Archive for the ‘Lugares’ Category

Divagações sobre dor, prazer, céu, inferno e telhado de cristal na Floresta da Tijuca

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A dor é extremamente relativa. Isto não é novidade alguma, com bem já sabem os sadomasôs e os penitentes. Ontem levei um porradão da natureza e hoje sofro com prazer. Músculos moídos, a pele do calcanhar direito arrebentada, pernas e braços picados por pequenos insetos draculeanos, mas a sensação de alma lavada e absolvição das agruras auto-impostas, do grande pecado de ter dedicado o último ano quase que inteiramente ao trabalho e estudos e pouco ao lazer.

Minha sessão de chicote e couro foi uma caminhada de 5 horas pela Floresta da Tijuca, mais precisamente no Morro do Queimado, ou Pico dos Cristais, nome poeticamente dado pelo guia gente boa da aventura, inconformado com a total falta de atratividade do nome original. A escolha do nome não foi à toa: segundo ele, é o único morro da região com solo de formação de cristal.

O telhado do Rio não é de vidro, é de cristal. Como os sapatinhos encantados das fábulas. Como a taça daquele vinho que tomei um dia e que quebrou num momento em que minhas mãos estavam mais ansiosas que o normal. O telhado do Rio não poderia ser igual ao telhado da minha casa, de cimento e cocô de pombo. O telhado do Rio se esconde entre arbustos e árvores e exibe o Rio de Janeiro dos cartões postais, dos contornos e curvas belas e imponentes, do Pão de Açúcar, Lagoa e Corcovado.

E, por ser de cristal, o telhado do Rio é frágil e se estilhaça em mil pedaços na bala que come solta no morro e no asfalto, nas marquises de mendigos da Presidente Vargas, na gurizada pedinte dos sinais, no tapa no pé do ouvido que levei do cara que tentou roubar meu celular, da senhora que não quis comida, mas um cobertor para aquecer o bebê dela num agosto nórdico na Visconde de Pirajá. Ali, do alto, lembro que moro na esquina do céu com o inferno.

Lá no meu purgatório de cristal eu não tinha medo de alguma cobra ou aranha que pudesse pular à minha frente. O meu inferno mental particular daquele momento era menos glamuroso: temia aparecer alguém com um facão de cortar jaca e bucho de turista. Jason tropical felizmente não apareceu, então ao final da trilha brindei com água gelada da bica safada e gostosa a uns 400 metros da Mesa do Imperador e fiz voyerismo com um tucaninho colorido que apareceu pra lembrar que o paraíso mora ao lado da mesma selva de pedra onde transito diariamente.

Itapuã

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Depois de uns 10 dias, faz sol no Rio desde ontem (não um “solzinho”: sol de verdade). Fontes que estiveram em Ipanema agora há pouco me garantem que o mar está um Caribe só, como não se via há muito tempo.

De modos operandis que não vai fazer muito sentido eu ficar aqui defendendo os dias de chuva, dizendo que eles têm sua beleza e seu valor tanto quanto os de sol, e que só não vê quem não quer, porque sempre que eu afirmo isso ficam dizendo que eu sou maluco, espírito de porco, gringo.

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Essas fotos aqui foram tiradas na última terça-feira no Parque Lage. Estive lá depois no fim da tarde para ver os últimos suspiros de uma exposição da qual participou um amigo meu, o designer e pintor Armando Santos, que me acompanhou na visita (foi mal pelo serviço de inutilidade pública, mas a exposição acabou ontem).

Chovia, chovia pacas, e aí a gente teve que esperar a água amansar para ir embora. Esperamos. Escarrapachados entre capuccinos, cervejas e papos sem pé nem cabeça nas mesas da varanda em volta da piscina.

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Uma espécie de tarde em Itapuã. No reverse.

Homelessing around the world

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Já que tá tudo andando direitinho e já que é pra deixar o homem trabalhar, vamos mudar de assunto e cuidar do quintal da nossa casa. O artista japonês Kyohei Sakaguchi está apresentando em Vancouver, no Canadá, uma exposição em que apresenta o cuidado que moradores de rua, em Tokio, têm com seus quintais e suas casas. São fotografias realizadas ao longo de anos que têm em foco abrigos construídos por sem-tetos na cidade. Ele faz registros destas “moradias”, temporárias ou semi-temporárias, construídas com matérias primas garimpadas na rua e localizadas em logradouros públicos. Ele chamou a exibição de “zero yen houses”. Apesar do fato de que alguns destes abrigos de rua possuem energia solar, eletricidade, fogão, televisão e até computadores, todos foram feitos com custo zero.

É interessante perceber as diversas variantes locais, de acordo com a origem e a cultura do sem-teto. Nas fotos ao lado vemos, acima, o barraco japonês (foto do artista) que conta com todo o aparato tecnológico possível. Logo abaixo vemos (foto do Sirkis) um pragmático homeless norte-americano, com sua barraca de camping desmontável e sua scooter amarela ao lado. Muitos destes moradores de rua norte-americanos são o sub-produto da guerra: ex-combatentes que não conseguiram voltar à engrenagem. A fotografia abaixo (foto de Fernanda Levy) mostra um morador de rua francês, com sua bergere às margens do rio Sena, em Paris, decorado com pedaços de bambu e outros detalhes românticos.

Qual seriam as características arquitetônicas das moradias dos nossos sem-teto aqui no Rio? Teriam grades de ferro recicladas protegendo suas lonas? Janelas feitas de pedaços de vidro com Insulfilm? Quais seriam?

Farol fora d´água

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Igreja da Penha fotografada por Custódio Coimbra. Ao fundo, o Morro do Alemão

Quando chego ao Rio pela Linha Vermelha (que também é rota de todos aqueles que baixam na cidade pelo Aeroporto Internacional Tom Jobim), uma das imagens que mais me comovem é a da Igreja de Nossa Senhora da Penha surgindo no horizonte, ali, à direita do carro

Construída há 135 anos no alto de um penhasco de 70 metros, a igreja se destaca no meio da paisagem amarelada e cinzenta da Zona Norte (aliás, hoje em dia a faixa amarelada de poluição se estende por toda a cidade, note – e chore – quando estiver na Linha Vermelha). Quando era criança e via a Igreja da Penha assim de longe, no fim da tarde, quando ela vira uma silhueta incendiada pelo sol, achava que ela era meio mágica. Um lugar que existia, mas não existia, na minha cabeça de moleque. Ficava com um pé no medo e outro no fascínio.

Tá, cresci, mas a verdade é que sinto a mesma coisa até hoje. Eu às vezes penso na Penha, assim, do nada. Penso nela à noite, quando me deito, e a imagino como um vigia quieto na madrugada, um farol de olhos, mais que de luz, que sabe de tudo o que acontece aos seus pés.

Penso assim na Penha e passo a enxergar através dela, o carro solitário do pai de família numa rua vazia da Zona Norte, ele chegando tarde do trabalho e cronometrando com a mulher a operação de abrir-rápido-o-portão, com medo de ladrão, o beijo rápido no bigode, o prato esquentando no microondas enquanto ele tira o sapato e se esparrama pra ver o “Jornal da Globo”.

Penso em homens jogando sinuca num boteco em Ramos, e um deles se afastando da mesa pra secar a lágrima de uma lembrança empurrada pra fora do peito com a música do Gonzaguinha que vai tocando no rádio. Num velho subindo na laje de bermuda e sandália Itapuã, com uma lanterna, pra consertar o ladrão da caixa d’água que não pára de vazar. Penso no barquinho cheio de cocaína que avança apagado na escuridão da Baía de Guanabara em direção ao Morro do Dendê, e sei que a Igreja da Penha vê tudo isso, viu tudo isso nascer, crescer, quando só era um plano de Deus, e que também nos verá morrer e verá morrer tudo isso, porque a Igreja da Penha está e não está no tempo.

CARIOCAS PAGAM PROMESSA. JÁ A LETÍCIA…

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Com quase 400 degraus, as escadarias da Penha são muito usadas por fiéis para pagar promessas, às vezes subindo de joelhos, como nos mostra essa foto aí em cima, do Claudio Lara. Porque carioca gosta de pagar promessa, sabe? Ao contrário da Letícia, que há uma semana lançou uma promoção aqui no blog e deu o calote em geral.

Da série “Pôr-do-sol sob Duralex”

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Da janela na quina do Méier, uma vista sobre Todos os Santos e Engenho de Dentro. A linha do trem corre pelo lado esquerdo, em direção à linha do horizonte.

Abaixo do clarão do sol, fica a obra do Engenhão, o Estádio Olímpico de nosso Adolf, que mostrará ao mundo a superioridade da raça carioca.

Alguém votou no Redemeer?

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Eu segui a dica do post do Nuno e votei no Christ Redemeer. Mas acho que ele não leva as Sete Novas Maravilhas. Poderiam colocar lá também a Rodrigo De Freitas Lagoon e o Catacumba Park, ou, talvez a Hippie Fair, ou quem sabe ainda o Botanic Garden, o Lage Park e o Gávea Horse Track. Mas, na boa, quem levava as Sete, molin, era o Sugar Loaf Mountain.

Em português aqui

Paisagem

Abre retângulo preto. Agora dois retângulos brancos. Linha preta se move em diagonal. Duas à frente com trinta ou quarenta de blusas brancas e óculos escuros no alto amarelo fake. Uma outra à direita, um quarto do volume delas, cabelo amarelo cádmio, tecido comprido laca, aponta linha reta para moça bi-dimensional de longas tranças vermelhas e vestido comprido azul cobalto, braços e pernas em simetria, abertos, palmas das mãos, abertas. Fundo verde escuro com frutos ruivos. Um de quarenta, avental preto, tem um braço baixo e outro alto, em arco, com objeto invisível rente à face. Outra à borda do retângulo verde central que foge, à frente, fala no volume prata, pernas à esquerda, tronco paralelo ao plano do fundo com buraco irregular verde. Calça preta, cabelos e bigodes brancos fala da moça de vestido azul para moça de vestido laca. Diversos padrões, brancos, pretos, vermelhos e azuis, fazem elipse em torno de retângulo suspenso, paralelo ao piso. Nove ou dez pequenos negros de marte desenham curvas no grande cinza ao alto. Seis formas quase esféricas, verdes, surgem à direita, atrás e acima da grande massa cor de areia, que escapa. Simetria de arcos. Linhas horizontais e verticais, à direita e à esquerda, caminham e apontam para um lugar adiante. Temperatura azul. Frenesi súbito de volumes em diversos tons da direita para a esquerda e vice-versa. Branco com bengala preta, avança para a direita. Totalmente à direita, azul com walk-talk escuro, som vermelho. Três outros quase iguais, um azul, dois ex-azuis, à frente. Mais um cabelo branco. Equidistância de cores diversas sobre cavaletes brancos definem o grande volume ortogonal de ar. Garçom preto e branco com pequenos cilindros pretos e bolhas brancas. Presença marcante de trapésio verde líquido. Perna horizontal azul e tênis sobre assento verde, Heineken. Quadrado frio número onze, cinza. Duas retas verdes passam gritando no grande recorte cinza ao alto. Azul busca algo com longa diagonal fazendo ondas no verde e no sépia líquidos. Cheiro de grão de milho estourado, branco. Três verticais pequenas à frente: preta, carmim e cinza. Preta traz no colo uma ainda menor diagonal branca que chora. Volume branco arredondado desce em direção à volume cúbico verde fixo e conversa com mancha escura, à direita. Calça azul abaixa e revela calcinha, branca. Luz predominante acima e à direita e sombras borradas à esquerda. Atrás, marrom escuro e negro carrega retângulo branco, da esquerda para direita. Um céu de plástico em preto e branco à esquerda, por terminar. Björk em blues à direita. Curvas cinzas, claras, sobem irregulares do pequeno traço branco e desmancham grande massa, ainda sépia, à frente. Dor de cabeça amarela. Saturação. Fecha, retângulo preto.

EAV – Parque Lage – Jardim Botânico

If we´re still here, that´s because it´s a nice city afterall

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There are three major good sides about living in Rio, and today I´m gonna talk about the first one: being close to nature. Rio de Janeiro is a city between the sea and the mountains, and I really mean it, cause in most cases there´s less than 2Km between beaches and its nearest mountain (in some cases moutains are coaster, breaking trought the water). Most of Rio´s regions have grown in valleys, such as, for example, the block where I live (Botafogo), between a 7km lenght moutain that begins in Sugar Loaf and ends at the Rodrigo de Freita´s lake; and at the other side part of the complex mountain chain of Tijuca Florest, the biggest urban green area in the world, with more than 120 square kilometers.

When you live in Rio you have in the day by day like some leisure options that are just utopic dreams for other metropolis people. Beyond Rio´s famous beaches, carioca people can enjoy light walks or even trekking journeys at the forest (sometimes little parks, sometimes big protection areas with wild vegetation), and dreamy escapes like waterfalls at just 30 min walking from high traffic avenues.

And even if you want big deal, at just 50 min by car from Rio´s downtown you´ll find one of the entrance gates of the Serra dos Orgãos National Park, a huge wild atlantic forest paradise, with lakes, wild animals and a bunch of little and medium waterfalls. Enjoy the pictures and next time will talk about the second good side about living here…

360º Panoramic View

cristo.jpgThe view from the statue of Christ above the city of Rio de Janeiro is world famous. The 710 meter mountain of Corcovado is crowned by the statue of Christ the Redeemer, which is 30 meters high and has a 8 meter pedestal with a chapel in honor of the Lady of Aparecida, patron Saint of Brazil.

P.S.: Try to spot the plane! This kind of game is becoming very popular in Brazil these days.

Silvia 20 horas Domingo

Chove-se e frita-se agora no subúrbio. O sol salienta, um cheiro forte de areia chuviscada agrava o abafamento que sinto com o calor, e a água que estala a telha que nem pedra desce pelo cano da calha pra inundar os peixes na vala do quintal. Pintou um arco-íris de fora a fora, troço que eu nunca vi mais rente sair do calcanhar do morro e morrer nas costas das casas desse lado da rua. Parece pintura daquelas que minha avó comprava na feira, que quando não era de natureza morta de fruta em cima da mesa, era barquinho ou paisagem com arco-íris. Sempre desgostei, ousadia eram quadros espelhados com risco de cisne e lago e purpurina vendidos pelos nordestinos de porta em porta. Preço barato, mas o esquema de pagamento era sempre carnê, carnê, carnê, mania de previdência desses nordestinos. Minha avó, desconfiada, jogava o olho de lado com medo de tomar uma volta. Mas foi assim a vida inteira para compor a decoração da casa, desde os quadros até cortinas bordadas a mão, panelas e brinquedos artesanais.

Hoje é domingo, muito primo e muita tia da cozinha pra sala, uma gente que chega de mais longe pro almoço querendo saber quem vai casar, quem comeu a mulher de quem, quem presta concurso pro governo, quem subiu na vida, quem engravidou, quem adoeceu, quem tá preso. Aparecem com desculpa de visita e se deixar ficam até segunda-feira. Trazem bolos embrulhados num bololô de saco com pano de prato, uns remédios milagrosos socados dentro de garrafa de cerveja e lembrancinhas como caixinhas de música, estojo de maquiagem e badulaques de plástico colorido podendo eu ter a idade que tiver. Uma criatividade aliada à falta de noção de quem nunca conseguiu agradar. Só bola fora. E conta causo aqui, mostra foto ali, “Esse aqui é o filho de não sei quem”, “Mas como tá grande!”. Depois do almoço o comboio se esparrama pela copa pra “esticá os ósso” e preenchem a tarde de frases como “Mas como o tempo passa, né?”, “Estamos ficando velhos”, “Essas crianças tomaram chá de bambu? Uns mininão forte, esticado”. No final do dia, todo mundo se levanta pra tomar o café da tarde e seguir o caminho da roça. Claro que alguém sempre “Desculpa por essa visita de médico, a gente volta com mais calma no domingo que vem”. Domingo que vem de novo não, sai, suplício, filhos da peste, se percam no caminho.
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