Archive for the ‘Na rua’ Category

Cinema versus Copacabana

“Pra quê? Isto aqui é melhor que xinema!” – Seu Francisco, sócio da Adega Pérola, apontando para o balcão do bar no dia em que eu perguntei se ele gostava de ir ao cinema em suas folgas de domingo.

Acabo de assistir ao filme “Babel” no Cine Roxy, aqui em Copacabana, o metro quadrado com mais gente idosa do Sistema Solar. E na sessão das 15h10, a preferida dos velhinhos.

Terminado o bom drama do mexicano Alejandro González-Iñárritu, uma senhora encara a subida dos créditos em pé, no corredor lateral da sala, e fala, com o rosto sério: “Forte o filme!” Ela não foi a única a sentir a história.

Corta a cena rápido (como gosta o Iñarritu), e já estamos na rua, na saída do cinema, com o dia ainda claro. Um homem de jaleco branco está sentado numa banquinha na esquina oposta à do cinema. Serviço oferecido: verificação de pressão sangüínea. Vi pelo menos duas senhoras (dessas velhinhas que andam em dupla, apoiando-se mutuamente) desgarrando-se da manada pós-“Babel” para sentar e fazer o exame.

Vou tentar não ser leviano no meu relato: não tenho certeza se esse enfermeiro está sempre lá. Eu, pelo menos, nunca o notei. Mas a conclusão a que chego diante da equação Copacabana + cinema à tarde + Babel = velhinhos angustiados, é que ele vai ter um bocado de trabalho nessa temporada de filmes dramáticos concorrendo ao Oscar. Pelo menos depois da matinê da terceira idade no Cine Roxy.

Vozes do além

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Com a popularização desses celulares que as pessoas colocam dentro do ouvido, eu ando no Centro e não sei se eles estão loucos ou falando ao telefone, se eles estão falando ao telefone com o doutor Luis Gustavo Magalhães de Brito, grande tributarista e excelente parceiro de squash, ou se estão debatendo com a voz de um anjo, se estão falando com a mulher chata, que a essa hora já liga com uma listinha de compras do Lidador para o jantar de hoje à noite, ou se estão confirmando o que diz Joana D’Arc, a moça que lhes dá conselhos táticos e místicos sobre a guerra entre França e Inglaterra e sugere que o Listerine seja trocado por outro enxaguante bucal sem álcool.

Roteiro romântico do Rio

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PEDALINHO DA LAGOA: Um clássico. O passeio proporciona uma vista sensacional de 360 graus das cadeias montanhosas que cercam a Zona Sul. Não esqueça de levar pipoca e aproveite a calma proporcionada pelo vento e o silêncio para puxar a calcinha da sua garota pro lado e meter-lhe a mão entre as pernas. Um dedo de cada vez – e não se esqueça de antes lamber o sal da pipoca.

APARTAMENTOS PARA ALUGAR: Algumas imobliárias ainda conservam o velho hábito de emprestar as chaves dos imóveis em locação para os interessados. Você passa na imobiliária, deixa a identidade, pega as chaves e vai ver o apartamento em questão por sua própria conta. Sem a companhia daqueles caras chatos que ficam escondendo vazamentos e disfarçando a vizinha psicótica. Aproveite então para levar sua pequena e coma ela apoiada na pia do banheiro todo sujo de cimento branco.

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ÔNIBUS FRESCÃO: Costumam ficar vazios fora dos hortários de pico. Pegue um até o Aeroporto Internacional, sente bem lá no fundo e vá metendo ferro na pequena até o portão de embarque e desembarque. Lá vocês descem, fumam um cigarro, vão ver umas decolagens pra sentir como São Paulo não tem nada pra fazer, aí pegam um outro frescão de volta e dão mais uma. A passagem custa R$ 6, o que dá um total de R$ 24 (ida e volta pro casal). Bem mais barato que o pior dos motéis.

BANHEIRO PÚBLICO: Top of the hits em qualquer aglomerado urbano, o banheiro também é uma boa alternativa carioca para passeios românticos. Seja em bares, boates ou lugares menos asseados, como a Rodoviária Novo Rio, ele sempre oferece bons momentos aos casais mais ansiosos. Uma boa dica> depois das 22h, os banheiros do Downtown, o Shopping Mais Bizarro da América Latina, na Barra, ficam às moscas. O boquete rola numa nice e você pode até passar sua lua-de-mel numa das cabines.

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LOCAIS INTERDITADOS: Ignore o perigo e atravesse a faixa amarela e preta de mãos dadas com sua amada como se vocês fossem Adão e Eva retornando ao Éden. Escolha um bom canto de apoio entre os escombros e tijolos da obra inacabada e dê todo o amor dessa vida à tua boneca. Locais menos empoeirados, como as salas largadas e arquivos esquecidos dos museus da cidade, também são boas pedidas. Só tome cuidado com as câmaras de segurança pra depois não chorar o YouTube derramado.

CINE ODEON: Na Cinelândia. Pegue uma sessão vazia, tipo às duas da tarde de uma terça-feira, e enfie até o drops.

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LUGARES ESQUECIDOS PELA RIOLUZ: A empresa que cuida da iluminação pública da cidade às vezes dá uns moles e deixa uns lugares às escuras. Deve ser o cupido que passa e mira os postes com suas setas de amor. Escolha um desses locais e aja, amigo! Mas cuidado: nesses tempos violentos, essa é uma alternativa cada vez mais perigosa. Se estiver no carro, deixe os vidros um pouco abertos pra não embaçar o vidro. Assim você vai poder das umas conferidas no retrovisor e ver se vem ladrão enquanto segura os seios de sua menina cavalgando no seu colo.

These boots were made for walking

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São quase quatro da manhã de domingo. Cheguei há pouco em casa depois de vir andando com meu amigo Manoel Magalhães, com quem estive no open house de uma amiga nossa que se mudou pra Urca dia desses.

Depois de descermos a ladeirona da Avenida São Sebastião, Manolo e eu andamos pelo calçadão da Avenida Portugal, que beira a Baía de Guanabara e suas embarcações ancoradas no escuro. Fizemos o caminho cantando. A luz distante de um barco nos lembrou o farol da ilha de Marina e Antonio Cícero na belíssima “Virgem”, que emendamos na igualmente bela “Não sei dançar”, e daí estávamos na simplicidade eletrizante “Creep”, até que paramos em frente ao Edifício Golden Bay, onde mora o Roberto Carlos, quando diminuímos o passo e fizemos uma silenciosa reverência, salve o Rei, e juramos ter ouvido um som de violão vindo da cobertura (Roberto foi assunto em outro momento da noite, quando a minha amiga, recém-mudada para a Urca, contou-nos sobre o dia em que o cantor a parou na porta de casa e desceu do carro para comentar como era bacana a moto dela).

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Parei na rosa dos ventos feita no chão com pedras portuguesas no final da Avenida Portugal e tirei uma foto virado pra Zona Norte, outra virado pra Zona Sul. Ali, no Iate Clube, as águas da Baía não se mexem, nem os barcos, que mais parecem estacionados num grande pátio de asfalto molhado pela chuva.

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Saímos da Urca, passamos pelo começo da Praia Vermelha, e enfim Botafogo, na rua da Passagem, que nos chegou pelo viaduto da Avenida Pasteur, um dos poucos trechos de rua no Rio onde o trânsito flui “ao contrário”, em mão inglesa, como na terra de Lennon e Bowie, outros dois sujeitos muito citados ao longo da noite.

Na rua da Passagem, Manolo partiu pra casa, depois de encerrarmos o papo no ponto de ônibus, onde peguei meu 464 cheio de zumbis cansados e grogues depois de mais uma noite na Lapa querida.

Eu moro na Muda – Parte II

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Sei que isso acontece por toda a cidade quando venta muito, mas queria dizer que as árvores aqui na Muda, além de serem centenárias, são envergadas. A maioria. Ora invadem a casa dos vizinhos, ora se apóiam na fiação. Seja de luz, telefone ou TV a cabo.
Eu não sei se você sentiu ou viu, mas hoje, terça feira, às 6 da manhã, o mundo decidiu acabar. Disse “Chega, vou embora”, como adolescentes revoltados com os pais. Eu estava dormindo, veja só você, tendo um pesadelo (meu corpo sempre me prepara para as desgraças antes que elas aconteçam, obrigada, corpo), quando de repente ouvi um barulho.
Batida de carro, pensei. Ou o andaime do quintal caiu dentro da piscina (estamos em obras no quintal). Levantei assustada com o pesadelo que agora já não lembro e curiosa com o barulho. Encontrei meu pai agitado feito um louco. E disse apenas: “A árvore caiu no Palio”.
A árvore. Que me dava sombra nos dias infernais de janeiro, e deixava meu carro não parecer o inferno para quando eu precisasse dele. A árvore tinha umas flores roxinhas, e só nessa semana, perdi a conta de quantos tapetes roxinhos ela não fez no chão ou no teto dos carros. E quantos elogios eu não ouvi das pessoas que por aqui passavam.

Mas o mundo decidiu acabar. E havia uma pedra no meio do caminho. Meu carro, no caso. E a árvore caiu. Levando toda fiação. Furando o pneu do meu carro com seu peso elefantil.
Estou inventando palavras já.

Idéiafix, cachorro do Obelix, melhor amigo do Asterix, chora toda vez que derrubam uma árvore.
Hoje quase chorei também.
Mas desculpa mãe-natureza, não foi pela árvore não.

Shame on me.

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Dropsssssss

Levei cinco minutos pra descer até a rua e comprar um trequinho de comer no jornaleiro. No caminho, dois shots:

1. NO ELEVADOR: dois entregadores comentam a passagem do homem mais alto do mundo pelo Rio – hoje, na hora do almoço, o cara zanzou aqui pela Rio Branco, entre uma sessão de autógrafos e outra nas livrarias do Centro:

ENTREGADOR 1: Mais cedo eu vi o grandão aqui em frente.
ENTREGADOR 2: O chinês?
ENTREGADOR 1: É. Muito grande, rapá. E um monte de nanico atrás dele (riso debochado). Ele até usa uma bengala pra não cair.
ENTREGADOR 2: Olha, ele consegue ser mais alto que um rapaz que tem lá em Pilares, o Sérgio!

2. NO JORNALEIRO: Depois de ver o dono da banca dar duas informações a pessoas geograficamente perdidas no Centro, comentei que aquilo deveria se repetir o dia todo. “Se repete?! Putz… Olha, tô pensando em botar uma placa aí fora: INFORMAÇÃO: R$ 0,20. Não é brincadeira não, campeão: vou faturar uns 200 contos por dia”

Sexta no Arco do Teles

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No fim de 2000 o cartunista francês Jano visitou o Rio de Janeiro — pela terceira vez — para conhecer a cena urbana “off-broadway” carioca. O resultado da incursão é um álbum clássico sobre uma parte daquilo que se pode chamar de modo de ser do carioca contemporâneo. Um registro bem humorado que impressiona pela riqueza e pelo apuro dos detalhes observados.

Jano, consagrado como um dos grandes nomes do underground dos cartoons franceses, usa a técnica do nanquim com aquarela. Seus personagens trajam roupas normais e característicos de suas cidades mas todos apresentam cabeças de animais, o que ajuda a definir o espírito e a personalidade dos retratados.

Neste cartoon, vemos o burburinho típico das sextas à tarde na Travessa do Comércio. O happy hour do Arco de Teles, próximo à praça XV, centro do Rio, é território livre, democrático e “sem lei” de boys, auxiliares de escritório, secretárias, advogados e universitários da Cândido Mendes, em sua maioria. É meio “casca grossa”, é verdade, mas é boa opção para quem já está no Centro.

Festival do Minuto

Aconteceu hoje cedo: no banco baixo à frente do meu, no ônibus a caminho do Centro, uma ruiva gordinha fechou o livro, tirou os óculos e começou a procupar o Pão de Açúcar entre as nuvens. Pão de Açúcar, Pão de Açúcar, Pão de Açúcar. Como não achou nada, abriu a bolsa, pegou duas Halls sem açúcar, sem açúcar, sem açúcar e botou na boca. FIM.

Título: “Vendo doces caseiro”
Produção: 27/10/06
Duração: 17 segundos
Trilha sonora: “Meu mel”, Marquinhos Moura

Como diz o português: “Raios, cósmicos!”

Hoje foi o dia em que os raios cósmicos positivos banharam a Terra através de um buraco especial na camada de ozônio, como disse Nostradamus, ou mais ou menos isso, como a Maíra explicou ontem. Estava no trabalho às 17h10, a hora dos pensamentos positivos de US$ 1 milhão, quando todo mundo (repito: TODO MUNDO!) deixou seus postos e desceu pra Avenida Rio Branco pra mentalizar coisas boas ao ar livre – é, na cidade grande, em comparação à sua baia de trabalho, a Avenida Rio Branco ganha status de “ar livre”.

Eu não desci, aproveitei a maré calma para botar no ar o post do Toynbee. Juro, não foi de propósito, foi coincidência, mas antes de clicar SAVE POST eu dei uma pensada: “Será que era essa a mensagem oculta do Toynbee? Este meu post vai pro ar e nossos pensamentos positivos sob a ação dos raios cósmicos irão nos ressuscitar mortos em su planeta Rúpiter? Oh, shit… Oh, Virgílio… Você não é o centro do mundo, como bem te alertam os leitores do Metrobloggin… “, e aí sorri. E confesso: fiz sim um pensamento positivo pro mundo às cinco e dez. da tarde de hoje..

Mas não sei se a culpa foi minha, por não ter descido pra Rio Branco como todo mundo, ou se a culpa foi de todo mundo que desceu, mas voltar pra casa hoje foi um ânus. Uma passeata do Lula com o Serginho Cabralzinho Filhinho onde? onde? na Avenida Rio Branco!!! parou o Centro do Rio. Parou mesmo: o trânsito foi interrompido na Rio Branco inteira, cheia de militantes dos dois candidatos, o que acabou refletindo na Presidente Vargas (resumindo: infarte fulminate no Centro) e em todas as regiões próximas. Isso tudo na hora do rush.

Tentei voltar de metrô, mas sem chance: poucas vezes vi a estação Carioca tão cheia, mal dava pra respirar. Só consegui um ônibus na Lapa, a mais de um quilômetro de distância de onde eu trabalho. Ainda pensei positivamente: “Será que eu vou pegar o mesmo ônibus da Cleo Pires?”

Obviamente, todo mundo ficou puto com o caos, até porque ontem foi Dia dos Comerciários aqui no Rio, ou seja, um semi-feriado, que deixou a cidade vazia e tranqüila, o que levou todos a pensar: ora bolas, nada contra a passeata, é até bom saber que algumas pessoas ainda se empolgam com política nesse país, mas por que não marcaram esse comício pra ONTEM?

Parece que o Lula nunca foi companheiro-trabalhador, que o PT não é o Partido dos Trabalhadores, parece que eles não sabem que entre cinco da tarde e sete da noite o povo só quer uma coisa: assegurado, mais do que nunca, o seu direito de ir e vir. Pra casa, catso.

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Avenida Rio Branco dominada pelo povo na hora do rush: não confunda “pensamento positivo” com positivismo, aquele do “Ordem e Prosecco”

Deixe seu recado após o sinal

Num mundo em que você precisa ser famoso e a favor ou ter muito dinheiro para falar às massas (vai ver quanto custam 30 segundos de comercial na Rede Globo, uma semana de exposição num outdoor, uma hora de programa numa rádio), as pessoas queimam a mufa para dar seu recado di grátis.

Nas grandes cidades, o negócio é subir na estátua, falar mais alto, cuspir fogo, ou o que você conseguir inventar pra chamar a atenção. Aqui no Rio, neguinho vem descobrindo cada vez mais… o chão. É, o chão, esse desprezado, cama dos mendigos e dos mal amados… Os recadinhos estão lá, nos cruzamentos, nas esquinas ou nas faixas de pedestre (pedaços de chão que a gente costuma olhar com a atenção que damos à nossa própria vida).

Alguns chamam mais a atenção que muito outdoor, como é o caso da Suelen Country, da foto aí embaixo, candidata a deputada na última eleição. O link anunciado já foi pras cucuias, mas a Suelen continua lá, coladinha na faixa de pedestres que fica em frente à Rua Sete de Setembro, na Praça Quinze. O recado não tem nada de mais, a não ser o veículo: o local é um dos mais freqüentados pelos pedestres no Centro. Por ali passam milhares de pessoas todos os dias, vindas de Niterói e adjacências (via barcas) ou dos ônibus que passam no Mergulhão.

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Outro caso famoso de “recado de solo” são as placas Toynbee, com a famosa (e misteriosa) inscrição que apareceu no chão de cruzamentos movimentados em diversas cidades das Américas no começo do novo milênio. O Rio tinha algumas delas, como você pode ler aqui.

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Foto: Tiago Teixeira

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