere-se a alguma coisa que já foi, mas não é mais, o que poderia levar a algum consumidor gringo ou gringolizado a pensar que os ingredientes do sanduiche são do mês passado.

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