Archive for the ‘Na rua’ Category

Me choca

Fico bem impressionada quando entro no Túnel Rebouças e leio:

Carros enguiçados em maio:
987

NOVECENTOS E OITENTA E SETE.

Tem noção?

Permanecer calado é cooperar com o opressor

Ivan Cardoso disse: “Incorpore a revolta”

O revoltado da semana que não agüentou ficar calado e foi lá e FEZ ALGO é o motorista de táxi Ercílio Felisberto. Ercílio presenciou, na madruga de domingo, o atropelamento da jovem Carolina Zaczac. Ela saía daquela boate Baronetti (onde, cá entre nós, está sempre associada a coisa ruim, puta que pariu), e ia seguir a pé para a casa da amiga onde iria dormir, quando o carro de Luiz Eduardo Zacharias Leitão Carvalho entrou com alta velocidade na rua Maria Quitéria. O imbecil-fora-desse-mundo, fugiu. E aí então, nosso “herói” da semana, o taxista Ercílio Felisberto, iniciou uma perseguição que só foi acabar no prédio do idiota, na rua Rainha Elizabeth. Carolina está internada na CTI, ela teve os 2 pulmões perfurados, um corte profundo na perna e fraturas múltiplas no rosto. O pai do motorista fugitivo foi ao hospital e disse que o filho estava muito transtornado e que iria se entregar. Graças ao motorista do táxi, ele será “obrigado” a se entregar, se não seria apenas mais um ser humano com a cabeça fudida e tomando remédios para dormir. Lamentável. Me questiono como conseguiu atropelar e ir embora. Assim, simples assim. Um forte abraço para o Ercílio, que a guria se recupere e que abril acabe. O mais cruel dos meses.

Mais um nada original desabafo sobre flanelinhas

O assunto é tão revoltante quanto não é original: o “ofício” de flanelinha, ou melhor, a bandalha praticamente institucionalizada, deveria ser banido da face da Terra. Um dia alguém simplesmente se apropria de um espaço público e começa a faturar. Seja no Rio de Janeiro ou em Orocó, o nome disto é extorsão.

Segundo a Wikepedia, “flanelinha é o apelido dado a uma figura popular muito comum nos grandes centros urbanos do Brasil. É um trabalhador da economia informal que ganha dinheiro cuidando dos carros estacionados em vias públicas. Esse dinheiro pode ser conseguido mediante consentimento do motorista ou por coerção.”

Não tenho carro. Quando decidi morar no Rio de Janeiro, coloquei os custos de compra e manutenção de um veículo na ponta do lápis e vi que não valia a pena para o bolso. Nesta cidade até dá para se virar bem de metrô, busão e táxi. Carro faz falta sim, sobretudo nos finais de semana, mas não é razão pra ser infeliz se não se tem um.

Hoje, excepcionalmente, peguei uma carona voltando do centro. O carro da minha amiga estava estacionado na Rua São Bento, sob os cuidados de um “trabalhador da economia informal”. O meu pavor foi ativado na hora. Sei de gente que paga até R$ 130 por mês para flanelinha tomar conta do carro. Óbvio, sem seguro nenhum incluído e sem ter a menor idéia pra onde eles vão levar seu carro quando você entrega a chave na mão deles. E alguns motoristas ainda se sentem na vantagem: “cara, se fosse estacionamento, estaria pagando uns R$ 250”.

Confesso: quando aplicável (quando estou dirigindo no Rio ou em outro estado), acabo pagando também. Mas quero saber quem é que de fato consente por livre e espontânea vontade quando dá dinheiro na mão de flanelinha – a não ser os do Rio Rotativo. Não tem aquele que não se sinta coagido. Sim, acredito que existe flanelinha gente boa, que realmente só está ali por representar todas as mazelas da nossa injusta sociedade, etc. Mas deixe de dar dinheiro e passe as próximas horas tentando desvendar o futuro próximo: “será que vão riscar com chave do lado direito ou esquerdo? Será que vão me poupar algum pneu?”

Não vou me estender sobre o papel do estado, que já tomou medidas para regulamentar a “profissão”, mas que como tantas coisas neste país, ficam empacadas. Mesmo se fosse totalmente regulamentada, me soa extremamente estranho ter que pagar para estacionar em qualquer lugar. Já não bastam o IPVA e todos os impostos embutidos em tudo o que consumimos. Daqui a pouco teremos que pagar para ir à praia: “aê, R$2 pra pegar sol e R$ 3 pra dar um mergulho”.

No fim das contas, todo mundo acaba sendo mesmo camarada, tratando muito bem o flanelinha quando no fundo o que se quer dizer é “amanhã tou de volta pra te dar dinheiro, pra você continuar praticando mais um crime urbano com o qual eu tenho que conviver diariamente e com o qual eu, infelizmente, acabo sendo conivente porque não tenho muita escolha”.

Pequena fábula de um sapato em fuga

Era um par de sapatos negros estilo boneca anos 40 esperando a próxima rota de fuga. Belos, conseguiam reluzir um verniz infinito em meio à escuridão do brechó ao ar livre onde foram encontrados pela penúltima vez. Eu havia descido na parada errada do metrô: em vez do Catete, a Glória. Ascendi da escada subterrânea para a escuridão das 20h. Prostitutas faziam ponto já na saída. Mendigos, estudantes, senhorinhas de mãos dadas e popozudas com roupa de academia circulavam de um lado para outro das ruas. Eu sentia um certo medo, um desconforto de estar numa região sem intenção certa do que se quer ser: se parada de miseráveis, se bairro familiar.

As calçadas apinhadas de quiquilharias formavam uma colcha de retalhos de objetos que um dia já significaram algo, ou que não significaram nada, para alguém. Tentava identificá-los no chão, mas era difícil à meia luz dos postes. Percebia sombras de telefones antigos, vinis, roupas em varais, carcaças de louças, talheres, dedais, gravadores. Eram objetos velhos, meros cacos de qualquer coisa. Não me falavam absolutamente nada. Seguia caminhando em meio àquele cemitério de coisas até que, poucos metros adiante, os sapatos que me sorriram.

Consegui identificar imediatamente que eram do meu tamanho mesmo antes de calçá-los. Cinderela urbana em segundos, já conseguia visualizar os bailes que rodariam sob meus pés. E custavam R$ 8,00. Apenas oito reais! A decisão de compra foi imediata.

Carreguei os sapatos embaixo do braço num saco plástico de supermercado. Sorria de prazer não apenas pela aquisição, mas por ter descido na parada errada, por ter circulado em meio àquela fauna urbana simultaneamente tão rica de vida e tão decadente, e que jamais escolheria circular não fosse o acaso que me levasse ali. E aqueles sapatos semi-novos, de design e material perfeitos…

Eu nunca tive problema em dormir em colchões usados – confesse se raramente você pensa nisto quando apaga a luz num quarto de hotel após um longo dia de trabalho longe de casa. Ou quando vive intensamente alguma história só sua sobre a cama de um motel. Talvez porque os lençóis do colchão sejam lavados e desinfetados (pelo menos assim tentamos crer), e você só sente o seu suor ou o suor alheio de quem lhe faz companhia. Mas eu ainda conseguia sentir o suor dos pés que calçaram aqueles sapatos, e isto me causava inquietação e fascínio. Impossível não tentar pensar nos pés que os calçaram. Como era a dona? Por que os deixou? Na minha pequena viagem mental eu via um par de brancas canelas grossas, com uma saia bege cobrindo os joelhos. Tentava compor seu guarda-roupa, seu estilo, sua maneira de ser. Me vi aos poucos construindo um alter ego que nascia de baixo para cima: primeiro pés, depois quadris, cintura, pescoço e cabeça.

Não cheguei a construir uma alma, pois a poucos metros a paisagem e o momento mudaram. Entrei numa rua linda, tranqüila e silenciosa, num botequim de muita personalidade, para meu primeiro encontro com os metrobloggers. Entre amigos de décadas e novos amigos que eu só conhecia através das linhas digitais deste espaço, não levou muito para o encontro dar liga. O riso era imperativo entre cervejas, cachaças e ovinhos de páscoa. O bom humor era genuíno e o teor etílico, sob medida e sem exageros, só fez aflorar o melhor de nós.

Despertei na manhã da quarta-feira com uma vontade de comer mais manteiga do que pão. E sairia para trabalhar vestida de Cinderela urbana, orgulhosamente calçando meus sapatos mágicos que ainda sem nem terem me calçado, já me traziam pílulas de plenitude. Fui procurá-los na bagunça das roupas que joguei num canto da sala . Para minha surpresa, não estavam lá. Vasculhei o quarto, a cozinha, o banheiro. Nada. Nem vestígio de um raio sequer de verniz.

Há quase uma semana eles me deixaram. Tenho certeza que não calçam os pés de Dorothy, nem os de Cinderela.Vagam agora em algum lugar do Rio de Janeiro, à procura de outros pés, outras histórias, longe de closets empoeirados e de calçadas escuras. Vagam livres, pois em realidade, nunca foram meus.

Tijuca

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Há pouco tempo vi isso na rua Uruguai, na altura da Conde Bonfim.
Curiosa que sou, saltei do ônibus pra ler -minha casa fica a 4 quadras daí.
Achei a melhor descrição que já li do bairro até hoje.
Aldir Blanc perde.
Falo com a propriedade que cabe a mim, nascida & criada por essas bandas.
Brinquei de taco na rua, subi morro pra comprar merda, frequentei terreiro, fiz primeira comunhão, paguei fiado na padaria que tinha do lado do posto, vi minha prima tomar um tiro de bala perdida numa cobertura tijucana na noite de natal, chorei com o trânsito, reclamei dos buracos da Conde de Bonfim, fiquei sem luz mais de 7 horas sendo que a LIGHT é do lado da minha casa, fui pra baile, fui pra clube, fui para o Alto.
A Tijuca é um nada dentro de um tud(b)o.

No meio do caminho tinha um buraco

Na rua Macedo Sobrinho, no Humaitá, rua do Estúdio Mega, ao lado do espaço perto do posto, ou melhor, Sérgio Porto, havia, não sei se já consertaram, um enorme buraco no chão. Minha namorada saiu do carro e quase perdeu o sapato – à la Cinderela. Eu é que não iria buscar. Sabe Deus o que há no subsolo dessa cidade.

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Pretos, brancos e pardos entre esmaltes e acetonas

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Sábado passado, num salão em Copacabana, a conversa era a seguinte:

MANICURE 1 (tinha a pele negra e tirava o fungo verde da unha de uma cliente): Cê viu o homem que a Fulana arrumou? O maior negão!

MANICURE 2 (tinha a pele negra mais clara e ralava o excesso de pele dos meus sofridos pés): Pois eu nunca namorei um negão! Quer dizer, só uma vez. Prefiro branco. Não gosto de namorar homem preto não.

EU: Ué, mas por que não?

MANICURE 2: Ah, é porque eu sou clarinha (risos). A minha certidão de nascimento diz que eu sou parda!

MANICURE 1: Pois ó, sendo homem, não tem essa! Tá dentro! E vem cá: se tu é parda, eu sou o que? Branca?

CLIENTE DA UNHA COM FUNGO: Olha, eu não tenho nada contra preto, mas você é…hmmmm…olha, nada contra mesmo a cor, mas você…Ah, você é…marrom….marrom-chocolate. E ela é marrom-médio!

MANICURE 1: Que diabo marrom o que? Eu sou negra. Preta mesmo.

EU (falando para cada manicure): Olha, gente.. você é negra e você também. Todas se entreolham, constrangidas). Só que uma de fato tem uma tonalidade de pele mais clara que a outra. Eu é que tenho parda na minha certidão de nascimento.

TODAS (praticmente em uníssono): Como assim parda? Você é branca!

EU: Gente, olhem pra minha cor! Meu avô era negão e minha avó era branca. Meu pai nasceu moreno escuro. Minha mãe é branca. Eu sou morena, parda, apesar de achar esta denominação o Ó.

CLIENTE DA UNHA COM FUNGO: E você acha que eu sou o que?

EU (após breves segundos de reflexão, já sentindo a chegada de uma euforia pró-brancura por parte da outra cliente): Você é parda.

CLIENTE DA UNHA COM FUNGO: Olha, me desculpe…nada contra negros…me desculpe mesmo…nada contra, eu não tenho preconceito…mas eu sou branca! Na minha certidão tem que eu sou branca… eu sou branca. Só que eu estou bronzeada.

EU: Bom, discutir raça no Brasil é realmente delicado…

MANICURE 2: Pois lá em casa eu sou a única que nasceu com o cabelo bom!

MANICURE 1: Só se for bom só depois da escova! Olha o cantinho da nuca (risos)!

MANICURE 2: Ah, mas meu cabelo é bonzinho! Minha filha, coitada, nasceu com cabelo de neguinha mesmo, chega dá pena: toim, toim!

MANICURE 1: Pois a minha filha veio me perguntar por que é que algumas amigas têm cabelo liso e o dela é daquele jeito, encarapinhado, igual ao meu. Aí eu respondi que é porque a mãe dela é preta! Aí eu perguntei por que é que ela não botava trancinha no cabelo. Aí ela respondeu que não gosta de cabelo de plástico!

EU: Pois fala pra sua filha gostar do cabelo dela. Cê já não viu cada nega linda com o cabelo black power?

MANICURE 2: Deus me livre! (risos)

MANICURE 1: Pois é, fica bonito sim…Mas tem que ter coragem, né?

EU: Acho que tem que se aceitar e se gostar…parar de querer se embranquecer…Pois eu tenho uma amiga que é branca de olho verde e tem o cabelo de negra. Não tem outra: ela usa o black power e arrasa! O que não falta é homem na porta dela! O que vale é atitude, né?

TODAS OLHAM PARA MIM, INCRÉDULAS.

“Vem, vem”

Tenho pavor de flanelinha. Desses que correm com o teu carro, desses que não te ajudam a estacionar e pedem “5 reaizinhos”, desses que surgem do nada – causando um susto, desses que somem, desses que fazem piadas cretinas, desses que brigam com outros flanelinhas sobre quem viu o carro primeiro, desses que blablablabla, desses que huahdihdrhelarfkenroi5gjepogçedge, desses que ad infinitum.

Agora, a pior coisa que um flanelinha pode fazer (E A MAIORIA FAZ!) é ficar falando “Vem, vem” pra te ajudar a sair de uma vaga, SENDO QUE você nota – assim como quem não quer nada – que NÃO É POSSÍVEL sair da vaga. Há carros, há caminhões, ônibus, pessoas e o filho da puta lá dizendo “Vem, vem, pode vir”.

Outro dia, voltando da praia, contei até 10 para não pirar, mas não resisti e perguntei ao sujeito:
“Bicho, tu é cego?
Claro que falei com sorrisinho no rosto pois não queria brigar no meu pós-praia (não combina). O flanelinha disse então que “é preciso se lançar”. E riu.

Daí eu disse que eu era uma lady (tadinha) e assim como tal, não me lanço. Eu sempre espero.

No carro, nas curvas do Alto da Boa Vista, minha tendência a metaforizar a porra toda, pensei:
“Nunca me lanço. Sempre espero.”

“Vem, vem…”

Tô indo, tô indo.

Carnaval – parte III

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O pior do carnaval:

É de passar mal quando uma criança joga essa espuma fedorenta na tua cara, na tua latinha ou nos teus olhos.
Culpa dos pais que compram.
NÃO COMPREM ESSA MERDA para os seus filhos.
Já quase acabei com uma folia por causa dessa joça.

Fiquem com os clássicos que nunca morrem:

confetesss.JPG
Boba³

Bom carnaval pra vagabundo geral.
Juízo, hein? Atenção com o fígado, com o volante, com os ladrões e com a poliça.

Ah, com o coração também.

Vozes do além 2

Com a popularização desses tocadores de MP3 que as pessoas levam no bolso e ficam mexendo pelo lado de fora da calça com medo de serem roubas, eu ando no Centro e não sei se elas estão verificando a hérnia ou aumentando o volume, se elas estão trocando a faixa do álbum ou apenas coçando a virilha empelotada de calor, se estão segurando o prepúcio e lamentando com seus botões “Ai, mãe, porque eu não operei a fimose menino… Ontem a Marilinha viu isso aqui e riu tanto tanto…”

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