Archive for the ‘Poesia’ Category

Seja solidário: ceda o lugar

PIPUM: Próxima es-ta-ção: Co-e-lho Neto. Desembarque, pelo lado, direito.

– Quando você chegar em casa, me manda uma foto sua?
– Mando. Você não tem?
– Não. E quando a gente vai embora eu tento lembrar o teu rosto e não consigo. Quer dizer, consigo, mas o rosto que aparece na minha cabeça não é o seu, mas o de uma garota parecida com você, sabe? Acho que ainda não decorei o teu rosto.
– E eu conheço ela?
– Não, nem eu! Uma garota que eu nunca vi, tô te dizendo. Ela se forma assim, do nada, e pega o teu lugar. Parecida contigo só.
– E como ela é?

PUNHÉÉÉÉÉÉÉÉÉMMMM… FLOOSH!

– Ah, o cabelo é assim igual o teu, a roupa também. Mas o rosto… Mais fino. Os olhos puxados. E o nariz é menor um pouquinho…………………………………………….. Que é que foi? Hein? …………………… Fala.
– Ah, não gostei dela.
– Cê tá com ciúme???
– Mais bonita que eu… Ah, pára. Me solta…
– Mas eu nunca vi! Só na cabeça……………………………………………………………… Fala, Flávia ………………………………………………………………………………………………………..

PIPUM: Próxima es-ta-ção: Colégio. Desembarque, pelo lado, direito.

Conto de Natal

– O senhor. Já por aqui? Não tá muito cedo não?
– Fica quieto, Niltim, e põe uma cana aí.

Papai Noel vira o copo numa talagada. Coça a barba branca e puxa o suor acumulado nas dobrinhas do sovaco:

– Calor demais, Niltim. Quero ver se neste ano eu começo o serviço mais cedo e me mando logo pra casa. Assim, no começo de dezembro, entende? Tô velho demais pra esse negócio. Pro calor dessa cidade.

Niltim pergunta se não seria o caso de trocar o trenó e as renas por um helicóptero com ar-condicinado. Papai Noel diz que não, seria um risco, um “suicídio de marketing”, como dizia o agente dele. As crianças poderiam estranhar Papai Noel sem rena.

– Mas posso antecipar a entrega dos presentes. O tempo tá louco, o clima tá louco, qualquer coisa a gente bota a culpa no El Niño, nas calotas polares, no puto do George W.

Nisso, entra um chinês no bar. Daqueles que vendem coisinhas luminosas e piscantes.

– … – diz o chinês, apertando uma lanterninha na cara do Papai Noel.
– Fica pra próxima, campeão – sorri o Bom Velhinho.
– … – ele repete, agora com um minigame equipado com isqueiro e canivete.
– Não, não… Na próxima.
– … – e saca uma caveirinha que dança e toca música.
– Porra, mas tu é chato, hein, xará? Chato pra cacete você. Não tem outro pra encher o saco não? Outro!

E eis que Papai Noel tem a sacação: botar um outro no lugar dele. Vestido de Papai Noel. Todo mundo faz isso, não faz? E não cola? Então: ladrão que rouba ladrão…

– Vais fazer o quê em dezembro, China? Vamo falá de negócio?
– …!!!

Final das contas: para alívio do comércio, das crianças, do Roberto Carlos e de todos aqueles que ainda apreciam o Natal no dia 25 de dezembro, a data foi preservada. E a cidade ficou ainda mais piscante e bunita com todo mundo recebendo só e tão somente lanterninhas, minigames com isqueiro, caveirinhas dançantes, luzinhas, muitas luzinhas, luzinhas made in China.

Da série brincadeiras cariocas: Cidade Alta

Leia atentamente ao parágrafo abaixo e responda à questão:

“Perdi uma virgindade extra no sábado passado e essa minha primeira vez foi muito mais do que eu poderia esperar. Logo no primeiro encontro, ele se apresenta portentoso e me mostra suas escolhas raras, de tão bom gosto. Ele é delicado, elegante, suas roupas são de grifes internacionais e seus sapatos, desenhados com exclusividade pelos melhores estilistas do ramo. Ele conhece tecnologia como só os holandeses entendem e tem paladar apuradíssimo para sorvetes. Ele tem caminhos que fiz questão de desconhecer por tanto tempo, justamente porque sabia que poderiam me iludir. E iludiram. Ele me fez carinho desde a garagem e, ao entrar em sua casa, cada quarto seu me era um mundo inatingível, mas lindo de se admirar. E a cada passo dado por seus salões imensos de iluminação baixa, eu sonhava ainda mais com aqueles brinquedos todos, e me perguntava como diabos ele tinha aquilo tudo e continuava sendo assim, tão low profile. Concedi calada, mas com gosto, que ele me penetrasse com toda a elegância. Eu não tinha nada para oferecer, mas ele me quis ainda assim. E quando entrei em uma de suas salas de banho, foi aí que veio o gozo – eu era uma dama e tinha à minha disposição medicamentos, algodão, agulha, linha para tecido e até para cotton. E eu disse sim.”

Quem é esse carioca tão cheio de charme?

O vencedor ganha um beijo da Christiane Torloni e um abraço da Marília Pêra.

Boa sorte!

R

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O

Depois do Municipal, a farmácia

(escrito em maio de 2006)

“Ciúme me dá frio. Ponho logo um casaquinho para que pare. Sonhei com a ópera. A cabeça no travesseiro e a mente em italiano. La mamma morta. Sempre cai lágrima com Maria Callas. Sempre. E isso destrói meu dia. Hoje vi sua alma vagando pela rua. Digo sua alma, pois eu te matei há mais ou menos 5 meses. Tenho sorte de ter capacidade de sorrir com facilidade. Tem gente que… Não. O resto da pêra que não comi agora está marrom. Microfone com gosto de outra boca não é bom. Sou tão solitária, pai. Sou minha própria lombriga. Estou dentro de mim mesma, me comendo, aos poucos. Aluguei um filme chato. Foi bem constrangedor. Ontem mesmo depois da ópera, sangrei. Não era hora. Acho que foi a ópera. Ela ri com dentes separados e lindos e diz: “Que poético, amiga.” Mas na verdade só sinto cólica. E nada de poesia. Papai comprou um travesseiro de 170 reais que a NASA programou. Vai me emprestar qualquer dia desses. Em Brasília, quase 3 horas. Minha solitária faz barulhos estranhos, depois fica bem silenciosa. Como eu. Faz frio. Sou áspera e tola de ciúmes. O sobretudo não me aquece tanto, mas sobretudo faz peso em meus ombros. O sono sempre vem para quem tem peso nos ombros. Papai vai me emprestar o travesseiro do espaço. E vou ter o sonho mais lindo da minha vida. Não resisto. E chupo o resto marrom da pêra. Meu carro não tem freio. Mas meu pé acha que sim. Antigamente eu me achava profissional. Concluí meu amadorismo hoje, agora há pouco, tremendo de ciúm… digo, de frio. É desconcertante rever almas pelas ruas. Eu sou tão antiga. Tão, tão. Sou tão escadaria do Municipal. Tão. Gosto tanto da gramática utilizada corretamente. É ridículo, eu sei. Mas é mais ainda quando… Papai vai demorar horrores para me emprestar o travesseiro.”

– Só isso, garota?
– Vocês têm remédio pra verme?

A boa e velha janela dos fundos

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Um prédio fumando nuvem.
Um prédio sonhando nuvem.
Um prédio exclamando nuvem.
Um prédio tirando o chapéu de nuvem para cumprimentar os outros prédios.
Um prédio soldado raso levantando a mão de nuvem: “Sim, general: eu vou na frente!”
Um prédio passando embaixo de um prédio e levando um vaso de nuvens espatifado na cabeça.

Redentor (ou como Reich abre os braços para a minha Guanabara)

de olhos fechados não escuto
os passarinhos
com os ouvidos em conchas persigo
o mais profundo caracol sob a terra –
que é meu corpo –
e contenho todo o sal
na superfície da lágrima.
lágrima
palavra de água doce
que brota dessa minha terra e corre –
com ciúme –
ao encontro deste mar, que aqui é teu.

é que no Rio, o mar é rio
e esse rio é o meu mar.

Trilhos noturnos

Da dobra da baía vemos tudo.
Água morna que faz flutuar os barcos e todo o resto.
O luar que vem da Praia do Flamengo ilumina a poça d´água:
luz branca que vibra à velocidade somada de todos os corações.
Calma com cheiro de maresia,
os pescadores tentando catar os únicos corpos que se movem…
Lixo comestível.
O silêncio é rasgado pelas ventas do 512, que faz curva rente e quase toca o pneu na calçada alta de pedra. Segue como um trem louco, até debaixo do antigo cassino…
As baratas se divertem, dão risada.
Baratas tontas. Preocupadas com a festa nos bueiros, ignoram a própria sorte.
Quem está sempre com fome procura apenas comida, não há contexto para nada além.
Ri melhor quem as esmaga com a sola dos sapatos; mesmo que elas continuem presentes, agora entranhadas na sola do Adidas.
A música vem de tempos em tempos, som forte e agudo; começa baixinho, chega perto, passa de repente.
Se fosse há vinte anos, viria de um Chevette com rádio barato; agora vem dos Samsungs e Motorolas, com seus toques em mp3.
O otimismo me diz que são menos irritantes do que o onipresente toque padrão dos Nokia.
A farra é rasgada pelo motor a diesel do Metrô de Superfície, que faz curva rente e quase toca o pneu na calçada alta de pedra. Vai deslizando fora dos trilhos como um trem louco, até debaixo do antigo cassino…
As baratas deram no pé, as conversas e os toques em mp3 se abafaram por alguns instantes, o peixe desistiu de morder a isca, a cerveja rendeu seu último gole.
Ao longe, repentinos fogos de artifício nos rumos do Dona Marta marcam o clímax do passeio, explosões e cores reverberando no mar e nas montanhas.
Missão cumprida, já não somos mais os mesmos.
Pegamos as bicicletas e voltamos, nos trilhos do metrô, até a estação de nossa casa.

“Declarações públicas de amor” OU “Haikai com bula”

Adamastor ama Clarinda
Leo & Bia
Doors
Borel
TJB
CV
?

Como as cidades são a pátria do anonimato, e é muito fácil você ser um ninguém no meio de tanta gente, as pessoas gostam de demarcar território deixando idéias, mensagens e afirmações de credo e preferência nas paredes, nos bancos, nas portas dos banheiros.

No tempo dos meus avós, os casais apaixonados deixavam declarações de amor gravadas a canivete nas árvores do Passeio Público, do Campo de Santana, da Quinta da Boa Vista. Como as pessoas tinham nomes mais pomposos, compostos, nomes compridos, a tarefa exigia paciência e equilíbrio, duas virtudes, aliás, dos amores pra sempre. Bom, os amores poderiam até não durar pra sempre, mas as juras de amor duravam muito, anos a fio, no caule de um ipê-roxo. Melhor assim, porque no fim das contas o que vale é a jura.

Depois que os nomes compridos e namorar no parque viraram coisa de gente careta, o lance era deixar teu amor circular por aí, morô? Livre, leve e solto, escrito com fúria e desequilíbrio (duas virtudes das paixões inesquecíveis) no banco de um ônibus, por exemplo. Escrito a pincel atômico, como a bomba –faça amor, não faça guerra.

Mas além do amor, do sexo e das drogas tinha o rock and roll, né? É… E os nossos heróis, depois de morrerem de overdose aos 27, iam parar na camiseta, na tatuagem, no poster da porta do armário, ou no banco do metrô, yeah, yeah, yeah!

Aí ninguém mais se ligava muito nesse negócio de amor, de paz na Terra aos hippies de boa vontade, o bagulho era zoar, correr baixo por aí que nem fera da noite, de baile em baile, de teco em teco, Vinho São Roque e busão, e o que valia era o amor aos família, aos irmãozinho do peito, tá ligado?, à galera da área – e louvar a própria procedência, às vezes afirmando o orgulho que a Cidade Partida lhe teima em negar, passou a ser mais importante que louvar a mulher amada.

Depois que os nomes compridos, namorar no parque e zoar com a galera viraram coisa de cuzão, o negócio passou a ser bagunçar com a tua galera dando porrada em outra galera. Se não fosse no baile, seria no Maraca, domingo à tarde, eu, meus parceiros e o bandeirão. TJB, Força, Raça, Young Flu.

Hoje os tempos são outros, tempos de pouco verbo. Quem comanda é o Comandô.

Demorô?
Vai saber.
Só sei que chegô –
e que eu já li mais amor por aí.

chuva doce

chove gordo
as velhas diabéticas de Copacabana
derretem pela calçada
atrapalhando o mendigo friorento que tre-tre-treme
meus olhos estão na altura de todos os guarda-chuvas
as chuvas estão guardadas, meu não amor
e estou ficando cega

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