Encontrei agora a Tereza Lessa na esquina da Fonte da Saudade com a Baronesa de Poconé. Além de rua simpática, onde morou o Jô Soares, a Baronesa de Poconé vinha a ser exatamente a Maria de Almeida Bueno do Prado, esposa do Manuel Nunes da Cunha, o Barão de Poconé. Já a Fonte da Saudade é uma fonte que fica ali na rua Fonte da Saudade. Está na entrada daquele prédio quase em frente à igreja Santa Margarida Maria. Tereza foi minha colega em um curso com o Charles W. Watson, o meu amigo escocês que tem atelier ali na rua Mundo Novo, aquela rua que sobe por Botafogo e desce em Laranjeiras — ou vice-versa — mais ou menos onde se concentra o Gigantes da Lira no Carnaval. Não confundir este Charles com o Charles Tex Watson, assassino e ex-membro do grupo de Charles Manson, o que matou a Sharon Tate, ex-mulher do Polanski. A Sharon e o Polanski trabalharam juntos no divertidíssimo A dança dos vampiros. Não viram ainda? Bom, mas como eu dizia, a Tereza me contou naquela esquina que tinha aparecido uma cobra hoje no prédio dela, ali na rua Bogari, sendo Bogari aquele arbusto de flor branca, e que tinha chamado os bombeiros para capturá-la. Não sei se veio o Coronel Marcos Silva. Se veio, a cobra se fudeu. Eu acho que o termo bombeiro define mal, tanto a função de quem luta contra o fogo, quanto a de quem conserta encanamento. Neste último caso prefiro a versão paulista de encanador. Mas, me desculpem, semáforo é a puta que o pariu. E ponta-cabeça é o caralho. Bem, segundo ela, era uma jararaca. O veneno da jararaca é o seguinte: hemorragia, choque, falência renal e morte. Eu disse à ela, que é filha do ex-Reitor da UFRJ, o Carlos Lessa, dono do sebo Al-Fárábi na rua do Rosário e autor do interessantíssimo O Rio de Todos os Brasis, uma densa análise sobre a decadente mas eterna permanência do Rio como símbolo nacional, eu disse a ela, enfim, que certa vez também tinha capturado uma cobra na minha casa na Bogari, no meu caso uma coral, aquela preta, vermelha e branca e, altamente venenosa, assim como a jararaca dela. Na ocasião eu disse teje presa, taquei ela num vidrão de maionese com tampa furada e, depois de dois dias cumprindo pena ali em casa, eu a soltei, por bom comportamento, lá no alto da Casuarina, árvore nativa da Nova Guiné e também rua onde já morou a Xuxa com a sua mãe. Com a mãe dela, quero dizer. Não sei se apareceu cobra na casa da Xuxa. Nem aranha. Macacos aparecem sempre por aqui. Gambás idem. Morcegos também. Formigas? De dez centímetros às vezes. Consegui ainda dizer, antes que ela seguisse para o seu jogging noturno, que as cobras sempre atacam as fontes de calor. Ou seja meus caros, do jeito que o verão está, cuidado que vai chover cobra por aí.