Archive for the ‘Pessoas’ Category

Poha!

“A decência exige que os homens mintam”
– mente pra mim, por favor? –

Não sei sou eu, mas o carioca (ah, que coisa terrível generalizar, mas nesse caso, QUE MARAVILHA) é um mentiroso. Concordem comigo: 9 horas é NOVE HORAS, CERTO?
O carioca sofre de um retardo mental que dura vinte minutos. Ou seja: 9 horas, para o carioca, quer dizer 09:20. Demorei anos para entender isso. E até hoje me aborreço. O melhor é quando a mentira ganha força e frases como “Tô chegando” te iludem, e te fazem pedir mais um suco, mais um chopp, acender um cigarro ou jogar um jogo infame do celular.

No Rio de Janeiro, acredita-se que em 5 minutos, você pode chegar em qualquer lugar.
As pessoas são tão decentes.

Sou tão INdecente que digo: “Naõ vou chegar em 5 minutos nem fudendo”
Eu sou ingelsa e bebo vodka.

20 minutos no 415

A graça de ouvir histórias alheias em coletivos.
Capítulo de hoje – “Compaixão, indignação e Humor Nonsense”

Certa vez, peguei o 415 ali na Heitor Beltrão(Tijuca), logo
após a Marquês de Valença. Entrei, parei na frente do trocador e pedi pra passar
direto porque eu estava com uma mochila e minha guitarra na mão. O senhor da poltrona
foi gente fina e fez sinal para eu passar. Sentei no banco próximo a ele e enquanto
catava meus níqueis para pagá-lo, uma senhora de mais ou menos uns 50 tantos anos,
contava aterrorizada e indignada que em algum local próximo, naquela mesma tarde,
uma criança fora achada perto de um canal.

A mulher contava ao trocador que o nenémfora deixada com roupinha e com a carteira de vacinação
em dia. Eu, impressionado, passei a prestar atenção à história daquela mulher. Ela nao entendia
como uma pessoa tinha coragem de deixar um ser tão pequeno e indefeso à beira de um canal sujo e
imundo e com a cartelinha de vacinas completa. A senhora ficara com lágrimas nos olhos e ao mesmo
tempo muito indignada, e contara que sua mãe criou 26 filhos (é , eu também me assustei mas isso
é o de menos) lavando e passando roupa para madames tijucanas. Apesar das dificuldades, a mãe dessa
senhora não desistiu dos filhos.

Essa história durou 2 pontos e a mulher desceu do ônibus na Praça Sãens Pena. Assim que o ônibus
começou a andar o trocador comentou a história que acabara de ouvir e xingou e falou mal da “mãe”
que abandonara a criança e tal, e contou como tratava as filhas dele e bla bla. Ele era um figura.
Branco , meio careca, meio grisalho e muito metido a malandrão. Quando eu estava pronto para descer
no meu ponto, depois da rua uruguai, ele me solta uma frase que até hoje ecoa dentro de mim. Ele disse:

“Se dinheiro fosse bom, cachorro de rico teria gaveta!”

Eu balancei a cabeça sorrindo e desci do ônibus tentando entender aquela frase. Tentei relacionar
com a história que a senhora havia há pouco nos contado. Tentei sacar se era uma piada de duplo sentido.
Tentei, tentei, tentei e tentei e até hoje tento entendê-la mas mesmo assim, achei genial.

Figurantes

Antigamente era papo de ambientalista ou de raras pessoas com noção de tempo e espaço. Hoje em dia, o aquecimento global é papo de botequim, e veja só, de salão de beleza. Entrei num salão aleatório na Praça Saens Peña, para fazer as unhas. A manicure se chamava Sandra, tinha um sotaque mineiro e obviamente iniciamos o papo com o clássico: “Que calor, né menina!“. Sandra, seríssima, inicia um monólogo sobre o ser humano inconseqüente e sobre sua falta de esperança. Diz que é muito triste pensar que a neta dela terá que lutar por água potável. Fico chocada com o tom da conversa e ao mesmo tempo, feliz. A manicure ao lado entra na conversa. Comenta que leu no Globo que as geleiras já quase não existem. E que o Rio de Janeiro poderá sumir, assim como várias outras cidades no litoral. As duas se mostram assustadas. Em momento algum falamos da Suzana Vieira e do marido quebrando o motel. Sorrio e conto para elas do caso dos ursos polares que não estão conseguindo dormir, pois só estão habituados a dormir com 28 graus negativos. E como a temperatura não está essa, eles não dormem. E estão estressados. A manicure arranca um bife. Dou gritinho de “ai” e explico que aquela é minha décima terceira vez numa manicure. Ela ri e comenta: “Agora que o mundo tá acabando resolveu ficar bonita?” Sandra é engraçada. E politizada. E manicure. Essa minha coisa de entrar em salões aleatórios, taxistas aleatórios, depiladoras aleatórias, me rende sempre boas conversas.
Já fiz escova com uma cabeleireira que no verão brasileiro vai para Itália trabalhar num hotel. Enquanto malhava o braço para domar minha crina, ela contou que ficou muito impressionada quando chegou no tal hotel pela primeira vez. “Assustador”, disse. Depois ficou sabendo que foi ali onde foi gravado “O iluminado”. Senti a orelha queimar. Não me lembro do nome dela, mas lembro dela ter me ensinado alguns palavrões em italiano, e de ter dito que nunca teve coragem de olhar para trás quando estava no corredor. “E não consigo ver filme com Jack Nicholson”.
Teve também a depiladora cuja irmã fez faculdade de direito com a Clarice Lispector. A depiladora, muito ruiva, aplicava a cera e com uma voz muito suave, dizia na hora de arrancar: “A Clarice lá em casa era muito esquisita…” E PÁ. Bye bye, pentelhos.Contou dos romances lispectorianos. E eu, muito aflita, ficava super atenta.
Uma vez fiz um trajeto Tijuca-Lagoa com um taxista formado em Letras. “Português-Literatura”. O engraçado é que foi bem na época que eu estava querendo desistir do mesmo curso. Falei mal dos professores múmias de Latim, ele contava das aulas de lingüística com um fodão aí da época dele, um papo ótimo. Lembro que o taxista era apaixonado por Carlos Drummond de Andrade, e juntos, recitamos o poema dele que vinha na nota de 50 cruzados. (Nota que eu ainda tenho). Esqueci alguns pedaços na hora de recitar, mas o homem (João? Pedro? Paulo? Severino? Wilson? Carlos?) sabia tudo. E assim, pela janela de um carro que não era meu, eu vi a minha cidade duplicada. Ora no céu, ora n’água.

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

E assim continuo nessa escolha aleatória de “figurantes” importantes na minha vida.
E olha que nem contei da senhora capricorniana, dona de 2 gatos, num prédio na Cinelândia; do Adílson, atendente do Bob’s, nas madrugadas de 2003, que tinha um sorriso engolidor de mundos; da caixa da farmácia Granado que quis me mostrar opções de vestido de noiva, e insistiu numa opinião…
Nem contei.

Eu preparo uma canção
Onde eu consiga
Contar tudo
O que parece ser figuração

Sai da rua, Neném!

nenem.jpgOntem à tarde, indo pra Lapa num 409, constatei que maluco é que nem barata: quando faz muito calor, todos saem dos buracos. Eu não tô falando de maluco que nem você que me lê, eu tô falando de maluco-maluco. Vi uma meia dúzia, entre o Humaitá e o meu destino final. O primeiro avistado foi o Johnnie Walker, Black Label, aquele que se veste todo de preto e que anda sem parar pelo Humaitá e Botafogo. Mais adiante localizei um de paletó e chapéu, posando deitado num gramado, no Flamengo, mas o último que observei, já na Lapa, veio caminhando pelo meio da Riachuelo, entre os carros e na contra-mão, falando e gesticulando, todo paramentado, com um xale que se arrastava pelo asfalto e um mini-estandarte incompreensível em uma das mãos. Parou no meio da rua, deu um rodopio, o mini-estandarte caiu, ele se abaixou para pegá-lo, o trânsito parado esperando a sua evolução, levantou os dois braços em delírio… estava quase tendo um treco bem ali no meio da rua, no cruzamento da Francisco Muratori com a Riachuelo, quando afinal foi chamado por fregueses no boteco da esquina: – Sai da rua, Neném! Aí Neném saiu.

É a promessa de vida no teu coração

jobimmayor.jpgOne evening there came into his soul the desire to fashion an image of ‘the pleasure that abideth for a moment’. And he went forth into the world to look for bronze, for he could only think in bronze.

But all the bronze of the whole world had disappeared, nor anywhere in the whole world was there bronze to be found, save only the bronze of ‘the sorrow that endureth forever’. Now this image he had himself and whith his own hands fashioned and had set it on the tomb of the one thing he had loved in life. On the tomb of the dead thing he had most loved had he set this image of his own fashioning that it might serve as a sign of the love of man that dieth not, and a symbol of the sorrow of man that endureth forever. And in the whole world there was no other bronze save the bronze of this image.

And he took the image he had fashioned, and set it in a great furnace, and gave it to the fire. And out of the bronze of the image of ‘the sorrow that endureth forever’ he fashioned an image of ‘the pleasure that abideth for a moment’. The Artist (Oscar Wilde)

Ontem o carioca Tom Jobim fez 80 anos. Sim. Não tem outra forma de pensar nele a não ser vivo. O texto acima, em inglês arcaico, fala da coragem de se sacrificar o eterno pelo efêmero. O certo pelo incerto. É o risco supremo que todo grande artista tem que correr. Pra fazer o que fez, ele arriscou. Quando eu era moleque o Tom foi lá em casa. A gente ia se mudar pra Bahia e pôs a casa pra alugar. Eu não o vi porque estava na garagem, mas minha irmã, que o atendeu, mostrou o imóvel e lembra até hoje do sensível e alcoólico pedido do maestro: – Meu amor, será que você teria um sonrisal pra me arrumar…

Categorias

Ontem minha primeira prima casou em Santa Tereza. Minha vó reclamou da dificuldade de se chegar na mansão alugada para a festa. “Não sei como alguém pode morar aqui…” Minha prima disse para o noivo-marido: “Sempre pensei que felicidade era o que acontecia quando eu não estava triste… nunca pensei que felicidade pudesse ser um estado constante. A verdadeira felicidade não explode, como pensam… ela acontece…” Ou algo assim. Sei que achei bonito prá-caraleo. Lagriminhas, primeira prima, aquela coisa. Daí a festa acabou, peguei carona com um amigo pra descer até à Lapa, pra pegar um táxi. No caminho encontrei meu amigo egípcio, conversamos um pouco, ele quer fazer uma performance na Carioca ou na Cinelândia, que irá se chamar:
III PIQUENIQUE DO GASS – GRUPO DE APOIO AOS SOBREVIVENTES DO SUICÍDIO. Achei engraçado, dei tchau ao Habib e enquanto caminhava pela Lapa, resolvi brincar de “feliz x triste”. Uma brincadeira que inventei outro dia e que agora estou com mania. A brincadeira consiste em olhar nos olhos das pessoas e dizer mentalmente ou em voz baixa (por favor!), se a pessoa é triste ou feliz. Uma vez no centro da cidade, brinquei disso. Contabilizei muitos tristes e poucas pessoas felizes. Acabei tendo que criar uma categoria de “confusos”: pessoas que eu olhava, olhava e não sentia firmeza nem na felicidade, nem na tristeza. Na Lapa, contabilizei MUITOS “confusos”.
Daí cheguei à conclusão que:
pessoas andando, sorrindo e sozinhas, ou estão apaixonadas. Ou o sobrinho nasceu. Ou ganharam um aumento. Fui andando pela Lapa, sozinha, brincando. O travesti na rua do Lavradio que me olhou, era “triste”. O rapaz em frente ao Arco Íris que me olhou, era “confuso”. O jogo só dá pra ser jogado com quem te olha. Encontrei uma garota com quem eu estudei. “Feliz”. A amiga dela era “confusa”. Olhei pra dentro de um bar, o garçom me olhou, querendo saber se eu queria mesa. “Triste”. Fiquei cansada. Entrei num táxi, o motorista era “feliz”. Cheguei em casa, meu pai via um filme. “Feliz”. Me olhei no espelho e vi: “Confusa”.

Quantas pessoas felizes você vê ao longo de um dia da sua vida? E tristes? E confusas?

Grandes questões do Fashion Rio

O que leva as mulheres que estão acima do peso a colocarem uma calça quatro números menor com uma blusa curta que deixa ao léu a barriguita? Este é o figurino de metade das fêmeas cariocas.

A calça apertada a gente entende: dá uma definida nas curvas (mesmo nas que não existem), ressalta o popô, enfim: dá ao povo o que o povo gosta. Mas e a blusa que deixa exposta a barriga imensa, caindo pela cintura como um rocambole de torresmo? Qual a manha disso?

O certo não seria usar a calça apertada e uma blusa cobrindo o resto?
O esperto não seria guardar o segredo da cinturinha de foca para o escuro do quarto ao amante curioso?
O certo não seria a armadilha?

Fica a alfinetadinha de Ronaldo Ésper, amiga leitora: blusa curta em mulher fora de forma é que nem mágico entrando no palco com o rabo da pomba pra fora da cartola.

O dia em que eu fui ao baile do Copacabana Palace

Amigo meu com mais de 50 anos, fotógrafo conhecido, me liga e diz:
“Letícia, quer ir ao baile do Copa comigo?”
Eu, com 20 e poucos, atriz desconhecida, penso em roupas, mas digo:
“Porra, claro!”
Minha mãe, com quase 50, professora de francês, pensa-mas-não-diz:
“Esse velho quer te comer”

Eu mostro a minha mãe que não-é-bem-assim. Frederico e eu somos amigos. Ele me conta das coroas (ou não coroas), fala do filho, dos amigos dos filhos, e eu ouço e aprendo e babo nas suas fotos com o Bob Marley na parede do estúdio.

Com que roupa eu vou? Com que roupa eu vou? Ao baile que você me convidou?
(more…)

Sinal fechado

Eu sei que ser carioca é estar acostumado a ver a Luana Piovani no calçadão, Chico Buarque dando um mergulho e o Nelson Motta comprando pão de forma na padaria. Mas o negócio é o seguinte: 19 nunca foi 20, e eu nunca me acostumei à nada, violência ainda me choca e ver gente famosa fazendo coisas que todo mundo faz, também prende minha atenção. Quando pequena, eu e Bernardo imaginávamos a Xuxa cagando e passávamos minutos gargalhando. O do Michael Jackson, meu irmão dizia, devia ser todo dia diarréia. Quáquáquá. Como sou tola, meu pai. Pois hoje na rua Real Grandeza, em Botafogo, após um rápido pão com manteiga na chapa e um suco de laranja, fui para o estúdio, ensaiar, cantarolar. A porta do estúdio era estreita, e havia um senhor de costas para a rua, falando alguma coisa para o funcionário do estúdio que estava lá em cima (a porta dá de cara com uma escada). Fiz a famosa dança de quem quer passar por um lado, e o corpo da pessoa no caminho vai para o mesmo lado, daí você muda a direção, e adivinha só, a pessoa também muda a direção indo para o mesmo lado. Cansei da dança e falei para o senhor: “Opa, dá licença aqui, rapidinho?” O senhor virou rápido e ali estava Paulinho da Viola, com aquele sorriso de Paulinho da Viola, me dizendo: “Ô, desculpa, minha flor”
Ri idiota “minhaflorminhaflorminhaflor” e subi as escadas querendo voltar e dizer:

Olá, como vai
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo, correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranqüilo, quem sabe?
Quanto tempo…
Pois é, quanto tempo…
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios…
Qual, não tem de que
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo, talvez
Nos vejamos, quem sabe?
Quanto tempo…
Pois é, quanto tempo…
Tanto coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa rapidamente
Pra semana…
O sinal…
Eu procuro você…
Vai abrir!!! Vai abrir!!!
Eu prometo, não esqueço, não esqueço
Por favor, não esqueça
Adeus… Adeus…

Polaroides

Volto pra casa à tarde no 461 lotado e fico de pé, bem à frente da menina morena que dorme sentada com o seu cabelo preso em rabo de cavalo, a cabeça tombada pra frente mergulhada em uma sacola de papel da Shop 126, enquanto segura, esquecida, uma carta escrita à mão com uma esferográfica azul. Tento ler indiscretamente o seu conteúdo de letras meio infantis. Diz lá, aqui e ali, “simplesmente”, “janeiro” e “outro amor”.

*
Enquanto isto os dois colegas de trabalho se aproximam do fundo do ônibus. Têm vinte anos. Um muito branco, um metro e noventa ou mais, um passageiro quase alemão, fica à minha direita de pé. O outro, um neguinho, baixinho e franzino, à minha esquerda, de pé. Eu entre os dois. Tem inicio a conversa:
– Periquito falou que roubaram o celular dele lá dentro no serviço. Começa o alemão.
– Isso é o que ele diz! Responde o neguinho. Isso é o que ele diz!
– Falou que levaram, na moral!
(…)
– Alguém viu ele entrar com o celular? Arrombaram o armário dele?
(…)
– Falou que custou dois mil na loja.
– rá-rá! e aquele ali tem celular de dois mil? Comprou celular de noventa e diz que é dois mil. (…) Ele fez beó? fez beó? Não fez é porque ninguém roubou é nada, tá ligado? Aí depois do beó ainda tem que fazer queixa na delegacia, aí sim…
– Ainda tem isso. Conclui o alemão.

*
A menina segue dormindo, cabeça dentro da sacola, carta meio amassada na mão direita.

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