Archive for the ‘Poesia’ Category

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Querida amiga,
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Cine Roxy, uma história de amor.

—Chamaria carta secreta do velho oeste ou crônica de um amor pouco ou meu coração bate à meia-noite ou um cão lambeu meu pé ou um dia esponjoso ou se por demais, foi por de menos ou perfume de senhoras ou unhas vermelhas de Carmem Maura ou suar suar suar ou ritmo rouco ou uma rua à esquerda após o sinal ou patadas escusas por debaixo da mesa ou pálpebras dobradas ou ela não ligou nunca mais ou sim, eu queria tanto ou tentação crocante ou escada rolante de shopping center ou assiste deitado e dorme ou garganta inflamada ou um ipê chora ou o sol brilha laranja na parede ou calma, calma, mas tudo passa tudo passará ou suco de amora gelado ou disco arranhado do Fernando Mendes ou cabelos soltos ou passarinho calado vive em gaiola dourada ou quanta agonia, Azucena! ou frigideira chiando ou ele costuma jogar pôquer ou cavalo-marinho, cobra-do-mar ou alguma coisa assim:
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Laranjada pt.1

Quinta-feira é agitado, nasce do morno da quarta-feira à noite o dia frenesi e, a essa altura, as morenas da Praça Mauá não acertam mais os olhos na linha do horizonte sem deixar cair um deles no fundo do mar. E os bancários, ah, os bancários e os contadores estão chegando para dar um logoff nas operações de subtração e soma. Tiveram um dia de cão. Advogados falam muito alto na Rua México para saber quem vai pagar a conta das estagiárias quando elas deixarem os botecos antes das oito pra pegar o segundo tempo de Direito Civil na faculdade que fica na Praia de Botafogo.

Ninguém ainda me chamou ao telefone pra contar o que fará de divertimento. Já pressinto os papos nos breaks a respeito da obrigação de fazer alguma coisa amanhã para anular os aborrecimentos. A Santa Inquisição, flanco presente em qualquer escritoriozinho de meia idade, quer saber qual tipo de tortura vocês vão preferir no sábado de manhã para compensar o álcool do dia anterior: há os que dão plantão. E é certo que “plantão” é uma atividade que beira a caridade, ou seja, “eu não estou DE plantão, eu OFEREÇO a minha disponibilidade.” Não havendo escolha, é possível que se mereça o dinheiro multiplicado por dois, o que, em qualquer caso, pra passar um sábado (ou até domingo) esquentando a banha numa tarefa 1% desgastante é uma mixaria. Tal putaria me enfeza.

Amanhã é sexta-feira, pavor. Parece que o sol nasce antes e mais disposto a queimar mais. Nos dias de chuva, a água vem pouca, com promessas de sol e tempo bom. O trânsito encalacra: nas arquibancadas dos ônibus, pedaços de pessoas espremidas nas janelas. E o velho bom humor, sumido desde segunda, invade as padarias, as farmácias, os postos de gasolina, as bancas de jornal. As pessoas brilham nas sextas-feiras, elas vão ao trabalho mais dispostas e com mais vontade. Mas trabalham menos. Elas põem a roupa do happy hour e cadê que esse relógio não dá 18h? Quem não espera loucamente o final da semana que levante o braço. Eu não levantei o meu. O que me cansa é a pressão na sexta-feira, que, no meu caso é sempre um dia de descanso. O espírito da sexta-feira não deve ser dado a grandes transtornos; tivemos uma semana tensa, no máximo deve ser oferecido a grandes bebedeiras (o que pode transformar a sexta-feira num grande evento e até numa catástrofe). Em todo o caso, voto para chamar os amigos, calçar um qualquer no pé e conversar ao banho do álcool moderado para esperar o sábado, o dia internacional da recompensa pela semana fia das puta que nos têm dado desde que ficamos grandes e sabidos. Trabalhar é uma merda - Mesmo fazendo o que se gosta, trabalhar vai ser sempre uma merda. Chega uma hora que SOCORRO
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blue.JPG

Não sei se é a primavera
Não sei se foi o sol de hoje
Só sei que todo mundo te olha
quando você sai de azul

Todo O mundo.

Não sei se tenho tantos sorrisos reservas
Só sei que saí de azul
E mesmo com os olhares
Me senti muito, muito blue

Narinha

queria tomar um café
com bananas
em companhia da gioconda
dos subúrbios

lhindonésia

minha parafernália
a minha pilantralha
a minha tropilantra

dia amarelo de verão
céu azul
e meu amor vermelho
por lhindonésia

não vou chateá-la
falando do barquinho
de Ipanema
ou de cinema
novo

morena rosa, boca-de-ouro
mulher amada
maria ninguém
cheirando a abacaxi

encostada ao pau-brasil
me convida para ouvi-la
desafinar uma canção
sobre a tardinha.

Para Nara Leão e Bia Bonduki

Vitamina C (entavos)

Tudo beeeeem lentamente: a velha corcunda encosta na banca de frutas, apanha uma com a mão direita, observa bem, aí abre a mão esquerda, aproxima-a do rosto, confere as moedas suadas que estão nela, olha outra vez a fruta, a placa com o quilo da fruta, confere de novo as moedas, faz um muchocho e come as moedas.

Seja solidário: ceda o lugar

PIPUM: Próxima es-ta-ção: Co-e-lho Neto. Desembarque, pelo lado, direito.

- Quando você chegar em casa, me manda uma foto sua?
- Mando. Você não tem?
- Não. E quando a gente vai embora eu tento lembrar o teu rosto e não consigo. Quer dizer, consigo, mas o rosto que aparece na minha cabeça não é o seu, mas o de uma garota parecida com você, sabe? Acho que ainda não decorei o teu rosto.
- E eu conheço ela?
- Não, nem eu! Uma garota que eu nunca vi, tô te dizendo. Ela se forma assim, do nada, e pega o teu lugar. Parecida contigo só.
- E como ela é?

PUNHÉÉÉÉÉÉÉÉÉMMMM… FLOOSH!

- Ah, o cabelo é assim igual o teu, a roupa também. Mas o rosto… Mais fino. Os olhos puxados. E o nariz é menor um pouquinho…………………………………………….. Que é que foi? Hein? …………………… Fala.
- Ah, não gostei dela.
- Cê tá com ciúme???
- Mais bonita que eu… Ah, pára. Me solta…
- Mas eu nunca vi! Só na cabeça……………………………………………………………… Fala, Flávia ………………………………………………………………………………………………………..

PIPUM: Próxima es-ta-ção: Colégio. Desembarque, pelo lado, direito.

Conto de Natal

- O senhor. Já por aqui? Não tá muito cedo não?
- Fica quieto, Niltim, e põe uma cana aí.

Papai Noel vira o copo numa talagada. Coça a barba branca e puxa o suor acumulado nas dobrinhas do sovaco:

- Calor demais, Niltim. Quero ver se neste ano eu começo o serviço mais cedo e me mando logo pra casa. Assim, no começo de dezembro, entende? Tô velho demais pra esse negócio. Pro calor dessa cidade.

Niltim pergunta se não seria o caso de trocar o trenó e as renas por um helicóptero com ar-condicinado. Papai Noel diz que não, seria um risco, um “suicídio de marketing”, como dizia o agente dele. As crianças poderiam estranhar Papai Noel sem rena.

- Mas posso antecipar a entrega dos presentes. O tempo tá louco, o clima tá louco, qualquer coisa a gente bota a culpa no El Niño, nas calotas polares, no puto do George W.

Nisso, entra um chinês no bar. Daqueles que vendem coisinhas luminosas e piscantes.

- … - diz o chinês, apertando uma lanterninha na cara do Papai Noel.
- Fica pra próxima, campeão - sorri o Bom Velhinho.
- … - ele repete, agora com um minigame equipado com isqueiro e canivete.
- Não, não… Na próxima.
- … - e saca uma caveirinha que dança e toca música.
- Porra, mas tu é chato, hein, xará? Chato pra cacete você. Não tem outro pra encher o saco não? Outro!

E eis que Papai Noel tem a sacação: botar um outro no lugar dele. Vestido de Papai Noel. Todo mundo faz isso, não faz? E não cola? Então: ladrão que rouba ladrão…

- Vais fazer o quê em dezembro, China? Vamo falá de negócio?
- …!!!

Final das contas: para alívio do comércio, das crianças, do Roberto Carlos e de todos aqueles que ainda apreciam o Natal no dia 25 de dezembro, a data foi preservada. E a cidade ficou ainda mais piscante e bunita com todo mundo recebendo só e tão somente lanterninhas, minigames com isqueiro, caveirinhas dançantes, luzinhas, muitas luzinhas, luzinhas made in China.

Da série brincadeiras cariocas: Cidade Alta

Leia atentamente ao parágrafo abaixo e responda à questão:

“Perdi uma virgindade extra no sábado passado e essa minha primeira vez foi muito mais do que eu poderia esperar. Logo no primeiro encontro, ele se apresenta portentoso e me mostra suas escolhas raras, de tão bom gosto. Ele é delicado, elegante, suas roupas são de grifes internacionais e seus sapatos, desenhados com exclusividade pelos melhores estilistas do ramo. Ele conhece tecnologia como só os holandeses entendem e tem paladar apuradíssimo para sorvetes. Ele tem caminhos que fiz questão de desconhecer por tanto tempo, justamente porque sabia que poderiam me iludir. E iludiram. Ele me fez carinho desde a garagem e, ao entrar em sua casa, cada quarto seu me era um mundo inatingível, mas lindo de se admirar. E a cada passo dado por seus salões imensos de iluminação baixa, eu sonhava ainda mais com aqueles brinquedos todos, e me perguntava como diabos ele tinha aquilo tudo e continuava sendo assim, tão low profile. Concedi calada, mas com gosto, que ele me penetrasse com toda a elegância. Eu não tinha nada para oferecer, mas ele me quis ainda assim. E quando entrei em uma de suas salas de banho, foi aí que veio o gozo - eu era uma dama e tinha à minha disposição medicamentos, algodão, agulha, linha para tecido e até para cotton. E eu disse sim.”

Quem é esse carioca tão cheio de charme?

O vencedor ganha um beijo da Christiane Torloni e um abraço da Marília Pêra.

Boa sorte!

R

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