Archive for the ‘Poesia’ Category

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

O Segredo do Sol

Às oito horas, em ponto, a Rádio Saara toca o Hino Nacional. Qual o endereço das Casas Pedro? Atrasado. A cabeça ainda carrega os copos largados pela metade. Cada cantinho macio ou não parece uma cama. O sapato apressado: Tec-toc. Cadê o crachá?

Todos os dias ele toma nas mãos seu velho chapéu de palha e gira continuamente sob o sol. Faz isso para salvar o mundo.

Vinte e quatro anos. Mês que vem. Tão cedo. Nessa idade as pessoas ainda deviam sonhar. Boa parte das que amava está morta. Os outros vão morrer mais cedo ou mais tarde. Mais cedo. Ele também. O fígado já reclama aposentadoria. Mais trinta anos? Profissão errada. Úlcera certa.

Todos os dias ele toma nas mãos seu velho chapéu de palha e gira continuamente sob o sol. Faz isso para expulsar os demônios.

Vinte e quatro anos. Ele já sabe que não será presidente da república, artista famoso, jogador de futebol. A coluna já dói. O fôlego diminui. Talvez tenha sido. O quê? Só talvez mesmo. Mas continua. Até que.

Todos os dias ele toma nas mãos seu velho chapéu de palha e gira continuamente sob o sol. Faz isso por que não pode parar.

Vinte e quatro anos. Vinte e quatro horas para o fim-de-semana. Fds. Foda-se a folha de ponto. O Estado deveria garantir uma vida sexual decente a todos os cidadãos. Praça Tiradentes? É privada. O trabalho é público. Mas no sebo da praça há línguas estranhas.

Todos os dias ele toma nas mãos seu velho chapéu de palha e gira continuamente sob o sol. Faz isso para vender chapéus.

Vinte e quatro anos. Trezentos e sessenta graus: o cara do chapéu em cima do viaduto. A catedral. O sol se pondo. O retorno. A cabeça querendo cair do pescoço. Queria perguntar por que ele sempre faz aquilo.

Todos os dias ele toma nas mãos seu velho chapéu de palha e gira continuamente sob o sol. Faz isso para pedir perdão.

Vinte e quatro anos. Tanto desejo. E ele só precisava de um chapéu. Ali se vende de tudo. Talvez ainda encontre o que perdeu. Talvez ainda haja esperança entre as canetas chinesas. Um chapéu. Atrasado?

Todos os dias ele toma nas mãos seu velho chapéu de palha e gira continuamente sob o sol. Só revelará a verdade no dia do último eclipse.

Às oito horas, em ponto, a Rádio Saara toca o Hino Nacional.

Pensei em começar com um poema

rio de
alegria e nervoso
e rio do maravilhoso
mar
que me recebe
de manhã cedo
(enquanto já rio de medo)
e sei que não há nada
que me impeça
de rir bem
longe (e rir à beça)
no ano que vem
mas, quando
o ano que vem (re)começa,
me reinvento inteiro:
rio mais do que aguento,
rio do sofrimento,
mas rio de janeiro

Da arte de subir em telhados

Esses segundos antes da chuva. Essa TPM dos céus. Essa dança macabra das folhas. O vento dando um rasante na piscina e círculos pequenos procriando mais círculos, um dentro do outro. Esse cheiro que sobe do jardim e me deixa tonta com sete anos. Raízes e caules excitadas dançando silenciosamente, subindo pelas minhas pernas sem meias e picadas por pernilongos. Ainda não chove e percebo que amo a palavra “ainda”. Ainda não é outono, ainda não viajei para longe, ainda não vi um ser sair de dentro de mim, ainda não comprei carne sozinha, ainda não saltei de um avião, ainda não chove. Mas essa TPM do céu vai acabar. A gravidade é óbvia, e tudo desce. Água então. Como desce. Talvez arrisque olhar para cima e beber o que nos é dado. Talvez arrisque uns passos em poças, as onomatopéias que envolvem água me fascinam. Splash. Uma sereia em minha vida. Uns cantos que me levam, me hipnotizam. Hoje levei minha mãe nas Paineiras, ela não lembrava da queda d’água. Preciso tanto de água caindo, que apelei. A força daquilo na cabeça é para abrir um cérebro e retirar memórias ruins. E olha que não chove há tempos. A força nem estava tão assim. Ainda. Eu disse ainda. Grama molhada, céu menstruado. Tudo passou. Sorrimos como pinturas de Normal Rockwell. Guardas-chuvas absorventes impedem que eu me ensope. Hoje eu vou fazer uma prece pra Deus, nosso senhor, pra chuva molhar meu amor. Ainda não é outono, mas eu o celebro.

for no one - beatles - revolver

Não entendo tua letra no papel que você me deu junto com teu telefone. Teu nome não é. Pois a letra “p” é de fácil reconhecimento. Ela cai além da linha. Fiquei uns etílicos bons minutos tentando decifrar o que poderia estar escrito. Desisti blasé e liguei o carro. Na ponte, não ando nas beiras. No túnel, não ando nas paredes. Nos viadutos, ocupo as duas pistas. Na auto-escola, tinha medo de cair na baía de Guanabara. E ser só mais um corpo por ali, juntamente com os que construíram e morreram. O fascínio pelo meio não é budista. É puro medo. As paredes dos túneis parecem querer me abraçar. Cair por cima de mim. E eu não quero esse abraço. Vou para o meio, que ali ninguém me toca. Na saída do primeiro túnel do Rebouças, sentido zona norte, a floresta do Cosme Velho estala na minha cara assustada. Amanhece. Estou no meio. Preciso dizer em voz alta: “Que lindo” para que eu acredite no que estou vendo. As caligrafias são tão misteriosas, que cogito parar o carro no meio do túnel e tentar, mais uma vez, decifrar. Mas o viaduto já se faz presente. Pelo visto, estou correndo muito. Uma vez, eu não era nem nascida, mas minha mãe tinha uns 18 anos, o viaduto da Paulo de Frontin caiu. Ela tinha acabado de passar e o viaduto caiu. Caiu. Muitas pessoas morreram. Minha mãe não morreu. Se tivesse morrido, eu só seria esperma paterno. Não há nenhum carro atrás de mim. Esse carro só vai até cento e vinte quilômetros por hora. Posso ir pelo meio. A beirada me faz ter arrepios no couro cabeludo. Talvez esteja com febre. Preciso de uma mão materna na testa. Uma vertigem sem explicação, já que sou alta. Diga que é uma péssima explicação. Diga. Tenho medo de uma coisa que me pertence. A Altura. Mas no túnel não é a altura que me causa medo. É a envergadura da parede. Ela quer cair em cima de mim. Esses abraços desconfortáveis. Não pode. Não posso. Chego em casa, bilhetinho amassado na bolsa, tento tirar o vestido de melindrosa que aluguei para o baile à fantasia que estava, e não consigo. O fecho nas costas, anteriormente fechado na casa de uma amiga, não me obedece. Lembro então que moro sozinha. Não há nem porteiro para me ajudar. Lembro também que tenho braços de polvo. Mas não consigo. E ainda dou um jeito no meu pescoço. Desisto e resolvo então, dormir fantasiada. As vestes que cobrem nossos corpos são tão desnecessárias para dormir, que mesmo cansada, quase não durmo. Acordo com um susto às onze da manhã, vou ao banheiro, me olho no espelho, e estou nua. A fantasia foi embora sozinha. Me livrei. Sou tão livre. Mas hoje não há nada maravilhoso nisso. Descobri que sou sonâmbula. Acordo de novo. Agora sou canhota, mas corto bifes e bolas de vôlei com a mão direita. Talvez você seja canhoto e por isso não entendi tua letra. Nem teu abraço túnel. Nem as tuas beiradas. Eu estou na eminência. Eu estou prestes. Nietzsche me contou que quanto mais você olha para o abismo, mais ele olha para você. Esqueci meus óculos escuros. Mas sou tão alta que espero cair como gata.

Carnaval - parte I

Para foder, nestes tempos que correm, parece que é preciso um escafandro. As pessoas pensam muito em foder. E sofrem muito quando não fodem. Quem não pensa em foder está fodido. Mas as pessoas fodem e não são felizes.

Adília Lopes

As placas dos carros [e meu delírio momentâneo]

a agudeza da solidão no túnel rebouças
um carro passa, o homem sorri para mim
LOV na traseira
o amor me ultrapassa
não esqueço o sorriso
mas esqueço a ultrapassada
logo em seguida, LEO me dá uma fechada
abro o vidro e grito qualquer coisa que só faz sentido para mim
{tamanha a velocidade}
stop, não foi a vida.
comecei a ler 3 clássicos:
Miller, Tolstoi e outro que esqueci
mas parei com todos
caminho na rua
tropeço
e LER estala na minha cara de varizes bochechais
o mundo tão high
a gravidade se fazendo óbvia
rápido movimento dos olhos e LOW me reduz
ainda no mundo high,
LEI me assusta.
sou tão tolinha
que o meu poderia ser LET
mas para constrangimento próprio e coletivo, é KYS
eu nunca fui do plural
eu nunca fui de KIS e bau bau
sempre tive LAR e mingau
KEM me procura?
LSD vagando em minha língua de Gene Simons

KAI,
placa%20rio.jpg eu fiz tudo pra você gostar de mim

A morte nas ruas da cidade

A feiosa de cara, morre,
A que mostra a perna, na mesa ao lado, morre,
A colega casada, dois filhos, morre,
A caixa do C&A, morre,
A magricela de preto, nervosa, morre,
A trocadora mulata, toda boa, morre,
A cinquentona da praia, morre,
A adolescente tonta, morre,
A metida de óculos, morre,
A prima mineira, morre,
A médica das crianças, morre
A mulher do amigo, morre,
A peituda da farmácia, morre,
A de cabelo curtinho, morre,
A paraibinha, morre,
A gordinha no elevador, morre,
A desajeitada com bracinho de talidomida, morre,
A gringa sardenta, de pelo ruivinho, morre,
A neguinha suada de peitinho duro, morre,
A vizinha do 402, finalmente, morre.

(escrito em mesa do Petisco da Vila)

Ora, ora, dona Aurora

Querido metroblog:
Sei que ando relapsa com você, prometo melhorar.
Só vim aqui dizer que ontem tive uma experiência antropológica incrível. Vi um mendigo, uma madame, uma mulher pobre com 3 filhos e um senhor de paletó, todos felizes e próximos um do outro.
Onde?
Em frente à C&A tijucana, claro.
Eu também ia parar pra receber um ar que não estivesse acima dos quarenta graus, mas achei melhor ficar de fora, observando os seres estranhos em bonita harmonia, com o tradicional papo de elevador: “Calor, né?” - “Muito abafado, menina”.
O mais feliz parecia ser o mendigo, já que esse usava apenas um short, escondendo seu sexo. A madame tinha um leque e maquiagem borrada - estilo noiva abandonada. A mãe dos 3 filhos estava na dúvida se entrava na loja para olhar uma blusinha por 12,90 ou se mandava a mais velha tomar conta do mais novo, enquanto o do meio, sentado na calçada, quase era pisoteado pelo homem de paletó, que fez cara de tesão, quando sentiu o vento gelado da loja chegar na sua cara.

Outro dia dei risada ao ler uma frase numa agenda velha:
“Nacionalismo é uma doença que se cura viajando”

Quanto mais viajo, mais amo o Rio. De longe, dou valor a seus pequenos tesouros, escondidos ou expostos. É bom estar de volta.

Estou ainda num ritmo baiano, de modo que tomo um susto, quando Nilo, meu dentista, e amigo da família há anos, me pára em frente à C&A e diz: “Ora, ora, dona Aurora….”
Nilo é uma das pessoas mais engraçadas do mundo, e em 7 segundos me põe em dia sobre o mundo: caos carioca, chuvas matadoras, morte do Saddam e do James Brown. Comenta sobre minha nova cor. Mas diz que mesmo bronzeada nunca vou conseguir esconder as olheiras. Eu aponto para o quadro antropológico, Nilo ri e diz que a C&A deixa as pessoas felizes. Nos despedimos. Vou para um lado, ele vai para o outro. Em 2 minutos, ele volta. E diz que eu nasci na época errada. Lembro que ainda preciso arrancar 2 sisos. Digo: “Adeus, Nilo, adeus”.
Volto para casa a pé. Oscilo entre o lado direito e esquerdo da Conde de Bonfim. Sou tão estrangeira dentro da minha própria casa. Vou dormir, ouvindo barulhos de tiros. Voltei para casa. Não ligo o ar, embora a memória da C&A esteja tão fresca em mim. Acordo e percebo que com esse bronzeado, meu corretivo de olheiras não funcionará.

Caixa de saída

Querido B,
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