Soy loco por ti, América
“Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras, canções de guerra,
quem sabe canções do mar”

Recadinho em um banco do 125 (Central X General Osório), na manhã de hoje.
“Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras, canções de guerra,
quem sabe canções do mar”

Recadinho em um banco do 125 (Central X General Osório), na manhã de hoje.

Não gosto muito de Carnaval. Sempre foi assim. Toda vez que o Carnaval estava chegando eu me estressava. Só de escrever este post eu já dei uma estressadinha. As únicas coisas boas desta ocasião, pra mim, eram os cinco dias de feriado, porque dava pra ficar de bobeira, ir ao cinema ou então viajar. Depois, mais velho, aprendi que enchendo bem a cara - muito mesmo - era possível aturar aquelas mesmas marchinhas de cem anos atrás, aquelas pessoas arrastando os pés debaixo do sol, alternando os dois dedinhos para cima e entoando “E as pastorinhas, Pra consolo da lua”, etc. Noel Rosa que me perdoe mas eu aprendi que Carnaval era bom pra pegar mulher, isso sim! Ia pro boteco ou comprava a garrafa de cana com os amigos, enchia a cara e depois saía na rua bastante bêbado, arrastando os pés, alternando os dois dedinhos pra cima, entoando “E as pastorinhas, Pra consolo da lua” e só pegando a mulherada que dava sopa no caminho. Na verdade acabei repetindo este ritual dezenas e dezenas de vezes em dezenas e dezenas de ruas de cidades diferentes: São João Del Rei, Ouro Preto, Recife, Olinda, Aracajú, Natal, Fotaleza, São Luis, Santa Rita do Passa Quatro, Ilhéus, Piúma, Fortaleza, Friburgo… namorei e bebi bastante pelo Brasil afora. Detesto Carnaval mas sou um grande folião, after all. Ultimamente tenho saído em uns blocos de rua aqui no Rio. Todo ano surgem novos blocos de rua por aqui. Até que são divertidos. Eu gosto menos daqueles que tocam apenas, única e exaustivamente a sua própria marchinha ou samba-enredo do ano. É muito chato mesmo. No ano passado saí no Quizomba e improvisei uma barba de Bin Laden feita com serpentina que catei na rua. Fez sucesso entre o povo. Ano que vem estou pensando em me fantasiar de “eleitor feliz por morar em um país de ladrões e corruptos”. Não sei bem como vai ser, mas a máscara será feita em madeira, isso eu já sei.
Foto: detalhe de Lula de Pelúcia, do companheiro Raul Mourão.
Você acha que já viu de tudo nesta vida mas - contrariando toda a harmonia do sistema solar e suas órbitas - em 2006 os cariocas poderão votar em Alexandre Bacchi. É o candidato de número 4328, Partido Verde.
Gosto do Fernando Gabeira. Já votei no Fernando Gabeira, de modos que fiquei surpreso ao vê-lo - ele, o ex-guerrilheiro, o deputado do Posto 9, da descriminalização da maconha, das liberdades sexuais, de questões tão acima do monocórdio blablablá coronelista dos nossos parlamentares - voltando: confesso que fiquei surpreso ao vê-lo na capa da Veja desta semana sendo saudado como a “utopia possível do Brasil” e “a figura mais habilitada para levantar a bandeira da moralidade na política”.
Sempre esperei isso do Gabeira. Só não esperava isso de Veja!
Anda estranho o nosso Brasil.

A melhor frase de todas, na minha opinião, foi a do cartaz aí em cima. Cauê é mauricinho.

Teve até quem se vestiu de “Cauê” - com direito a dentinhos de Vampiro.

Neste 7 de setembro, dia da independência, a avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, foi tomada por dois desfiles antagônicos. Uma pista foi tomada pelos militares, que rumaram em direção à Candelária, exibindo seus armamentos e seu patriotismo. Na outra pista, caminhando no sentido contrário, em direção à estátua de Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, havia centenas de manifestantes dos mais diversos movimentos sociais: sem terra, sem teto, militantes negros, feministas, sindicalistas etc. De um lado, o silêncio das armas. Do outro, o grito dos excluídos.

Vice-prefeito eleito na chapa de Cesar Maia (PFL), Otavio Leite tem orgulho de seu patrimônio legislativo: faz questão de dizer que é autor de 122 leis que estão em vigor na cidade e no Estado do Rio, depois de quatro mandatos parlamentares. A maioria delas, em defesa de interesses de deficientes físicos, medidas de estímulo ao turismo e regulamentação de adoção de áreas verdes. [Globo.com]
I-n-a-c-r-e-d-i-t-á-v-e-l. A boca-de-urna do cara é uma caixa de leite ambulante, espirrando leitinho de ladinho… Otavio Leite, sacô, sacô? Olha, não dá. Aliás, nem dando.
Até política no Rio de Janeiro vira atração turística.

O prefeito do Rio, Cesar Maia, botou na rua uma lei que proíbe os menores de idade de fazerem tatuagens e/ou piercings. Mesmo se papai autorizar por escrito. Mesmo se mamãe for junto. Projeto de lei do vereador Jairo Souza Santos Filho (PSC), que usa na política o nome artístico de “Dr. Jairinho”. Parte da opinião pública já está chiando por intermédio da imprensa. A OAB já se posicionou a respeito. Tentam provar por A+B que trata-se de uma medida inconstitucional. Fica o dito pelo não dito e enquanto isso Cesar Maia justica a decisão dizendo ser grave o problema dos “pontos clandestinos” onde jovens faziam seus piercings e tatuagens sem “as devidas condições de segurança e higiene”. Por enquanto ainda não foi cogitada a possiblidade de fiscalização e regulamentação eficientes no que diz respeito a estes serviços e estabelecimentos, enquanto possível solução e opção a esta lei surreal. Seguindo o mesmo raciocício, se a população começar a comprar pão em padarias não-regulamentadas e/ou que não estejam em dia com seus impostos, Mr. Cesar vai proibir o consumo do mesmo.

Quem passa pelo largo da Carioca na hora do almoço está acostumado a ser bombardeado por mensagens de todos os tipos: panfletos de políticos, pregação evangélica, propaganda de agiotas… Mas hoje uma mensagem diferente era divulgada na praça: a defesa pelo voto nulo. O Rio de Janeiro é uma das poucas cidades do País onde foi montado um comitê Pró-Voto Nulo. Os integrantes, na sua maioria estudantes anarquistas, estenderam um mural com recortes de jornal sobre os escândalos recentes da política nacional, distribuíram panfletos, levantaram faixas e discursaram em um megafone.
Muita gente parou para conversar com os estudantes e extravasar sua insatisfação com o cenário político atual. Animados com a receptividade da população, os manifestantes cantaram um hilário samba composto por eles próprios no qual havia versos como: “Não vou votar, vou anular (Ah, vou anular!)/E nessa vou me organizar (Ah, me organizar!)”. E o refrão: “É 00 e confirma, eô!”. A empolgação dos garotos contrastava com a apatia dos militantes pagos que passeavam cabisbaixos pela praça com placas e bandeiras de seus patrões candidatos.
Esses estudantes defendem o voto nulo enquanto expressão de sua discordância à democracia representativa. Em vez de eleger políticos para lhes representar, são a favor de um modelo de democracia direta, em que o povo se organiza em busca das mudanças sociais que anseia. A frase “Existe política além do voto”, escrita em uma das faixas expostas no ato de hoje, ilustra bem essa idéia: mais do que apenas votar nulo, eles defendem a luta social no dia a dia e acreditam que somente a pressão popular consegue modificar as leis do país a favor do povo.